domingo, 15 de abril de 2018

Prosápia


Fonte: https://www.flickr.com/photos/backwoodsbarbiexx/8101806123/lightbox/
Era do lado de fora da porta. Deixava tudo enevoado e subia sinuosa, se enfrestando pelos muitos espaços vazios do diálogo atravessado, sublimando toda e qualquer possibilidade de uma convivência sem pigarro. Soprava em cada poro transformando um inocente querer em vontade mortal de simplesmente existir. Tomava formas várias antes de desaparecer, demoníacas para um, libertárias para o outro e sob a discussão que causava ria fantasmagoricamente estridente. Foi quando os dois, despertados pela gargalhada gasosa, se entreolharam receosos. Apagaram cigarro e luz, silenciaram a raiva quente e de mãos dadas resolveram abrir uma caixa de doces há muito esquecida. O objeto piscou e soprou para longe aquele gás venenoso. Estava redondamente morta de vontade de lhes inflar a vida de outras formas menos doídas. Até o próximo riscar de fósforos.

Marina Costa