domingo, 7 de outubro de 2007

Olhos


Marina Costa

Ela entrou na loja mais uma vez. Há alguns dias já passava por ali, sem muita atenção. Hoje parecia decidida. Olhou um por um. Experimentou o maior, virou o rosto de lado, abaixou a cabeça, mas estava meio largo. O vendedor só observava. Se aproximou, ela não sorriu e ele disse estar a disposição.

Ficou largo. Tremendo, ela lançou mão de outro. Um mais fino, de lentes semi opacas. Não, não ficou bom. Mas o vendedor não o disse. Apenas assentiu quando ela perguntou o que achava. "Talvez este fique melhor", ele lhe entregou. Ela olhou segurando pela haste, girou os óculos em sua mão e desconsiderou. "Não, muito moderno, talvez". "Não gosta de designs modernos?" – foi a deixa para ele. "Eu até aceito" – respondeu ela – "mas prefiro os rústicos. Na vida não teríamos problemas se fossemos todos mais rústicos". "Hum, fácil dizer quando se tem dinheiro para despender em um objeto medíocre de preço exorbitante." Ele pensou. Na sua função não podia concordar com o que pensava ou seria hipócrita ao receber as comissões. Mas, é a vida. Devemos aceitar certas verdades sujas, para tentar viver em paz. E além disso, se encantou por aqueles olhos. Nada lhe chamava mais atenção. O perfume caro, o jeito tímido e frágil mas cheio de si, nada fazia tanta vista e mexia tanto com ele quanto aqueles olhos. Cheios, exuberantes, castanhos comuns com um brilho único. Poderia derreter qualquer homem apenas com a sua simples função de calmamente olhar. Os olhos, normais. Mas que olhos...

"Quanto é?" a pergunta dela o tirou de devaneios. "O preço normal é R$1.600,00. À vista, poderei fazê-lo por R$ 1.400,00." "Vou levar." "Bom – pensou ele – não tem nada de rústico. E a não ser pelo detalhe nas laterais, é exatamente o modelo que ela recusou por ser 'moderno'. Uma pena. Olhos tão belos em alguém tão incerta de suas próprias opiniões. Aposto que odeia Mozart, mas vive a ouvir música clássica, para exibir uma intelectualidade fingida. Com certeza é dessas pessoas que criam uma personalidade para impressionar. Músicas refinadas, filmes ucranianos, tudo incrivelmente chato mas dito inteligente. A única coisa verdadeira nela são seus olhos. Por eles pode-se ver tudo. Como têm medo de ser quem realmente deseja, porque não poderia viver no mundo que nasceu. Talvez seja para isso os óculos grandes, esconder a única parte de si que pode lhe trair...". "Ei, rapaz, não ouviu? Disse que vou levar!". Essa rispidez já era esperada. Apreçou-se no embrulho, no trato com a máquina de dinheiro de plástico. Propositadamente, passou o cartão de forma errada, culpando a máquina, só para apreciar por mais tempo os olhos. Ela percebeu. Tirou os óculos recém comprados e escondeu o objeto de adoração daquele petulante vendedor. O encanto se quebrou e ele voltou à sua rotina de atendente.

"Obrigada, senhorita." Lá se foi ela. Agora segura, com os óculos no rosto, para esconder a vergonha de ter uma alma fria e oca. Ele se deixou ficar na porta, observando. Lamentavelmente, são assim a maioria dos clientes daquela loja. Tentam atenuar com o dinheiro as coisas tristes que o mundo insiste em mostrar. Se escondem em lojas caras, construídas em mundos forjados, onde a podridão que produzem em suas casas, a pobreza com a qual contribuem em cada esquina é excluída da realidade. Uma cegueira auto imposta e necessária. Certa vez falara disso com seu gerente. "Ah, José! – foi a resposta dele – Infelizmente, ou felizmente talvez, fazemos parte da massa meu amigo, somos proletariado. As coisas tristes da vida nos edificam, nos fazem querer ser melhores, querer lutar, dividir. Por estas pessoas devemos ter desprezo ou até um pouco de compaixão. São fracas. E se chegam a algum lugar é por causa de uma tradição de longa data, que está toda errada, mas só nós, aqui embaixo, é que percebemos isso " – foi o que ele disse. Deu de ombros e completou – "vamos trabalhar, meu amigo. Nem Saramago, nem Marx vão nos levar a lugar nenhum!".

José concordou. Entrou e suspirou resignado, indo cuidar de seus a fazeres.






quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Canto de Gari


Henrique Fendrich

Como todas as pessoas, eu adoro a chuva. Mas, como todas as pessoas, exijo algumas condições para gostar dela. 1) Que eu esteja em casa enquanto estiver chovendo. 2) Que assim que eu pensar em sair de casa a chuva passe. 3) Que mesmo estando em casa, a chuva não dure mais que alguns dias (afinal, eu também gosto dos dias ensolarados). 4) Que eu abrace alguém enquanto olhar a chuva pela janela, e depois a gente assista a alguma coisa juntos. 5) Que no final do dia a chuva dê uma trégua, e a gente possa sentir o cheirinho de terra.

Bem se vê que muito dificilmente me verei satisfeito em todas as minhas condições. Agora mesmo a condição 1 está sendo desrespeitada clamorosamente. Cá estou eu, no meio da rua, enquanto desaba um tremendo pé d'água. Daqueles aguaceiros que guarda-chuva nenhum resolve. E além do mais, como estou caminhando (certamente a chuva ignora que tenho compromissos e que não posso esperar que ela resolva passar), tenho que desviar de poças d´água que se acumulam na calçada. Não é sempre que consigo, de modo que tenho os pés molhados. E pra piorar, de vez em quando o vento se mete a tentar virar meu guarda-chuva.

Enquanto sigo lamentando o azar de estar na rua num dia como esse, vejo um gari que se aproxima. Veste uma capa de chuva, mas nem por isso se molha menos do que eu. Penso comigo que as coisas poderiam ser muito pior. Eu estava reclamando, mas com certeza era melhor tomar chuva enquanto ia a algum lugar do que ter que trabalhar debaixo de chuva, como exigia a profissão daquele sujeito. Tive pena do homem, e imaginei como devia estar se sentindo péssimo, ao ter que trabalhar naquele dia, limpando todas as nossas sujeiras materiais. Caminhávamos em direções opostas, e quando nos cruzamos, pensei em dar ao homem um sorriso de compreensão, algo que na verdade quisesse dizer "eu sei, eu sei... mas fazer o quê!?". Estava pronto para consolá-lo. Então ele passou por mim... assobiando! Assobiava alguma música alegre, que o fazia esquecer a chuva que caia. Parecia nem notar. Estava contente, e não reclamava. Não reparou em mim, e continuou trabalhando e assobiando. Celebrando a minha estupidez. Nada nos humilha mais do que canto de gari em dia de chuva.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Aniversário

Era um dia qualquer, ainda que segunda-feira. Nada o diferenciava dos demais, a não ser que era o dia de se voltar à rotina. Estava eu com o cérebro ainda no domingo, quando ela surgiu na minha frente. Obviamente, não nos víamos desde sexta-feira. Nem passou pela nossa cabeça que houvesse algum motivo pra nos vermos ou nos falarmos no fim de semana. Mas agora estávamos ali, numa segunda-feira que significava a volta das coisas à sua normalidade. Ela se deparou comigo, e sorriu. Imediatamente sorri também. Mesmo se eu não quisesse, seria impossível não ter sorrido. Depois dos tradicionais beijinhos no rosto (três, que é pra casar), ainda me deu um abraço. Tão apertado como há muito eu não recebia. Como se isso fosse natural, como se ninguém estivesse vendo. Como se nos amássemos, como se tivéssemos pensado no outro o fim de semana inteiro. E no entanto, nada disso era verdade. Aconteceu apenas que ela era afetuosa por natureza, e abraçava com entusiasmo todo mundo que não lhe fazia mal.

Outra amiga estava chegando e viu a cena. Estranhou tamanha demonstração de afeto. Um abraço em local público! Veio até mim e, um tanto constrangida, perguntou:

- Mas então, hoje é seu aniversário?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Puta


