domingo, 27 de maio de 2007

Currículo


Henrique Fendrich



Henrique Fendrich não sabe quem é, e tem pouca noção de para onde está indo. Sua carteira de identidade diz que tem quase 20 anos, embora tenha cara de 16 e cabeça de 13. Sua perturbação atingiu graus consideráveis aos 17 anos, quando precisou ler um livro do Rubem Braga para fazer o vestibular. Desde então, achou que sabia escrever.

Poeta frustrado, optou pelas crônicas por não ter que se preocupar com rimas. Se fosse um poeta, provavelmente seria um parnasiano, cheio de fru-frus e exigente com as normas e com os resultados. Como se preocupa muito com a forma, podemos classificá-lo como cronista parnasiano. Essa preocupação, é bom que se registre, não quer dizer qualidade. Usa títulos de uma palavra só que não querem dizer nada.

Tudo que conseguiu publicar até agora foi um aviso no mural do prédio, avisando os moradores para evitar barulho após às 22h. E isso só após horas de intensa reflexão até encontrar as palavras certas. Não é a pessoa mais indicada para escrever um cartão de aniversário, um bilhete de condolências ou um depoimento no orkut. Demorará muito até que consiga escrever. Quando achar que está terminando, muda de idéia, apaga tudo, e volta à estaca zero. Parnasiano, eu disse.

É daquelas pessoas fracas que costumam ficar em cima do muro. Faça uma pergunta pertinente a ele e observe: ficará pensando, pensando, coçará o queixo. Cruzará os braços, descruzará, se mostrará agitado. Ao final de intermináveis minutos, concluirá: “Não sei”. Tem ainda uma estúpida mania de optar pela terceira opção. A ou B? C! Provavelmente apenas pelo gostinho de contrariar.

Encontra um prazer suspeito em ouvir bandas de rock desconhecidas de qualquer pessoa de bem. É capaz de ouvir numa mesma sequência música clássica, música gaúcha e música tradicional alemã. Tentou tocar violão, mas foi convencido a desistir, antes que mais gente se sentisse “tocada” pela sua música.

Possui, entre seus hábitos estranhos, a procura por octavôs (um octavô é o pai do heptavô e avô do hexavô) e primos em sétimo grau, os quais ainda considera parentes, sendo capaz de tratá-los como um primo-irmão. Decora datas com muita facilidade, embora isso seja meio inútil. Tem memória como daquele animal que nunca esquece... qual animal mesmo?

Tentou jogar futebol, mas os resultados foram óbvios. Começou como atacante, mas aos poucos fizeram com que recuasse. Virou meio-de-campo e depois zagueiro. Antes que tivesse que jogar no gol, pendurou as chuteiras.

É daquelas pessoas tímidas que se metem a fazer faculdade na área de comunicação. Ou resolve o problema ou fica louco. Depois ficou sabendo que seus escritores favoritos também eram jornalistas, e ficou aliviado. Como em geral acontece com escritores, sejam eles ótimos ou medíocres, não possui sorte no amor. Desse azar resulta boa parte das suas crônicas, que na verdade possuem muito pouca ação. Em geral, são apenas divagações tolas em meio a comentários sarcásticos. Nada muito aconselhável para as moças de família.

Nasceu no interior de Santa Catarina, mas foi arrastado até a capital do Paraná, onde sente-se um pouco mais perdido que o usual. Queria ser hippie e sobreviver da venda de artesanato, mas não quer se separar do seu computador. Não é socialista nem capitalista. Bem, eu já disse que ele não sabe o que é. Votou nas últimas eleições, mas nenhum de seus candidatos se elegeu.

Às vezes tem a sensação que finalmente conseguiu formar um raciocínio interessante. Revela sua descoberta a alguém, ansioso. A pessoa escuta e conclui: “Qual!”. Apesar de tudo, ama o ser humano. Tímido que é, observa tudo que acontece ao redor, e fica maravilhado com os caracteres que identifica na multidão. Ama de uma forma simples e suave, talvez mesmo platônica. Mar e ser humano são uma coisa só.

Bem, talvez não seja tão ruim assim. O estudo da sua letra, ou de seus garranchos, revela alguns traços de bondade. E mais do que tudo, tem a esperança do perdão, e pensa que um dia poderá discutir literatura com São Pedro.