domingo, 15 de outubro de 2017

Embotão

 
Através da cortina fechada, a luz translúcida do meio da tarde entra macia pela janela aberta. Um mormaço amainado pelo ventilador ligado se espalha pelo quarto provocando gotas salgadas de suor no buço ressonante da tarde de sábado. Em um sono agitado por dores, hora sorri, hora retorce a boca, em um estado semiconsciente do corpo prostrado. O ontem começou choroso e o hoje, ainda que claro e quente, não amanheceu renascido. Mas o sol ardente faz promessas. Ela abre um olho, passa a canhota pela fronte molhada, com a destra toma um gole da água que dormiu o mesmo sono morno. Senta-se e sente o rosto inchado de tanto pensar. Da torrente infinda de memórias, conjecturas, dores, algo escorreu, respingou pelo chão nu e evaporou. Sobrou, ao que parece, uma folha em branco, pouco marcada. Ela não sabe o que escrever e decide tentar rabiscar o amanhã. Vai em direção ao chuveiro, as pernas pachorras, a boca sussurrando uma música sem letra. Sente-se como uma melodia de Tiersen... repleta de nada, melancolicamente graciosa e de certa forma em paz com a confusão que é estar viva.

Marina Costa