Henrique Fendrich

De chico. Hoje não vai ter, então? Que nada! Pra tudo se dá um jeito. Foi ao mercado, enquanto ouvia gracinhas de toda a parte. Senhores de respeito, os mais sérios e puritanos. Falavam coisas escondidos. Covardes. De soslaio, viu uma antiga vizinha. Uma vez elas trocaram farpas. Ela que começou. Me xingou, aí teve que ouvir também, porque eu não tenho sangue de barata. O que a vizinha tinha a ver com a vida dela? Nada. Falava de metida que era. Gente fuxiqueira que não tem o que fazer. Vive sempre no bem-bom, depois acha que pode ficar criticando. Eita mundo pequeno, tinha que encontrar ela bem aqui... Se afastou. Sabia que a vizinha era casada. Mas então quem é esse senhor que tá junto dela? Tá perto demais pro meu gosto. Olha só, segurou a mão dela! Safada! Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço, né? É isso? Puta que o pariu, que ódio. Se eu não tivesse nessa vida, se eu não precisasse, se eu fosse como ela, cheia de pose, se eu gostasse de homem, eu... meu, eu ia ter um só, o meu homem, único e pra sempre. Mas essa cadela não. Paga de moralista, e olha só. Mas que se foda, não vou me estressar por causa dessaí. Sempre teve de tudo. Vamos em frente. Estendeu a mão até a prateleira e pegou uma caixa de algodão. Foi pagar. E nada de ter um caixa vazio. Nem o caixa rápido. Achou um que tinha pouca gente. Merda, na frente dela, um maloqueiro, com cara de tarado. Se preparou para ouvir as piadinhas de sempre, galanteios de quem acha que tá abafando, todos fazem isso. Mas ela se enganou. Ele deixou que ela passasse na sua frente na fila, afinal, tava levando só o algodão mesmo, e ele com um carrinho quase cheio. Olhou o que ele comprava. Cheio de coisas de bebê. Devia ser pai. Reparando melhor, viu que tinha uma aliança. Aposto que leva a foto da mulher na carteira. Nem brincou nem nada, cara séria e tals. Beleza, menos mal. Seguiu o caminho de volta. Hoje não tinha facul, podia começar mais cedo. Ia ganhar mais. Perto de mil reais a facul, você acredita nisso? Como é que dá pra pagar um troço desses? Aí não tem outro jeito mesmo. Mas eu quero me formar, trabalhar na área de saúde, sabe. Só que precisa ter grana pra isso né? Foda. Pensava essas coisas. De novo, se lembrou daquela vagabunda do mercado. Foi quando alguns homens apareceram. Aff, tenho nojo deles. Saudades da minha mulher. Somos quase casadas. Eu considero como se fosse mesmo. Meu amor por ela é incondicional, forte mesmo. Ontem ela me perguntou umas coisas. Quis saber se eu gostava de mulher que nem ela só porque fazia trabalho com homem. Não, meu amor. Teve um, apenas um homem por amor. Catorze anos, acho. Treze, sei lá. Foi o primeiro em quase tudo. Mas terminou, fazer o quê. Depois disso que teve a primeira menina, sabe. Foi quando comecei a ter nojo mesmo dos caras. Tão diferentes da gente né? Nojo, só tenho nojo deles, meu amor, eu sempre tive. Ontem ligou aquele cara. Três da manhã. Tem que atender né, senão ele não volta. Vontade de mandar tomar no cu. Mas eu não tenho horário. E eu preciso, aí já viu. Quantos será que vão ser hoje? Cinco ou seis, será? Pior que o preço às vezes é alto, mas muita gente paga. Tem concorrência, isso sempre tem. Aí tem vez que o preço tem que abaixar, senão já era. Não dá pra ficar marcando. Quem vê pensa que entra muita grana. Até entra, mas depende. Mal vem já sai. Ela tem muitas contas pra pagar. Como uma família qualquer. Família que esse povo esquece quando vem aqui. Gente que economiza o mês inteiro só pra poder fazer a festa depois. Claro que não falo nada que o senhor veio aqui. Briguei com a minha esposa, sabe como é. Ah sim, eu entendo. Gente de gabarito, que se alguém descobre, desaba o mundo. Mas ela não tava com coisa hoje? Tava, por isso o algodão. Fez com ele várias bolinhas e colocou pra dentro, naquele lugar. Quanto mais conseguisse, melhor. Aí não desce, né? Absorve, é assim que fala, todo o líquido. Na hora do vamo-ver, vai parecer que tá saindo pela boca. Dane-se. Não, só na carne ela não faz. Tem que colocar. Uma vez ela não teve como fazer nada. Deu problema, mas já tava lá. Correu o risco. Nem é só por causa da doença, é também pensar em como meu amor iria se sentir né. Foi o primeiro. Com esses caras que ela ganha dinheiro. Trata bem. Mais velhos. Os de vinte anos, trato muito mal. É pra eles nem voltarem mais. Ai, ainda por cima isso. Se lembrou de quem havia vindo semana passada. Muito me admira isso. Cada desejo escondido, se eu pudesse eu fazia um livro. Quando a gente vê, nem pensa. Tão sérios, elegantes. Gente de negócio, de direito, que entende das coisas. São os piores, minha filha. Vem aqui e se revelam. Ai, o que eu não tenho que fazer. Pedra ume moída + água, seringa sem agulha, e aí coloco, duas ou três doses, e pronto, vou ter a minha primeira vez de novo, já que isso tanto te satisfaz, seu tarado. E nem vai saber de nada, tolinho. Ela mantém a higiene. O máximo que pode. Já terminou? Segue então para o banheiro, vai tomar um banho. Troca os lençóis. Troca de roupa também. Tem que se preservar. Tô me sacrificando pelos meus pais. O resto da família não tá nem aí. E olhe que tem gente casada, que é pra ser direito, mas nem eles. Eles têm a mesma vida, mas quer tirar eles de lá, não quer ver eles envelhecerem dessa maneira. Arrumar um emprego, de vez em quando alguém fala. Vai se foder, acha que é facil, se nem posso contar a profissão dos meus pais? Nem telefones de referências eu posso dar. Alguém já perguntou se gostava do que faz. Odeio! Mas tenho que pagar a facul. Lá dentro, eu fico horrorizada! Menininhas que têm de tudo, o papai paga tudo, um monte delas, esnobando, se achando. Não dão valor nem pra profissão que tão aprendendo, sabe. Um bando de filha da puta.

domingo, 2 de setembro de 2007

Amor de Papel


Marina Costa

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento...” (*)

Era apaixonada por poesia. Vinícius, Drummond, Shakespeare, Byron... lia de tudo um muito e se maravilhava a cada nova frase impensada, a cada sensação de sublime criação que a leitura lhe proporcionava.... Poemas, poetas!
E passava o dia na biblioteca, a ler e reler os muitos livros daquelas prateleiras tão pouco procuradas nessa era virtual e descartável. Melhor - pensava consigo - pois assim tinha todo aquele tesouro só para si.
Mas eis que, entre os livros e o sepulcral silêncio reinante da biblioteca, alguém a notou. Ferido pelas flechas do travesso cupido, este alguém caiu de amor e desde então passava os dias a admirar aquela leitora incrivelmente atenta.
Não havia um susurro que a fizesse se virar, um riso tímido que a levasse a piscar, nada, por mais grandioso que fosse, perturbava sua serenidade maravilhada de criança admirada.
E ele se apaixonou por aqueles longos cabelos sempre presos com canetas, que volta e meia caiam sobre aquela face alva, devido a necessidade de alguma anotação mais urgente. Se apaixonou por aqueles óculos de aros finos sempre escorregando pelo pequeno nariz. Se apaixonou pela imperturbável emoção de amante ou viúva dos milhares de escritores que roubavam dele toda a atenção merecida. E pelas anotações sem autoria que encontrava dentro dos perfumados livros que ela lhe devolvia.
Tempos depois, sem mais poder conter seus sentimentos e inspirado por versos que ela, tão delicadamente lhe recomendara no dia anterior, acordou com a idéia fixa de declarar-se, parodiando um poeta que de tão conhecido já lhe era seu favorito confidente. Com os olhos atados aos dela, ele diria, entre suspiros:

“Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.” (*)

Decoradas as estrofes, ele se dirigiu a seu, agora, abençoado ofício de, entre outros leitores tão sem brilho, atender aquela bela e misteriosa Dama dos Livros.
Qual foi sua surpresa porém, ao constatar que, naquele dia ela não deu o ar de sua graça. Naquele dia, dentre qualquer outro dos milhares de dias anteriores... Naquele dia...
A medida que o mês envelhecia, a biblioteca ia perdendo seu encanto. A alma do pobre apaixonado perdeu o raio de sol que a iluminava. “O que teria acontecido, oh céus? Por que ela não voltou?” Ele se perguntava enquanto via passar também os meses seguintes sem mais notícias de seu irreal e tão platônico amor. A todo instante, lembrava-se de trágicos finais de amantes em muitos dos romances daquela biblioteca, lembrava-se de “amores de perdição”, “morros de ventos uivantes” e quando se comparava a um Romeu desesperado, caia em lágrimas inconsoláveis por sua Julieta desconhecida e o fim que ela poderia ter encontrado...
Oh triste sina dos apaixonados! Morrer de amor junto ao ser encantado ou na solidão como um pobre desamparado... Sua tristeza era tanto que já o fazia rimar...
E o tempo não parou para ele, tal qual acontece em uma obra clássica. Passou. Ele, a custo, se conformou porém, uma dor eterna e lacinante lhe ficara na alma e quando lhe pediam uma opinião, a respeito do que ler, ele triste, olhos no nada, só sabia susurrar, repetidamente:

“De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
De repente, não mais que de repente!” (*)


E foi assim seu fim anos depois de muito definhar, ele partiu, na esperança de ter um pouco de paz e calor sob sua última morada.
Durante esse tempo, em uma casinha perdida ao longe entre girassóis, a dama dos livros acabou vencida e seduzida pelo vilão dessa história...
Sentada em sua varanda, bebericando uma fumegante xícara de chá amargo, ela escrevia seus próprios poemas e lia, pela internet, os dos grandes, que havia deixado desde de sua decepção por não ter conseguido algo com aquele tímido bibliotecário. Em seu lap top, perdida em um mundo de letras que se reduziu a uma tela de cristal líquido de quinze polegadas, ela se lembrava daquele amor platônico, que lhe levara ao cúmulo de amar algo que odiava - livros - correspondido apenas pela frieza do homem que fez pouco de seu sentimento e não quis compreender seus sedutores gestos calculados, suas dicas literárias repletas de segundas intenções, seus bilhetes apaixonados dentro dos livros que devolvia...
Seu coração endurecido agora só ouvia seus próprios suspiros de raiva, quando a pequena máquina metida a ser pensante lhe fazia outra das suas, ao apagar um novo texto de trinta longas páginas ou acusar um novo vírus desconhecido...
E assim viveu, distante e indiferente transformando sua dor de amor platônico em doces palavras de amor de papel... E quando veio a morte bater-lhe a porta, se entregou de bom grado, na esperança de achar nos braços de algum poeta esquecido o calor que não encontrou nos beijos de seu bem amado.

(*) – As três passagens utilizadas tratam-se de
fragmentos de três sonetos de Vinicius de Moraes,
Soneto de Fidelidade, Soneto do Amor Total
e Soneto de Separação, respectivamente na ordem que aparecem no texto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Saramagueando

Henrique Fendrich
.
Lembro da primeira vez que, por circunstâncias especiais, me vi obrigado a fazer a leitura de um dos livros de José Saramago, do qual nada conhecia até então, e não foi com muito entusiasmo que vi se tratar de uma publicação com mais de 400 páginas, sem qualquer gravura, e com linguagem rebuscada, mas ainda assim me dispus a fazer a leitura, não sem alguma dificuldade, e em pouco tempo já me perguntavam, Que está você achando do livro, assim, como quem já tivesse lido e quisesse confirmar a sua opinião a respeito, ou então apenas por curiosidade, ou então por não ter o que perguntar, e exclamavam ainda, São muitas páginas, mas isso só me diziam quando viam o tamanho do livro que eu carregava, o qual, como já disse, era rico em páginas, e a isso tudo eu me via obrigado a responder e travar colóquios dos mais diversos, Estou ainda na metade, Gostas do que já lestes, Estou me acostumando, De fato não é das maneiras mais simples para se entender, e sempre que falavam assim eu emendava, Ainda mais para alguém com entendimento tão precário como o meu, Que achas tu dessa maneira de escrever, Olha, admiro, mas, Mas o que, Pra falar a verdade, detestaria escrever assim.

domingo, 26 de agosto de 2007

A Caixa


Marina Costa


Televisão. Essencial ou dispensável? As opiniões se divergem a respeito dessa caixa mágica que foi elevada ao ápice do cotidiano humano. Para ela lugar de destaque, sobre o sagrado altar de nossa casa, na estante da sala.

