terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Noctâmbula


Acordei no 30 e fui voraz ao pote de tinta. De posse da pena, pulei sobre o bloco de notas, espatifando mesa e letras. Sentei inspirando leve e abri os olhos para as cores do mundo ao meu redor. Tudo era cinza. O gato não sabia mais miar e até o sol, pleno durante todo o mês, se escondeu tímido detrás de uma cumulonimbus. Levantei e corri para os livros. Era como se eu não mais soubesse ler, nada me diziam. Tentei um café mas o pó estava vencido e a rapadura fora consumida por formigas que, estranhamente, não andavam mais em fila. O que acontecia naquele dia atípico eu não entendia. Acendi um cigarro sem fogo ou faísca e a fumaça também não se via. Em desalento, me deitei e foi então que as estrelas baixaram seu brilho sobre a cama, afastando tetos e paredes para de uma só vez milhares de imagens explodirem em minha mente enquanto adormecia. 

Marina Costa