domingo, 20 de maio de 2018

Prendas domésticas



Era esta a profissão incluída na certidão de casamento de Regininha quando uniu-se em matrimônio e lágrimas ao Carlos Antônio, eletricista. Isso foi nos idos dos 70. Sonhou com o colorido woodstock para acordar de branco pálido no altar. Escondia a verdade solitária de que amava mesmo era o Jimmy (tanto fazia, Page ou Hendrix) e daria qualquer coisa para ser como Janis. Antes do sim, tentou fugir. Não admitia para si aquele noivo, cabeça oca de bom coração. O pai severo e apreciador de boleros foi quem descobriu a trouxa de roupas. Queimou batas, entortou as lentes redondas da filha e disse que se a encontrasse de novo acendendo incensos e ouvindo música pervertida seria internada em Barbacena. Regininha chorou, fez greve de fome, pichou no quarto símbolos pagãos de paz e amor. Sem resultado. A mãe, muda por opção, olhava na filha e via seu retrato. Beatle, o cão, ressonava junto com a dona, amuado. Não teve remédio. Aprendeu a cozinhar porco a pururuca, frango com quiabo, salada de nabo. Passava os dias fazendo da vassoura seu microfone enquanto Carlos Antônio não voltava da lida. Cantava fingindo fumar talos de couve enquanto bebericava refrigerante no copo de uísque. O tempo passou e assim como os sonhos de Regininha acabaram também seus dissabores. O casamento terminou como um festival de rock: ressaca, lama e roupa suja. Agora divorciada, ouvia sem escutar as lamurias dos filhos, sentia doer a artrite reumatoide e degustava deliciada os vinis empoeirados dos tempos de solteira. Foi morar com Roger e Dave e enquanto estes miavam entediados, pensava que talvez o destino não tivesse sido assim tão ruim ao lhe negar um lugar ao sol. Gostava de ficar sob a lua cheia no sossego de sua varanda respirando o ar puro do anonimato, ouvindo um "novo" disco dos Stones. Afinal poderia ter morrido aos 27. Não sentia falta da heroína que nunca experimentou. No auge dos 68 concluiu que dançou conforme a música certa. Uma harmonia simples e pobre mas toda feita para ela.

Marina Costa