Já faz parte da rotina, ao acordar, almoçar ou chegar em casa, apertar o botão da tv e mergulhar no mundo de informação, fantasia, emoção e futilidade que ela nos traz. Enquanto uns discutem a triste saga da heroína da novela das oito (que, diga-se de passagem, sempre vai terminar linda, leve e feliz nos braços de seu amado, depois de todas as desgraças possíveis sem nenhum trauma, problema financeiro e ainda sem precisar de terapia), outros aguardam ansiosos o ínicio de mais um Big Brother. Afinal precisam de tendências novas, de assuntos novos, de vidas alheias novas para viver pois a sua já é sem graça e comum o suficiente. O jornal do almoço, quando não mostra o rapaz assassinado por ter chutado o cachorro do vizinho, mostra o jovem brutalmente torturado por exibir no peito a paixão pelo seu time de futebol. A vida se tornou extremamente banal. Cérebros vazios resultando em ações sem importância.

Talvez a televisão seja um daqueles famosos casos de mal necessário para a grande maioria. Quem pode viver sem assistir o final de mais uma história fantástica na novela? - E “Malhação” professora? Posso sair mais cedo da aula pra não perder?

Onde estão os livros? O que houve com toda a pompa e glória de Machado de Assis? Senhora é tão interessante quanto as "dos destinos" que desfilam na telinha. Mas e minha preguiça de ler José de Alencar? Ele é um chato descritivo, cheio de detalhes. A vida de hoje é rápida. Sem espaço para coisas miúdas. Por que abrir um livro, se posso sentar no sofá e me transformar em olhos e ouvidos, esquecer quem sou ou que existo. Pensar, tentar entender, pesquisar o vocabulário que nos é cada vez mais escasso, tudo isso cansa! Imaginar dá trabalho demais! Penso, logo existo. Ah! Fala sério, quem disse isso? Viramos comodistas. E depois dizem que a vida é que ficou chata.

Verdade seja dita, como tudo tem sempre dois lados, a tv não é só inutilidade. Existem excelentes documentários instrutivos sobre o funcionamento de nosso ecossistema, sobre brilhantes obras de arte, sobre a vida criativa e muitas vezes novelística de escritores famosos, heróis de guerra, artistas notáveis... Existem filmes inteligentes, minisséries excepcionais que balanceiam o amor e a dor sem toda a dramaticidade exagerada das tramas de maior ibope. Mas nem sempre o que é de qualidade é visto com bons olhos. Vira coisa supérflua, programa de nerd, cultura inútil para nossa pobreza, falta do que fazer....

Vez por outra, tropeçamos em Arnaldos como o Jabour. Mas, convenhamos, na grande maioria das vezes não entendemos a piada porque não assistimos o telejornal e não sabemos do que se trata. Não gostamos de política, muito menos queremos entender. Basta nos sentirmos lesados e indignados para nosso restrito público pessoal e tirarmos o corpo fora fingindo que passamos longe das urnas nas últimas eleições quando algo der errado. “Eu votar nele? Nunca!”

É triste ver tanta informação, tanta instrução, tanta diversão apodrecer nas prateleiras das bibliotecas enquanto na tv não perdemos um capítulo do seriado fútil sobre vidas adolescentes fúteis ou da novela que nunca mostra o lado pobre, o lado da miséria que é humana acima de tudo, mas somente a fantasia de vidas ricas e perfeitas onde sempre há o príncipe no cavalo branco. Fantasia essa que nos deixa encantados demais a ponto de passarmos a querer viver a vida das personagens e entrarmos em depressão quando temos que encarar as nossas próprias. Truques sujos para um ibope barato. Pena que nem todos percebem isso para poder reagir. Por mais que alguém fale, que outros critiquem, que cada um mesmo pense... O triste vírus da futilidade e do comodismo, a necessidade de ver a vida alheia, mesmo que imaginada, já se espalhou por meu corpo e não tenho mais vontade própria para desligar aquele botão.


Pimenta nos olhos dos outros é refresco. E assim seguimos sem saber o que fazer com esse presente de Pandora, com medo consciente da peste que sai de dentro dele mas sem ter forças suficientes para reagir e impedir que nós mesmos acabemos por abri-lo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Até o Fim


Henrique Fendrich

O Partido Inexpressivo do Brasil se reuniu para discutir as novas diretrizes. A começar, resolveram mudar de nome. A sigla PIB já havia rendido algumas confusões ao partido. E além do que, estavam obrigados a fazer alguma fusão com outros partidos. Do contrário, seriam extintos, como todos os demais partidos nanicos. Isso foi decidido pela Assembléia, liderada pela bancada do Partido Que Já Nasceu Gigante do Brasil. O presidente do PIB queria sugestões. Com quem vamos fazer a fusão?

- Que tal com o Partido Expressinho? Tem mais a ver com a gente.

- Eles são de direita, e a gente é de esquerda. Não tem como.

Proposta negada por maioria esmagadora dos votos. E o Partido Revolucionário Ultra Jovem?

- São radicais. A gente é de esquerda, mas nem tanto né? Nada de socialistas extremistas por aqui.

A reunião avançava e não se tomava decisão nenhuma. Recusaram fusões com o Partido do Meio Termo, com o Partido da Falta de Termo e até com o Partido Nanico do Brasil, alegando que os opostos é que se atraem, e além do que, eles tinham umas idéias esquisitas. Todos os partidos iam acabar corrompendo as idéias do PIB, diziam. Mas era preciso escolher um deles e fazer uma fusão, senão o partido sumiria do mapa.

- Alguém tem que ceder! É a nossa sobrevivência!

Mas ninguém no Partido Inexpressivo do Brasil pensava em ceder. Não teve nome novo nenhum, não teve fusão nenhuma, não teve decisão nenhuma. O Partido morreu. Mas os membros estavam felizes. “Fomos coerentes até o fim”, consolavam-se mutuamente.

domingo, 19 de agosto de 2007

Cores


Marina Costa
Sábado cor de rosa choque. Sinal verde. Amiga lilás dando grandes sorrisos vermelhos, cor de fogo. Paixão que vai e vem. Suco de laranja. Abraços dourados com desejos de se cuida. Namorado rosa. Namorada azul. Encontro a dois, mais uma vez multicolorido. Música bacana, às vezes amarela, outras branca. No copo, refrigerante marrom, cheio de bolinhas invisíveis que fazem cócegas na boca. Mais um motivo pra sorrir.

Início da manhã cor de pêssego. Com aquele cheiro doce da fruta. Bom dia com cor de sol. Brilhante. Manhã de brisa. Yin e Yang espreguiçando. No escuro que eu não me permitia ver percebi o lado claro da vida. Mais sorrisos cor de pêra.

Almoço meio roxo. Doce e salgado misturados na barriga. Mas é domingo, tudo é permitido. Dia meio cinza que com o arco íris da vida fica lindo. Arco íris que esteve aqui sempre. Mas como diz uma música que agora não lembro a cor, somente o amor ajuda a iluminar certas trevas...

Chegando segunda, dia bege. Sem cheiro e cheio de uma preguiça inútil. Antes disso adormeço, mergulhando no mais profundo negro. No fundo dos meus sonhos revejo a aquarela da minha vida. Cada dia um tom diferente. E cada tom pintando uma lição de urgência que só pode ser preenchida com minha caixa de lápis de cor.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Escritor Renomado


Henrique Fendrich
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O escritor renomado está em crise. Isso segundo a opinião pública. Sempre aclamado pela crítica por causa de seus comentários inteligentíssimos e sacadas pra lá de espirituosas, o escritor renomado está em crise. Seus livros estão vendendo menos. Até mesmo a sua coluna semanal agora é menos lida. E não faltam cartas que chegam até a sua casa, repletas de reclamações e cobranças. Aonde estão aquelas crônicas que tão bem analisavam o cenário político brasileiro? Aqueles textos com a mais fina ironia, que pareciam vingar um povo tão sofrido diante de mais um escândalo de corrupção, onde estão esses textos? É o que todo mundo quer saber. O escritor renomado deixou passar em branco um escândalo no Senado: nem uma linha a respeito. Querem saber qual a opinião do escritor sobre a crise aérea no Brasil. Nem um pronunciamento a respeito. Pensaram que iria fazer alguma crônica sobre o Panamericano. Nada. Ninguém entendia. Sua opinião sempre era levada em conta, e agora suas crônicas passaram a tratar de temas estranhos, pra não dizer absurdos: falavam sobre passarinhos, borboletas, dias de sol, goiabeiras, modas de viola, banhos no rio, peladas de futebol, cachorros, cheiro de chuva, primavera, galhos de árvores, ruas desertas, folhas secas, pescadores, e pasmém, galinhas, palheiros, armazéns, refrigerantes, e muitas outras coisas que em nada lembravam o escritor sério de outrora. Pelo contrário, lembravam textos de um caipira provinciano. Dizem que isso começou depois que fez aniversário. E não adiantava pedir que escrevesse sobre alguma coisa séria. Fazia como quem não ouvia. A direção do jornal o chamou para uma conversa. Ou ele falava sobre um tema importante da atualidade e deixava de lado as baboseiras melancólicas, ou ia pro olho da rua! Mal ouviu a ameça, o escritor renomado aproveitou que a janela estava aberta, e ao ver uma borboleta que por lá passava, levantou vôo e foi lhe fazer companhia.

domingo, 12 de agosto de 2007

Ampulheta


Marina Costa


Mais um dia dos pais. Como se esse dia não fosse todos os dias para os filhos. Mas não vou entrar nessa história batida de datas comerciais e suas etcéteras.

Passei o dia com meu pai. Agora sou maiorzinha, trabalho, fora, moro sozinha e cheguei ao cúmulo de ter que visitá-lo para vê-lo. Como a vida é engraçada. Faz do cotidiano algo especial. Não no sentido positivo da palavra. No sentido raro.

Enfim. Passamos o dia juntos. Almoçamos. Comentamos sobre coisas da vida. Fidel e Cuba. Bombas no Líbano. Repórteres seqüestrados por facções criminosas. Tenho que reconhecer que os assuntos mudam com o passar dos anos. Antigamente falávamos sobre meu bichinho de estimação. Sobre o jantar das minhas bonecas ou o dever de casa. Agora já entendo o mundo de verdade então podemos conversar sobre coisas sérias. Não sei se isso é bom. Convenhamos que a cada ano que passa, os assuntos ficam mais tristes. Talvez fosse melhor se eu continuasse a ser a eterna princesa do papai e pudesse deixar as guerras no mundo estranho. Mas não tem outro jeito, preciso me armar e lutar como todo mundo.

O que me leva pra frente, é o sabor da alegria que não muda com o passar do tempo. A alegria que inunda meu espírito ao sentar em frente à tv e ver um filme antigo com o meu pai, rindo das suas risadas e ouvindo a legenda que ele lê para mim, como se eu ainda não conseguisse entender as palavras. Ao dar e receber o abraço e a benção que não perdem nunca o sentido de proteção. Ao tirar um cochilo no domingo de tarde segurando a mão do meu eterno herói gigante que me mostra todo dia um mundo onde nada é tão ruim como parece.

