quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Olvidado F. C.


Ele corria, tranquilo apesar da pressa, pensando na vida do dia e no futebol da noite, satisfeito a considerar ambos vitória certa. Foi quando, distraído, enfiou o pé num buraco do passeio e caiu. Bateu a cabeça no ponto de ônibus e ficou alguns minutos desacordado. A multidão já se aglomerava quando então voltou a si. Perguntaram quem era, se estava bem. Ele respondeu que "sim, estava ótimo foi só um tombo bobo, claro que sabia quem era, oras". Rindo amarelo, bateu o pó da roupa e voltou a correr. Trabalhou o dia todo, fumou o cigarro depois do café, ligou para a mãe avisando que não ia jantar. Tomou uma no bar e contente como antes foi pra casa.
Ao entrar no apartamento, notou algo estranho. Acendeu a luz. Deu de cara com bandeirolas, uniformes, faixas, apitos, bonecos humanóides com camisa de time. Pisou um passo atrás e olhou o número da porta, para ter certeza de que definitivamente não entrara na casa errada. Os móveis eram os seus, o cheiro era o mesmo já conhecido mas não fazia a menor ideia de como aquelas tranqueiras haviam ido parar ali. Só podia ser uma troça de seus amigos que, coincidentemente, não paravam de ligar.
- Zé, cadê você?
- Em casa uê, onde mais iria estar?
- Pô Zé, estamos te esperando, para entrar no estádio!!
- Estádio? Eu?
- Zé, quer parar de zoação? O jogo já vai começar!
Ele desligou, irritado. Aquela brincadeira já havia ido longe demais. Começou a juntar a quinquilharia torcedora, enfiou tudo em um saco preto e colocou no lixo. Tranquilamente, sentou-se no sofá, tirou os sapatos e abriu uma soda. "Hunf", pensava, "cada coisa que a gente tem que aturar desses fanáticos". E esqueceu o assunto assim que começou a novela das nove, que sem entender por quê, assistia com atenção. 
 
Marina Costa