Mas o dia passa. E é hora de voltar. Pela janela do carro vejo o sol descendo no horizonte mais uma vez. Majestoso como todas as vezes. Meu pai reconta nossos casos de infância enquanto dirige. Nunca me canso de escutá-los. Para mim é sempre mágico ouvir como eu era inocente e fazia esse velho moço feliz.

Bebendo suas palavras e vendo a luz que vai acabando, sinto a vida como se fossem grãos de areia em uma ampulheta. Sem que a gente perceba, ela vai escoando, escoando. De repente nos damos conta de que já está quase na metade e nem vimos como isso aconteceu. Olhamos para ver se não está quebrada, mas é isso mesmo. O tempo passa, e quando percebemos, já tem mais terra para pisar do que para construir.

O importante é ver se nasceram flores nessa areia. Porque mesmo que chegue o dia em que ela caia completamente, as pétalas do carinho, da felicidade e do amor não vão passar pelo tênue espaço entre vida e morte. São tesouros acima dessa lei divina. E quem sabe talvez, com uma rajada de vento, poderão voar eternamente, na lembrança do que fica, na saudade do que foi.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ancestral


Henrique Fendrich

Do lado de fora, mais um pinheiro que servirá de árvore de Natal, quando for a época. O ar da casa de meus avós parece ser muito mais calmo. As coisas parecem acontecer mais devagar, o que se revela começando pelos gestos pela fala com que nos cumprimentam e contam suas novidades. O que, de maneira alguma, significa menos trabalho. Enquando meu avô cuida da marcenaria, minha avó cuida dos serviços do lar. E eu inexplicavelmente me sinto bem num ambiente assim, contrastante à toda a fúria e agitação que acabo de encontrar pelas ruas da cidade. Não é grande a cidade. Mas está crescendo, e isso não é bom em todos os sentidos, naturalmente. Há um preço a se pagar, mas felizmente sempre há lugares pra se fugir, mesmo dentro dela.

Ainda do lado de fora, há um poço, que nunca mais foi usado. Continua intacto, como prova de um saudoso tempo. Há também o balanço que era a diversão quando íamos vistá-los. Tenho uma foto sentado nele junto com minha prima, ambos nenéns. A gente cresce e o balanço continua lá, servindo para outras crianças que um dia também crescerão, talvez se lembrem dele. Até que um dia, por algum motivo, o tempo faz com que não exista mais balanço, talvez vire apenas uma vaga recordação na memória de alguns.

Entramos e seguimos até a sala. Cadeiras imperiais, onde sentamos pra tomar café em dias festivos. Há ainda uma cadeira de balanço. Parece que se balançar era nossa grande diversão. Na parede, quadros, nem pintados nem fotografados: são bordados. E tudo ao redor remete a um passado que não vivi, mas que muito me interessa recordar.

Pra se chagar ao sótão – sim, há sótão! – deve passar por uma saleta em que meu avô deixa suas coisas e faz seus trabalhos e anotações. Livros de história da cidade, livros com partituras de músicas, registros. Que histórias contam esses papéis? Enfim, coisas antigas. Tenho essa estranha preferência pelo que não é moderno, pelo que já foi. Julgo que não é por isso que tais coisas deixam de fazer parte de mim.

A escada até o sótão range muito – como costumam ser tais escadas. Subo os degraus de dois em dois, e chego na casa do andar de cima, com seus cinco quartos. Foi lá que meu pai e todos os meus tios passaram a infância e a adolescência. Obviamente, lá também encontro um mundo de coisas antigas. Ainda restam brinquedos, cadernos e revistas que não foram levados quando eles se casaram. E me toma uma saudade ancestral, pensamentos sobre o que faziam aqueles que me precederam, num tempo já distante.

E meus avós falam de suas coisas. Certamente achariam estranho que um jovem tivesse tanto interesse em ouvir, aproveitar aqueles instantes. Uma gripe impediu que minha avó nos visitasse. Meu avô continua com dores nas pernas. As pessoas envelhecem.

Acho que me daria bem no Século XIX. Talvez houvesse uma vaguinha pra mim como figurante num romance de Alencar.
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(a meu avô Herbert Alfredo Fendrich, falecido na última segunda-feira)

domingo, 29 de julho de 2007

Redoma de Vidro


Marina Costa

E, um dia, eu cresci! Depois da infância, naquela cidade pequena, olhei pela janela da vida e vi um outro mundo que acreditava glorioso. Meus amigos, minha casa, meus bichos de estimação; no auge de minha inocente ( ou, quem sabe, ignorante ) juventude, ficaram para trás. Eu quis viver o mundo lá fora. “É lá, mãe! Lá que está meu futuro!”

E eu vim. E vi. Vi um mundo com jaulas de concreto que nos trancam, enquanto ladrões andam em liberdade pelas ruas. Vi a miséria humana, que passa por um irmão, sem notar que ele diverge da paisagem. “Ei! – sinto vontade de gritar – este, que te estende a mão, não é só mais um tijolo da parede!” Mas meu grito morre sufocado na garganta, enquanto o homem de terno, imponente e importante, dobra a próxima esquina. Vi que nesta “terra de gigantes”, só eu cuidarei de mim. Não há mais tantos rostos conhecidos com sorrisos de incentivo.
Resta a mim somente eu mesma.

Talvez possa dizer que venci. Pois entre tantas tristezas e privações, descobri que amizades verdadeiras duram mais que uma simples entrega de diplomas. Chega até a virar um “bom dia” diário, risos na hora do jantar com o macarrão instantâneo de todo dia e um abraço amigo para afastar as saudades de um passado que é tão presente.

Descobri que, como meu pai sempre disse, e eu nunca dei ouvidos, o melhor lugar do mundo é a nossa casa e que o dinheiro é mesmo uma coisa muito difícil de ganhar apesar de esvair de meus dedos como areia. Isso tudo, me fez crescer de verdade.

Agora, às vezes escondida, na solidão de meu travesseiro, eu choro por aquela vida tão boa e tranquila que eu deixei. Que eu tive que deixar. Mas, como adulta que me transformei, respondo a minha colega de quarto que as lágrimas não são nada... Apenas uma dor de cabeça que insiste em não me deixar... Ela sorri, pois sabe que eu minto. E eu retribuo seu sorriso amarelo, por que sei que ela sente o mesmo.

Mas, apesar das saudades, tristezas, correria, o dinheiro que voa pela janela aberta e as responsabilidades que aumentam com o passar dos dias, me sinto feliz por ter saído de minha redoma de vidro; pois descobri que o mundo é muito mais real e palpável do que eu jamais supus. E por ter crescido lá, protegida desse mesmo mundo, me tornei mais humana do que muitos jamais o serão. Só não consegui, e não conseguirei nunca, apagar das minhas lembranças o lugar que vivi... Aquele tempo bom que não volta...

Saudosismo? É. Após dois longos anos, entre alegres idas e tristes vindas, me pego a pensar, constantemente, no único lugar que me cabe de verdade, sem faltar ou sobrar espaços.
Minha redoma de Luz. Minha Cidade querida de vidro.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Talita


Henrique Fendrich

Talita de vez em quando me cobra. Quer sair. Quer brincar. Fazer as coisas de que tem direito. Fica impaciente. Tento desconversar, mas não adianta. Ela quer saber o que estou fazendo para as coisas mudarem. "Você não percebe que assim eu me afasto de você?", ela pergunta. Talita diz que do jeito que está não pode ser. Dou um suspiro. Ela tem razão. Articulo uma desculpa. "Eu não levo jeito pra isso". Talita ri, encantadoramente. "Você sabe que é mentira, seu bobo". Começa então a enumerar uma série de argumentos para convencer que sim, eu levo jeito. "E a sua prima? Vai negar que se dão bem?". Eu não ia negar nada. Mas falei que era diferente. Agora foi Talita que suspirou. Parou na minha frente, segurou a minha mão. "Eu confio em você. Muito". Estava séria. Como era bonita. Disse a ela que até podia ser. Mas isso seria no começo, depois eu não saberia mais lidar. Eu iria me tornar um estranho! Talita continuava séria. "Nem nem". Ela imitava a minha fala. "Pra mim não vai. Nunca. Te conheço". E começou a contar seus desejos. Passear. Rir. Ouvir histórias. Eu que conto. Rodopiar. Eu que giro. Felicidade. Os três. "Ou quatro, quando você largar de ser bobo". Talita tinha os olhos fixos em mim, esperando a minha decisão. Com esperança. Diz que vai esperar, claro que espera. Mas quer me ver dando os primeiros passos, e um dia vai chegar a hora. Sim. Eu acreditei nela. Eu também queria. Antes que ela misteriosamente sumisse, ainda pude segurar e ficar balançando as suas mãos, enquanto perguntava:

- Muito bem. Mas Talita, onde é que eu vou arrumar uma mãe pra você?

domingo, 22 de julho de 2007

PANaquice



Créditos da imagem: www.blogueisso.com/category/esporte

Marina Costa

Rede Globo não fala de outra coisa. Posso substituir essas duas primeiras palavras por “Televisão Brasileira”. Afinal, além de Jornal Nacional e novela das 8 (global, claro) o brasileiro não dá muitas notícias de outras coisas.


O último escândalo-piada da vez, um tal de Renan não sei das quantas, presidente de sei lá o quê, já virou rotina e onze em cada dez brasileiros provavelmente nem vão saber mesmo do que se trata. Mas no Pan todo mundo dá pitaco.


Eu, alienada do mundo de notícias televisivas, não sabia que esse tal espetáculo era por agora. Na verdade, há pouco menos de dois meses não dava nem notícia de que seria no Brasil. Mas para minha surpresa, não é que até estádio e vila olímpica o Rio construiu? É o Rio de Janeiro, que continua lindo para o Pan, mesmo depois de guerras com o tráfico. Onde está o tráfico agora? Não sei. Provavelmente, esperando pra ver as delegações desfilarem na avenida. Talvez tomando uma Brahma com a polícia, no barzinho da boca da favela. Tudo em nome do espírito esportivo.


Pista de atletismo com madeira importada da Sibéria. Desculpa, mas eu preciso rir. Muito. Num país em que pessoas passam fome (e preste atenção, elas não estão no Vale do Jequitinhona, mas provavelmente embaixo do viaduto no seu bairro), num país em que nem todos têm acesso à luz elétrica, num país onde a corrupção consegue superar índices de arrecadação (não me pergunte como ainda estamos de pé – se é que estamos), tem-se a coragem de importar madeira da Sibéria. Para dar de andar às bicicletas (importadas, obviamente).


Artistas de renome para abrirem os jogos. Fogos coloridos. Músicas de paz e integração. Fantasias dançantes no meio da avenida. Direção de carnavalesca renomada. Depois querem que o mundo nos respeite. E que não pensem que tudo no Brasil vira festa, regada à pizza.


Não sou contra o esporte. Sou patriota o suficiente para achar fantástico que um evento desse (mesmo nem tendo uma divulgação tão grande lá fora como pensamos) esteja acontecendo no Brasil. Mas já diziam os sábios chineses, se quer ordem, comece pela sua casa.


Comprar madeira importada pra pé de atleta, principalmente os vindos de fora, beira o ridículo. Porque os daqui (tirando o futebol claro, orgulho mor verde amarelo), muitas vezes não podem competir por falta do calçado dado pelo patrocínio inexistente.


Mas Pan é Pan. Vamos esquecer o congresso. Os números sociais. As filas em hospitais, o déficit da previdência.


O povo, isso é mais que provado, gosta mesmo é de pão e circo. O brasileiro já está tão dentro do picadeiro que até da fome esqueceu. Quem sou eu pra questionar a bandeira no lugar mais alto do pódio. Quem sou eu para questionar tanta alegria nesse Pan 2007.


E que venham as medalhas de ouro. E depois alguma outra coisa qualquer, para continuar nos distraindo. Mas por favor, com muita lantejoula e paetê.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Domingo

Tarde de outono que é de verão. Ai de ti, desventurado, que terá a ousadia de sair do seu conforto e enfrentar o raivoso vento que te aguarda. Não há quem escape. Cabelos são bagunçados e nossos esforços não evitam. É esse um sentimento mesquinho de vaidade. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Agora, uma tentativa de se livrar dessas preocupações. Mas eu, fraco, tive outro pensamento egoísta. Te ver andando leve, mas aflita, com uma das mãos tentando segurar o cabelo moreno, tudo pra evitar que seu penteado se desmanchasse, porque sabia que então aconteceria algo de extraordinariamente terrível. Eu, espectador. Sem nada lhe contar nem perturbar, com a superioridade imbecil de quem vê um sofrimento do qual está livre, e sequer sabe o que deve ser feito para cessá-lo: apenas contempla.

Domingo, depois da sobremesa. Ruas desertas, dessa vez não há ninguém que desvie o olhar, não há ninguém que faça coisa alguma. O horizonte atrai, mas no momento, me basta a sombra que eu consigo. Venço por alguns instantes a minha luta contra o sol. Galhos de árvores estão pouco preocupados comigo. Nem comigo nem com ninguém, justiça seja feita. Se movem, certos de que ninguém os observa. Todo movimento é um milagre. Parmênides chamou o movimento de ilusão. Não, ilusão deve ser outra coisa. Ilusão é achar que vou te encontrar de repente, e a gente irá caminhar juntos, a sua mão na minha. Então eu terei certeza que é domingo, porque no domingo as pessoas caminham juntas. E quando eu vejo apenas asfalto pela frente, entendo o que é ilusão. Mas isso não me deixa de todo triste, pelo menos não no domingo. Num instante, as coisas silenciam. Os automóveis cessam. O não-movimento também é ilusão. Porque dura pouco, logo o conjunto de pequenos barulhos e de carros em movimento restaura a normalidade. Basta, a tarde está bonita demais para ser gasta com filosofias.

Hmm, outra tarde triste, mais uma lembrança. Vovô mal, deitado e prestes a partir. Nós nada podíamos ver ou fazer, sequer estávamos perto. Em casa, o medo do que poderia acontecer quando o telefone tocasse. Nada aconteceu. Os olhos fazendo tudo o que sabem fazer. Olhando galhos se balançarem e folhas caírem, longe de casa. Sentir-se desconfortável, mas quase agradável. Um absurdo! A noite passada trouxe discussão. Uma mágoa tola como costumam ser todas. Orgulho ferido, pois afinal de contas, vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Um pensamento vago, indefinível, leve. Essa não era uma tarde pra se lembrar, antes a outra. Ainda que no fundo sejam as mesmas. Nessas horas eu consigo me perdoar e pedir outra vez perdão. A leveza pode ser insustentável, caro Kundera, mas às duas horas da tarde de um domingo ela dura mais.

Ai de mim se a mudança for só uma ilusão e Parmênides estiver certo. Não mudo mesmo, continuo escrevendo coisas incompreensíveis, tolas divagações sobre mim – ó falta de temas! Continuo vendo graça em galhos se balançando, ruas desertas, você segurando o cabelo moreno na luta contra o vento. Continuo me arrependendo dos mesmo erros, e se mágoas existem, elas continuam a ser tolas. Mas também me satisfaço com a sombra que já consegui, tendo o horizonte como consequência. E ainda quero caminhar junto, a sua mão na minha.

Henrique Fendrich

domingo, 8 de julho de 2007

Gramática

* Créditos da imagem: Ziraldo - Uma Professora Muito Maluquinha

Marina Costa

Vez por outra tropeço em uma crase que eu mesma coloquei aonde não devia. Algo que sai sem querer mas com vontade, ainda que incerta. E esse erro premeditado me coloca em situações mais enroladas do que classificar a transitoriedade do verbo. A linguagem é uma fonte de mal entendidos, já dizia sabiamente Exupéry.


É. Ou não é. Depende do ponto de vista, como diria Einstein. Sem a linguagem talvez seríamos mais livres mas eu seria a primeira a ter que abrir mão de fazer o que mais me agrada, que é falar pro papel. Talvez esse seja meu problema: eu só pratico a fala com o papel. Quando me acontece algo como o citado aí em cima, de ter que calar minha voz interior e abrir a boca, me atrapalho toda e passo a concordar com o pai do pequeno príncipe. Haja eloqüência para colocar nos eixos o que eu “joguei na grila” aos brados. Sai a crase na hora errada, eu me embolo na falta de sentido das orações, não consigo formar períodos coerentes e pronto: a concordância que eu tanto queria foi pro beleléu! Meu interlocutor, coitado, me olha com uma cara entre o cômico e o trágico. Ele deve ter adivinhado que a arte do bem dizer não é mesmo meu forte. Meu sorriso fica amarelo, minhas mãos pingam litros de suor gelado e eu não sei mais onde enfiar a cara. Quem sabe em algum dicionário aurélio, penso envergonhada.


Tento consertar minhas frases mas parece ficar cada vez pior. O objeto direto sai tão indireto que se enrola todo, falo tantas conjunções para remendar que fico parecendo um livro de coordenadas sindéticas e, ao invés de entendimento, provoco risos.


Não posso fazer nada. Ninguém nunca vai saber explicar o porquê (ou o por que, ou o porque, ou o por quê) de com alguns sabermos tão bem aonde colocar as benditas preposições enquanto que com outros não tem jeito nem mesmo de fazer a concordância verbal, tudo fica redundante. É o tal de sentimento mesmo. Desnorteia até os mais hábeis narradores.


Tudo o que eu queria, era poder falar milhares de adjetivos... mas sabe-se lá o humor do outro, morro de medo que ele acabe ouvindo um punhado de adjetivos substantivados e aí pronto: ficarei pelo resto da vida subordinada às minhas pobres orações impensadas!


Não tem jeito. Tento falar que “em anexo” é uma locução invariável só pra puxar assunto, ou então conto, cheia de orgulho de minha sintaxe, que quaisquer é a única palavra da nossa língua em que o plural aparece no meio. Não recebo nada além de sorrisos piedosos. No máximo, elogio à minha prolixidade verbal. Prolixidade, bolas! Tenho lá culpa de não conseguir dizer realmente o que quero? Pra mim só eu sei, é fácil! Mas eu não quero namorar o espelho (lembrando ainda que não se usa o “com” junto deste verbo tão especial)! Eu quero auxiliar a desenvoltura do diálogo, pontuar frases dele com minhas exclamações, mostrar que estou determinada a ser determinante do verbo “gostar”, transformar minhas indefinições pronominais em objeto completamente direto, ligado, unido à definição de gênero oposta a minha. Mas vai tentar fazer isso tudo com aquele olhar que te tira a coerência da existência. Me diz depois se é ou não é pior do que classificação adverbial.


Nunca pensei que expressar sentimentos ternos era algo tão difícil, dominado por tantas regras de postura e desenvoltura. Nasci praticamente sabendo falar mas na hora de alinhar meu predicado com aquele sujeito, parece que acabei de sair de uma caverna do fim do mundo e não sei soletrar nem o bê-a-bá.


Suspiro e sento, esperando ouvi-lo dizer um pronome que me agrade. Quem sabe um sonoro “comigo” ou um florido “nós” completado com o numeral “dois”. Com isso sinto que poderia passar em um segundo por todos os infinitivos dos tempos e transformar meu pretérito isolado em futuro mais que perfeito. Poderia viver à base do gerúndio pois tudo em minha vida seria uma constante sem fim: estar sorrindo, estar abraçando, estar amando. Mas a tal ligação de orações não sai. Será esse sujeito tão atrapalhado quanto eu para falar? Ou então ele nem mesmo tem intenção de formar frases para um possível período de união! Ai meu santo dos aflitos do dizer! Enquanto não consigo entender essa morfologia, continuo perdida nessa matéria tão difícil de aprender, que é a gramática da vida.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Tanto


Henrique Fendrich

(micrônica)
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O momento foi feliz, ela não precisaria sequer me contar. Não que eu não quisesse ouvir, ouvia com interesse. Daquele momento feliz eu não pude participar. E o que poderia resultar numa tola inveja, virou uma alegria compartilhada, como seria necessário que acontecesse. Me faziam bem os olhos que brilhavam e me diziam tudo de bom que aconteceu. Eu ouvia sem saber se a felicidade que ela teve era maior que a minha em vê-la contando.
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E nesse instante ela comentou que, em meio à alegria geral, se lembrou tanto de mim... Oh, do que é capaz um reles e simples advérbio de intensidade? "Tanto". Foi então que eu tive certeza que estava diante de um anjo. Já havia lido sobre eles alguma vez, e quem eu tinha diante de mim possuía a maioria das características.
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Falei isso e ela riu. Julguei que seu sorriso era uma confissão. Para não constrangê-la por ter descoberto seu segredo, tentei mudar o assunto. Mas ela ainda quis falar um exagero a meu respeito. Discordei, mas levemente, porque o tempo era de paz, e porque afinal de contas, eu também me lembrei tanto dela...

domingo, 1 de julho de 2007

Escrevo porque...


Marina Costa

Até a poucos minutos atrás nunca me havia feito esta pergunta. Para mim eu escrevia e pronto. Lógico que gosto de ouvir um elogio cá, outro acolá. Mas, como minhas criações são recentes e ficam apenas sobre minhas grandes asas, eu escrevia simplesmente pelo prazer de vê-las crescer!

Mas eis que me cai nas mãos um texto do Frei Beto. Se você não o conhece só posso lamentar. Mas no texto, “Por quê Escrevo?”, ele discorreu sobre o tema. E me deixou tão maravilhada com suas palavras que fiquei com vontade de fazer delas as minhas próprias.

Isso não seria muito bonito. Pois aquele cara ali - não você que não sabe mesmo de quem se trata - mas aquele cara de óculos ali, com cara de inteligente está vendo? Pois é, ele sabe muito bem quem é o Frei Beto. Então, quando ele lesse meu texto diria, fazendo uma careta de desprezo: “ei, essa menina é uma plagiadora sem brio”!!! E assim estaria morta minha embrionária carreira de escritora.

Cheguei a conclusão então que posso explicar por mim mesma por quê escrevo. Logicamente, agora terei muita influência do que li. Mas, como diria Lavoisier, “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

Sem mais enrrolação, eu escrevo porque eu gosto oras! Isso não basta, eu sei! Mas esse seria o meu maior motivo. Escrevo porque gosto de perceber que há mais em mim do que eu mesma suponho. Porque gosto de imaginar um mundo quente e colorido no frio papel em branco. Porque minha cabeça alucinada, que viaja com uma velocidade bem maior do que a da luz no vácuo, precisa se organizar de vez em quando para não entrar em um buraco negro de outra galáxia e sumir.

Escrevo porque o mundo é bonito demais para ficar só na lembrança. E também porque ele é feio demais para caber apenas no meu revoltado coração.

Escrevo porque não sei dizer tudo o que penso com a boca. Precisaria de muito mais bocas para isso. Então Deus me deu dedos.
Eu escrevo também porque assim me sinto criadora. Olho com carinho para minhas criaturas e, mesmo que elas pareçam aberrações para uns, lanço-as ao mundo com orgulho, porque são partes reais de mim.

Posso resumir tudo isso em poucas palavras: escrevo porque vivo! Alguns pensam que vivem por pensarem. Outros apenas vivem por dizer, sorrir ou chorar. Outros ainda vivem sem saber que vivem ou acham que vivendo entenderão o que é viver.

Eu escolhi tudo e faço disso o livro da minha vida.

Tirem tudo de mim, roubem meus sonhos, atirem lama em minhas virtudes, elevem ao ápice meus pecados, mas o que sou e sinto estará para sempre gravado pelo fogo da pena nas páginas da minha existência sutil.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Homem

Se um homem tem que ficar esperando a mulher que nunca chega, a justiça está sendo feita. Toda a nossa visível estupidez, a nossa incompreensível falta de sensibilidade, nossa suprema indiferença, nossa mal-disfarçada arrogância, são devidamente vingadas naqueles inacabáveis instantes em que esperamos.

Marca-se um encontro. Não precisa ser um encontro romântico. Pode ser apenas para discutir banalidades, ou mesmo porque as pessoam gostam de marcar encontros. Mas o homem vai se atrasar. Demorou-se demais com coisas que nada importavam. Homem que é, jamais percebe as coisas. Poderia prever o atraso, mas mesmo que isso acontecesse, não faria nada pra impedir. De repente, olha para o relógio. Solta uma palavrão de espanto. Dá-se conta de que chegará um pouco mais tarde. Isso o aborrece. Mas não nos deixemos enganar por causa disso. O que mais o chateia não é a consciência de que deixará sua amada esperando, e sim ter que ouvir o que ela dirá depois. Resmunga porque sabe que vai ter que se explicar. Contar onde esteve, com que pessoas conversou, sobre o que discutiram. Enfim, dar razões para o seu atraso. Toda essa conversa tomará boa parte de seu precioso tempo. Eis porque o homem agora se aborrece. Não aprova a idéia de discutir as coisas. Perde-se muito tempo em tentar explicar. Sabe que poderá facilmente perder a paciência, e com isso chegar ao absurdo de erguer a voz.

Apressa-se. Chega enfim ao local do encontro. Procura e não vê ninguém, o que é muito estranho. Sabia que já era hora dela estar lá, pois ele mesmo estava atrasado. Mulher que é, ela nunca havia se atrasado. Resmunga alguma coisa, e procura um banco pra sentar. Olha insistemente para o relógio e nada. Que linda imagem! Observemos esse sublime instante em que o homem começa a andar em círculos, tira um cigarro e fuma nervosamente. Senta de novo. Levanta. Senta. E nada. Sua amada não aparece. Quer ligar para ela, mas percebe que esqueceu de colocar crédito no celular. Homem que é, sempre esquece das coisas. É pena que as pessoas que passem por ele não dêem a devida atenção ao espetáculo que presenciam: a queda da prepotência, e a sua preocupação com a ausência. Isso o deixa mais nervoso. Homem que é, sempre foi muito bobo. Nunca admitiu a sua dependência. Aquele sorriso faz a diferença no seu dia. Mas ele nunca vai sequer pensar em dizer isso. Não fica bem, sabe.

Começa a pensar no que pode ter acontecido. Murmura o nome dela. Se perguntássemos, talvez confessasse as coisas que não teria coragem se esse fosse um momento comum. Há momentos em que os homens confessam coisas. Da preocupação à paranóia basta um pequeno salto. Revive na memória a última conversa que tiveram. Estava no trabalho ainda. Mal lembra do que falaram, foi uma conversa rápida. Teria ele sido grosso com ela? Suspirou, e admitiu que talvez tivesse sido no mínimo indelicado. Mas isso também não é motivo pra ela sumir, pensa. Esperava, esperava, esperava. E nada. Seria por causa do seu ciúmes? Nunca antes havia admitido que sentia. Estava meio ausente nos últimos tempos. Confessou para si, tristemente.Mais meia hora e esse homem admitiria todas as suas culpas, talvez até o que não tivesse.

Mas eis que, surgida do meio do nada, enxerga finalmente o objeto de seu desejo. Homem que é, disfarçou a sua alegria ao reconher finalmente quem tanto esperava. Viu o sorriso que tão bem lhe fazia, mas não disse nada. Houve um beijo frio. Indignado, perguntou onde diabos ela estava esse tempo todo, que o deixou esperando ali feito bobo. Que ela nem pra avisar, que ele já estava morrendo de preocupação, que ela não se importava com ele, e que isso já vinha há muito tempo.E ela não conseguia contar o que houve. Homem que é, dificilmente aprende alguma coisa.


Henrique Fendrich

domingo, 24 de junho de 2007

Enquanto você dormia


Marina Costa

Não pude mais ficar ao seu lado. Eu tentei ao máximo. Mas a necessidade de ir embora foi maior do que eu. Eu te amei por muito tempo. Posso dizer, sem me arriscar, que você foi o grande e único amor da minha vida e foi só graças a você que eu entendi o que isso queria dizer.


Desde seu primeiro sorriso no colegial, quando sem querer, joguei todos os seus livros no chão. Desde aquele instante. Lutei por você contra todos os outros que te queriam também. Mas ao contrário deles, o que eu sentia por você era verdadeiro. Sofri muito quando vi que acabou me deixando por um deles. Confesso ainda que sentia um prazer masoquista ao ver que nada dava certo pra vocês. E depois, quando você veio se consolar em meus braços, senti que eu era o pior e mais feliz homem do mundo, por ter desejado seu mal visando meu bem. Mas te tive de volta, só pra mim dessa vez.


Não perdi mais tempo e nos casamos. E vivemos um bom tempo assim. A coisa mais bonita que eu já vi na vida foi você dormindo. Era algo próximo do que deveria ser anjos deitados em nuvens num dia de céu claro. Eu acordava todas as manhãs mais cedo, só pra te ver dormir. Te agradeço por todo esse tempo de paz que me deu. Por ter me transformado em uma pessoa melhor com o poder do amor que você tanto defendia e do qual eu, irritantemente, debochava. Não consigo conter uma lágrima por ver como você tinha razão. Minha garganta está apertada, mas não há como me aliviar mais. Meu tempo ao seu lado se esgotou. Acordei um pouco mais cedo para te ver dormir pela última vez e agora não consigo parar de chorar em silêncio. Eu, o homem forte pelo qual você se encantou, chora como um bebê por saber que essa é nossa última noite. Mas não me envergonho. Dentre outras coisas você me ensinou que os céus só são imponentes porque também choram. Concordo mas apesar disso, agora não me sinto como o céu. Definitivamente.


Nesse momento me revolto. Odeio tudo o que com você aprendi a amar. Porque a vida me leva embora. Porque um homem, num momento infeliz, se descuidou de uma bolsa de sangue e agora a minha vida pinga, aos poucos, constantemente. Sei que as últimas gotas estão nesse momento terminando de cair. E odeio tudo por isso.
Me perdoe por não ter te contado. Mas não queria transformar sua vida em um destino injusto. Preferi que você acreditasse que seríamos sim, felizes para sempre. E fomos, não fomos? Mas ao contrário do que acontece nas fábulas, na nossa história o sempre chegou.


Vou em paz. A vida se extingue e trás a serenidade do momento incerto. Não odeio mais nada nem ninguém. Tenho compaixão por aqueles que ainda vão sofrer mas meus olhos agora se voltam para um paraíso. Nunca acreditei na deusa florida que você tantas vezes tentou me mostrar. Mas agora espero que ela me embale em seu colo e não me deixe sofrer. Tenho medo. Sobretudo porque acho que não fui bom como deveria. Mas agora não há mais jeito.


É engraçado como acabamos por nos tornar contempladores da vida justamente quando vamos perdê-la. De tudo na verdade. Somos eternamente saudosistas. Acho que esse é o último ato de bondade que algo maior permite que nos seja concedido: entender que por mais injusto que tudo possa parecer, bem ou mal vivemos coisas boas e no final, a vida vale a pena.


Tento prolongar esse final, mas me sinto fraco. E não quero que você acorde com minha respiração que fica cada minuto mais difícil. Amanhã nossos amigos talvez chorem. Nossos filhos ficarão sem entender porque não podem ver seus desenhos animados e nem sorrir. Deixe-os sorrir, em homenagem a esse homem que tantas vezes sorriu por eles.
As lágrimas passarão, a dor dará lugar à saudade e eu serei pra você apenas as coisas boas que viveu na vida, porque nosso coração esquece convenientemente das mágoas. Fico feliz com isso. Pensando que você só lembrará do que te fiz de bom, fico mais em paz.


Olhe para nossas fotos, aos poucos deixe de pensar no passado pois não pode-se viver apenas de lembranças. Na verdade nem podemos provar que algum passado existiu de fato. No fim das contas, ele acaba se misturando com aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido e aí acreditamos que tudo só foi belo. Só peço que não me culpe por não ter me despedido. Os adeuses são desnecessários e eu nunca gostei de te ver chorar. Na verdade eu estou indo agora porque quero me lembrar na eternidade, se houver mesmo isso, dos seus olhos fechados pelos longos cílios, de sua respiração delicada e constante, do cheiro de rosas que sentia todas as manhãs ao seu lado. E lembre-se sempre que os momentos mais felizes da minha vida eu passei ao seu lado, enquanto você dormia.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Substantivo


Terça, noitinha, lua, retorno, trabalho, ônibus, trânsito, barulho, gente, carros, buzinas, chateação, stress, pressa, aborrecimentos, empurrões, multidão, solidão, melancolia, vazio, solteirice, mesmice, piscar, aparição, surpresa, contentamento, curiosidade, mulher, óculos, blusa, tênis, sacola, celular, nariz, beleza, sorriso, aparelho, companhia, amiga, conversa, encantamento, contemplação, timidez, novidade, esperança, olhares, parada, ônibus, descida, adeus, chegada, casa, jantar, televisão, cama, pensamentos, vontades, lembranças, mulher, perfeição, jeito, cabelo, nariz, dentes, risadas, comportamento, sono, sonhos, mulher, manhã, café, trabalho, repetição, pressa, relógio, vagareza, ansiedade, ônibus, volta, excitação, confirmação, expectativas, reencontro, distância, olhares, disfarces, percepção, reciprocidade, vergonha, disfarces, ruborizamento, alegria, volta, casa, escrivaninha, poesia, versos, convicção, paixão, certeza, segunda, sexta, segunda, sexta, costume, hábito, final, trabalho, ônibus, contemplação, mulher, óculos, reciprocidade, timidez, desejo, necessidade, coragem, conversa, aproximação, decisão, amanhã, revelação, confissão, sentimentos, paixão, coragem, amanhã, ansiedade, confiança, disfarces, aproximação, cumprimentos, constrangimentos, naturalidades, perguntas, início, conversa, risos, piadas, novidades, semelhanças, encantamento, beleza, céu, nuvens, telefones, agenda, ligações, aproximação, amizade, risos, desejos, convite, passeio, parque, domingo, tardinha, sorvete, ansiedade, nervosismo, desejos, espectativa, reciprocidade, realização, beijo, boca, língua, volúpia, delícia, pedido, sinceridade, namoro, aceitação, namorados, felicidade, cumplicidade, aproximação, famílias, sogro, sogra, cunhado, cunhada, jantares, festas, companhia, passeios, domingo, cinema, encontros, apelidos, carinho, caronas, leveza, sorrisos, planos, sucesso, crescimento, empresa, alegria, beijos, beijos, beijos, evolução, relação, sexo, carne, unidade, mulher, sábado, aniversário, festa, surpresa, presente, anel, sorrisos, pedido, noivado, choro, incredulidade, risada, brilho, brincadeiras, aceitação, noivos, beijos, juras, promessas, sonhos, casas, empregos, mudanças, independência, futuro, paz, sossego, perfeição, engano, frustração, surgimento, mulher, vizinha, indecência, liberdade, relação, proximidade, proibição, excitação, auto-controle, resistência, desejo, vontade, coragem, fetiche, libido, traição, peso, consciência, remorso, costume, repetição, traição, desculpas, horas-extras, viagens, desconfiança, dúvidas, cabeça, mulher, ontem, flagra, amassos, noivo, vizinha, safadeza, anel, lixo, lágrimas, amigas, consolo, choro, homens, semelhança, hipocrisia, mentiras, adeus, sumiço, final, fim.

Henrique Fendrich

domingo, 17 de junho de 2007

Catarro


Marina Costa

Do meu lado no ônibus, a menina assoa o nariz. Uma vez. Duas. Três, em apenas cinco minutos. Dou um sorriso amarelo. Coitadinha, quero que ela pense, tão bonitinha e com essa gripe toda. Mas na verdade quero dizer "menina catarrenta, saiu de casa hoje pra quê"?
O ônibus dá uma sacudida e ela espirra. Em cima de mim praticamente. Dou um segundo sorriso, que já está ficando vermelho.


Ela tira da mochila um lenço da "hello kitty". Reparo melhor e vejo que tudo nela é inspirado em algum ser do abominável mundo da tv. Tênis dos "Rebeldes". Na verdade, não sei quem além de adolescentes colocaria no pé- por livre e espontânea vontade - algo com a cara de outros adolescentes, em atitudes pouco naturais. Mais uma vez sinto raiva da indústria capitalista que se aproveita de nossa ignorância juvenil para nos empurrar essas coisas ridículas, que nos deixam iguais a todo mundo, em cada esquina.


A mochila, verde fosforescente, tem o desenho de um simpático sapinho. Enquanto isso, na Amazônia, milhões deles, infortunados por serem feitos de células orgânicas ao invés de lápis de cor, perdem espaço com a destruição de seu habitat, sem ter quem os carregue nas costas, pra longe de tudo aquilo. As pessoas preferem os de brinquedo. Deve ser porque são inertes, fácil de serem manejados, como os próprios seres humanos.


No cabelo dela, milhares de buchinhas de plástico colorido. Fazem vários coquinhos em volta da cabeça. Acho engraçado. Se eu saísse assim na rua, diriam que sou ridícula. Pra ela, que não tem ainda seus vinte e dois, fica "doidinho". Eta povo que tem mania de especificar o guarda roupa alheio pelo número de anos vividos. Olhando ao redor percebo também que escova de cabelo perdeu um pouco da utilidade nesses tempos de gel, fixador, creme pra dormir e outras porcarias pra levar nosso dinheiro e estragar nossos cabelos. E falando desse jeito, pareço uma velha saudosista dos tempos naturais (que nem vivi).


Outro espirro. Dessa vez o lenço não chegou a tempo e ela acabou lambrecando a mão com catarro. Acho que percebeu minha cara de "eca" porque deu um sorrisinho ao limpar a mão na calça do uniforme escolar. Catarro no nosso nariz é refresco, blasfemo o ditado. Se fosse eu a fazer isso, obviamente no escuro do meu quarto, sem fazer barulhos para as pessoas não perceberem que dentro de mim também existem coisas nojentas, não teria problema. Mas vendo essa cena, em plena luz do dia, assim no nariz alheio, me pareceu algo fora dos padrões ditos aceitáveis. Eu que não me lembrei de todo o catarro que escorre do palácio do planalto. O dessa garota ficaria até puro, perto daquele.


Ela puxa assunto, justo comigo que detesto conversar dentro de ônibus, elevador ou qualquer outro lugar. Odeio essas conversas sobre nada que nunca levam a lugar algum, normalmente sobre tempo, trânsito ou o último assassinato escabroso noticiado pelo Super. Coisas pra não deixar o sagrado silêncio reinar. Relutante, tiro um fone do ouvido, para afastar minha auto imposta alienação do mundo. Digo "oi?" na esperança de que ela perceba minha pouca animação com aquele papo iminente. E a menina, sorrindo, pergunta se não tenho uma bala de menta. Dou um sorriso de volta. Queria ter essa cara de pau. Quantas vezes já não quis pedir alguma coisa e minha consciência alertou que não devemos incomodar os outros com nossa vontade. Coisas tolas que aprendemos quando somos crianças indefesas e acabamos assimilando como se fossem verdade, na esperança de conseguir a salvação nos fazendo de vítimas da vida.
A desenvoltura dela me agrada e procuro um chicletes na minha bolsa. "É que vou encontrar com meu namorado na porta da escola sabe? E não queria que ele sentisse esse meu hálito pavoroso". Por sorte, eu não senti nada. Catarro e mau hálito, realmente podem colocar fim a qualquer relacionamento, nesses tempos de tantos cheiros artificiais.


Acho um blister com alguns chicletes e dou pra ela, digo que pode ficar com tudo. "Nó, valeu tia, você é legal". O quê???????? Tia???? Eu????? Sem responder, coloco o fone no ouvido. Mas olha essa, que idade essa pirralha pensa que tenho? Me senti mesmo uma velha reumática e rabugenta. Ainda mais depois de olhar para meu uniforme de trabalho muito sério e meus abomináveis sapatos de bico fino. E de ver minha cara amarrada no reflexo da janela do ônibus. É, ela tem razão... as teias de aranha do meu espírito devem estar começando a externar!


Em pouco tempo outro espirro. Dessa vez, algo gosmento caiu na minha calça preta. Fiquei sem reação. Ela, sem graça disse "no, véi, desculpa" e tirou o lenço pra limpar. Eu corri e disse que podia deixar! Por sorte, achei um guardanapo de papel na bolsa, e dei um jeito mais ou menos no catarro alheio que espirrou em mim. No final das contas, a gente faz isso todo dia mesmo. No sentido figurado, lógico, mas não deixamos de fazer. Fala se continuar pagando imposto com toda essa roubalheira por aí, não é limpar catarro de político com lenço furado?


Vi que ela ficou sem graça. Me surpreendi, porque achava que uma menina com alguns Adidas e Vide Bula espalhados pelo corpo, não ligaria muito pro desconforto alheio. Digo pra ela não se preocupar, não foi nada. Ela sorri sem graça e diz que hoje não queria nem ter saído de casa. Mas as notas andam ruins e a mãe não quis nem conversar. Saiu correndo pra sua massagem dizendo que a filha não tinha nada, era tudo preguiça de menina mimada. Bem, ela podia até ser mimada mas realmente não parecia muito boa.


Então a menina do sapinho continuou, dizendo que havia combinado com o namorado, o Zeca sabe, que conheceu no orkut mas é um carinha gente boa, acabou descobrindo que ele é amigo da vizinho da prima, pois é, combinaram de ir a uma farmácia antes da segunda aula. Ele ficou meio preocupado com a voz dela, que está engraçada a quase duas semanas. Só para o farmacêutico dar uma olhada em você, ele disse, passar umas vitaminas. Pais muito ocupados, sabe como é, eu disse pra ele, se a gente não cuidar de si mesmo, cai na vida.


Esse diálogo me enterneceu. Parecia que aquela menina de uns treze anos era mais uma garotinha que ganhava muitos badulaques coloridos em lugar da atenção dos pais prósperos mas sem tempo para os filhos, ocupados demais com sua vida social e o fim iminente de sua juventude. Presentes e vontades economicamente satisfeitas que não deviam trazer nada além de satisfação momentânea pra ela, para depois ver chegar uma tristeza vazia vinda sabe-se lá de onde. E anos mais tarde, com certeza, tudo isso seria revertido em caras sessões de análise para descobrir traumas de não se sabe o que.


Comentei que trabalhei em farmácia. Ela ficou animada e perguntou o que poderia tomar. Perguntei se a mãe dela estaria em casa. Respondeu que não, a mãe sempre fica o dia todo fora, fazendo compras com as amigas, e ia viajar pra um spa pra perder os quilos que nunca achou. Só ela e a empregada estariam em casa, todo o fim de semana. De novo, comentou rindo. Falei então pra ela comprar um chá vick, mel com própolis, mais um monte de chipes e refrigerante, não muito gelado, veja bem. Depois que alugasse um filme (gostei muito do Irmão Urso, tanto o um quanto o dois) e fosse pra casa, com o namoradinho, ficar embaixo dos cobertores, que no dia seguinte ela estaria boa.


Me olhou como se eu fosse doida. E eu fiquei olhando pra ela como se eu fosse doida. Depois de um tempo a garota começou a sorrir. Me senti como aquele diabinho que aparece no ombro da gente, dando as idéias boas mas indevidas. Ela disse, "sabe que vou fazer isso mesmo! E o Zeca é fera em matemática, ainda dá pra gente estudar um bocado!"


Sorri de volta, concordando. Não vai ser por isso que a menina vai perder o ano, pensei. E pode ser que o que ela precise na verdade seja de uma companhia sincera e algo agradável pra distrair a cabeça.
Ela se despediu e desceu na porta do colégio! Vi ainda o tal Zeca dar um abraço apertado nela e ser arrastado pela mão até o outro lado da rua, no ponto de volta do ônibus.


O meu diabinho sorriu sobre meu ombro, vi a ponta do seu rabinho balançar contente. O anjinho, que não parava de sacudir a cabeça, acabou se chocando contra a janela numa curva mais fechada.
No final das contas, o chifrudinho me disse, a vida não pode ser tão séria assim. Concordei com ele. Se nos pregam peças como catarro, diarréia e outras coisas piores é porque nem tudo deve correr sempre como manda o figurino.

domingo, 10 de junho de 2007

Litoral


O horizonte que o mar anuncia prendia o olhar. O mar encantava. Como que ouvindo uma sublime melodia na boca suave de uma sereia (a mais bela entre todas), sentiu-se atraído. As ondas o desafiavam enquanto passeava pela costa. Ficou indeciso. No fundo, um desejo, irresistível, arrebatador, que só fez aumentar com o tempo. Mas ele, caipira que era, mal sabia nadar. Uma vez havia tentado. Não sabe se saiu-se bem ou mal. As águas se recusaram a responder. Medo. Medo de gente que encara o mar pela primeira vez, e que sabe que deve ousar. Homem simples, de pensamentos complexos e inúteis. Sem outra coisa a fazer que não se atirar nas águas, única forma de vencê-las, superando a si mesmo, os seus medos de caipira. Conversando com homens da água, homens que vivem sempre as coisas do mar, muito melhores que as coisas da terra, ficou sabendo de coisas. Falaram que ele ensinava. Ou insinuava. Não deixava se revelar de todo. Um mistério, carecia de alguém que enfrentasse, nem que fosse um caipira. Ouviu mal e parcamente tudo que lhe falaram. Conselhos de quem já sabia como as coisas eram. Respirou fundo. Era agora. Se atirou, convicto e inseguro. Nadar, coisa de gente experiente. Como andar de bicicleta. Depois nunca mais esquece. Basta o impulso inicial, basta que tirem as rodinhas e que nos deixem ficar soltos, livres pra cair. De pouca coisa tinha certeza, embora soubesse exatamente de tudo. Medo idiota, natural da Cidade Grande, porque é lá que nascem todas as reflexões sem sentido que não deixam a gente fazer o que sabemos que devemos. O encontro com o mar aconteceu a duras penas. Agora estava lá, não podia mais voltar. Sabia que devia nadar com toda a sinceridade. Se entregar totalmente, ficar convencido de que acabaria o dominando, conforme tudo indicava mesmo. Movia braços e pernas, com certo desconforto, mas com esperança. Estaria fazendo os movimentos corretos? Pensou no instrutor que pouco pôde lhe ensinar. Sentiu que tudo que fazia era desengoçado e tosco. Freiou seus movimentos, quando pensou nessas coisas. Esse foi seu maior erro. Ficou subitamente paralisado. Não mexeu mais braços, não bateu mais pernas. E bastava apenas alguma reação dele para que continuasse. Mas não houve reação alguma. Não saiu mais do lugar. Ondas se aproximavam. Era preciso fazer algo enquanto havia tempo. Sabia que devia, mas de repente era como se tivesse esquecido de tudo. Parou, numa incompreensível espera, atrás do momento certo, como se houvesse um momento totalmente certo. De vez em quando se desesperava, dando-se conta do que fazia, e principalmente do que deixava de fazer. Passou a engolir água. Voltou a bater as pernas, a dar braçadas, e dessa vez saindo-se maravilhosamente bem. Mas já era tarde demais. Conseguiu chegar de volta até a praia, mas de nada adiantava. Achou estar a salvo, teimou que estava. Era desespero apenas, não havia mais o que fazer. Antes do fim, viu com alívio que ao menos o mar continuava, e que as águas poderiam enfim ser felizes. Sem ele.

domingo, 3 de junho de 2007

Tormentas

Marina Costa


O que aconteceu com toda a história do papel? O confessionário onde sentimentos são despejados sem serem interrompidos pelas lanças que saem de corações feridos?


O tempo. Esse mal ou bem irremediável que cura feridas, sepulta promessas, destrói ameaças e nos traz talvez o pior de todos os hábitos; a rotina.
A rotina que nos leva a fazer tudo do meio mais fácil para não termos o trabalho de pensar. Mecânico, como se o ser humano fosse mesmo uma máquina. A rotina, que faz com que deixemos de aproveitar a companhia de um ser radiante e iluminado pela simples certeza de que o veremos mais uma vez. A rotina que nos leva a esquecer de algo tão presente em nossos dias; o imprevisto.


Num mundo em que tudo é muito rápido, num mundo onde a certeza deixa de existir no momento seguinte, após virarmos a esquina. O coração, antes tranquilo – “Vou vê-lo de novo.” – se aperta ante a dúvida que surge – “Será?”.
Por isso são tão necessárias as tormentas! Literalmente, as tempestades em copo d’água que por vezes ocorrem dentro de nós trazem ondas furiosas que lavam a alma, ventos alucinados que dissipam maus sentimentos e clareiam a mente, deixando fértil o coração para que nasça novamente a semente do bem querer, fazendo com que vejamos aquele ser como se fosse a primeira vez, com toda a emoção e amor que isso quer dizer.


Por isso, dizem os sábios: sejam intensos.
Amar com intensidade, sentir com intensidade, viver com intensidade, brigar com intensidade nem que seja para sofrer com intensidade.
Pois é o calor do momento que aquece a alma e nos faz sentir vivos, pulsantes, ligados ao mundo.
Que me perdoem tantas tormentas. Mas esse foi o meio que encontrei para deixar em meu ser um campo sempre arado permitindo que sentimentos cálidos possam nascer a todo minuto.

domingo, 27 de maio de 2007

Currículo


Henrique Fendrich



Henrique Fendrich não sabe quem é, e tem pouca noção de para onde está indo. Sua carteira de identidade diz que tem quase 20 anos, embora tenha cara de 16 e cabeça de 13. Sua perturbação atingiu graus consideráveis aos 17 anos, quando precisou ler um livro do Rubem Braga para fazer o vestibular. Desde então, achou que sabia escrever.

Poeta frustrado, optou pelas crônicas por não ter que se preocupar com rimas. Se fosse um poeta, provavelmente seria um parnasiano, cheio de fru-frus e exigente com as normas e com os resultados. Como se preocupa muito com a forma, podemos classificá-lo como cronista parnasiano. Essa preocupação, é bom que se registre, não quer dizer qualidade. Usa títulos de uma palavra só que não querem dizer nada.

Tudo que conseguiu publicar até agora foi um aviso no mural do prédio, avisando os moradores para evitar barulho após às 22h. E isso só após horas de intensa reflexão até encontrar as palavras certas. Não é a pessoa mais indicada para escrever um cartão de aniversário, um bilhete de condolências ou um depoimento no orkut. Demorará muito até que consiga escrever. Quando achar que está terminando, muda de idéia, apaga tudo, e volta à estaca zero. Parnasiano, eu disse.

É daquelas pessoas fracas que costumam ficar em cima do muro. Faça uma pergunta pertinente a ele e observe: ficará pensando, pensando, coçará o queixo. Cruzará os braços, descruzará, se mostrará agitado. Ao final de intermináveis minutos, concluirá: “Não sei”. Tem ainda uma estúpida mania de optar pela terceira opção. A ou B? C! Provavelmente apenas pelo gostinho de contrariar.

Encontra um prazer suspeito em ouvir bandas de rock desconhecidas de qualquer pessoa de bem. É capaz de ouvir numa mesma sequência música clássica, música gaúcha e música tradicional alemã. Tentou tocar violão, mas foi convencido a desistir, antes que mais gente se sentisse “tocada” pela sua música.

Possui, entre seus hábitos estranhos, a procura por octavôs (um octavô é o pai do heptavô e avô do hexavô) e primos em sétimo grau, os quais ainda considera parentes, sendo capaz de tratá-los como um primo-irmão. Decora datas com muita facilidade, embora isso seja meio inútil. Tem memória como daquele animal que nunca esquece... qual animal mesmo?

Tentou jogar futebol, mas os resultados foram óbvios. Começou como atacante, mas aos poucos fizeram com que recuasse. Virou meio-de-campo e depois zagueiro. Antes que tivesse que jogar no gol, pendurou as chuteiras.

É daquelas pessoas tímidas que se metem a fazer faculdade na área de comunicação. Ou resolve o problema ou fica louco. Depois ficou sabendo que seus escritores favoritos também eram jornalistas, e ficou aliviado. Como em geral acontece com escritores, sejam eles ótimos ou medíocres, não possui sorte no amor. Desse azar resulta boa parte das suas crônicas, que na verdade possuem muito pouca ação. Em geral, são apenas divagações tolas em meio a comentários sarcásticos. Nada muito aconselhável para as moças de família.

Nasceu no interior de Santa Catarina, mas foi arrastado até a capital do Paraná, onde sente-se um pouco mais perdido que o usual. Queria ser hippie e sobreviver da venda de artesanato, mas não quer se separar do seu computador. Não é socialista nem capitalista. Bem, eu já disse que ele não sabe o que é. Votou nas últimas eleições, mas nenhum de seus candidatos se elegeu.

Às vezes tem a sensação que finalmente conseguiu formar um raciocínio interessante. Revela sua descoberta a alguém, ansioso. A pessoa escuta e conclui: “Qual!”. Apesar de tudo, ama o ser humano. Tímido que é, observa tudo que acontece ao redor, e fica maravilhado com os caracteres que identifica na multidão. Ama de uma forma simples e suave, talvez mesmo platônica. Mar e ser humano são uma coisa só.

Bem, talvez não seja tão ruim assim. O estudo da sua letra, ou de seus garranchos, revela alguns traços de bondade. E mais do que tudo, tem a esperança do perdão, e pensa que um dia poderá discutir literatura com São Pedro.