quarta-feira, 27 de junho de 2007

Homem

Se um homem tem que ficar esperando a mulher que nunca chega, a justiça está sendo feita. Toda a nossa visível estupidez, a nossa incompreensível falta de sensibilidade, nossa suprema indiferença, nossa mal-disfarçada arrogância, são devidamente vingadas naqueles inacabáveis instantes em que esperamos.

Marca-se um encontro. Não precisa ser um encontro romântico. Pode ser apenas para discutir banalidades, ou mesmo porque as pessoam gostam de marcar encontros. Mas o homem vai se atrasar. Demorou-se demais com coisas que nada importavam. Homem que é, jamais percebe as coisas. Poderia prever o atraso, mas mesmo que isso acontecesse, não faria nada pra impedir. De repente, olha para o relógio. Solta uma palavrão de espanto. Dá-se conta de que chegará um pouco mais tarde. Isso o aborrece. Mas não nos deixemos enganar por causa disso. O que mais o chateia não é a consciência de que deixará sua amada esperando, e sim ter que ouvir o que ela dirá depois. Resmunga porque sabe que vai ter que se explicar. Contar onde esteve, com que pessoas conversou, sobre o que discutiram. Enfim, dar razões para o seu atraso. Toda essa conversa tomará boa parte de seu precioso tempo. Eis porque o homem agora se aborrece. Não aprova a idéia de discutir as coisas. Perde-se muito tempo em tentar explicar. Sabe que poderá facilmente perder a paciência, e com isso chegar ao absurdo de erguer a voz.

Apressa-se. Chega enfim ao local do encontro. Procura e não vê ninguém, o que é muito estranho. Sabia que já era hora dela estar lá, pois ele mesmo estava atrasado. Mulher que é, ela nunca havia se atrasado. Resmunga alguma coisa, e procura um banco pra sentar. Olha insistemente para o relógio e nada. Que linda imagem! Observemos esse sublime instante em que o homem começa a andar em círculos, tira um cigarro e fuma nervosamente. Senta de novo. Levanta. Senta. E nada. Sua amada não aparece. Quer ligar para ela, mas percebe que esqueceu de colocar crédito no celular. Homem que é, sempre esquece das coisas. É pena que as pessoas que passem por ele não dêem a devida atenção ao espetáculo que presenciam: a queda da prepotência, e a sua preocupação com a ausência. Isso o deixa mais nervoso. Homem que é, sempre foi muito bobo. Nunca admitiu a sua dependência. Aquele sorriso faz a diferença no seu dia. Mas ele nunca vai sequer pensar em dizer isso. Não fica bem, sabe.

Começa a pensar no que pode ter acontecido. Murmura o nome dela. Se perguntássemos, talvez confessasse as coisas que não teria coragem se esse fosse um momento comum. Há momentos em que os homens confessam coisas. Da preocupação à paranóia basta um pequeno salto. Revive na memória a última conversa que tiveram. Estava no trabalho ainda. Mal lembra do que falaram, foi uma conversa rápida. Teria ele sido grosso com ela? Suspirou, e admitiu que talvez tivesse sido no mínimo indelicado. Mas isso também não é motivo pra ela sumir, pensa. Esperava, esperava, esperava. E nada. Seria por causa do seu ciúmes? Nunca antes havia admitido que sentia. Estava meio ausente nos últimos tempos. Confessou para si, tristemente.Mais meia hora e esse homem admitiria todas as suas culpas, talvez até o que não tivesse.

Mas eis que, surgida do meio do nada, enxerga finalmente o objeto de seu desejo. Homem que é, disfarçou a sua alegria ao reconher finalmente quem tanto esperava. Viu o sorriso que tão bem lhe fazia, mas não disse nada. Houve um beijo frio. Indignado, perguntou onde diabos ela estava esse tempo todo, que o deixou esperando ali feito bobo. Que ela nem pra avisar, que ele já estava morrendo de preocupação, que ela não se importava com ele, e que isso já vinha há muito tempo.E ela não conseguia contar o que houve. Homem que é, dificilmente aprende alguma coisa.


Henrique Fendrich

domingo, 24 de junho de 2007

Enquanto você dormia


Marina Costa

Não pude mais ficar ao seu lado. Eu tentei ao máximo. Mas a necessidade de ir embora foi maior do que eu. Eu te amei por muito tempo. Posso dizer, sem me arriscar, que você foi o grande e único amor da minha vida e foi só graças a você que eu entendi o que isso queria dizer.


Desde seu primeiro sorriso no colegial, quando sem querer, joguei todos os seus livros no chão. Desde aquele instante. Lutei por você contra todos os outros que te queriam também. Mas ao contrário deles, o que eu sentia por você era verdadeiro. Sofri muito quando vi que acabou me deixando por um deles. Confesso ainda que sentia um prazer masoquista ao ver que nada dava certo pra vocês. E depois, quando você veio se consolar em meus braços, senti que eu era o pior e mais feliz homem do mundo, por ter desejado seu mal visando meu bem. Mas te tive de volta, só pra mim dessa vez.


Não perdi mais tempo e nos casamos. E vivemos um bom tempo assim. A coisa mais bonita que eu já vi na vida foi você dormindo. Era algo próximo do que deveria ser anjos deitados em nuvens num dia de céu claro. Eu acordava todas as manhãs mais cedo, só pra te ver dormir. Te agradeço por todo esse tempo de paz que me deu. Por ter me transformado em uma pessoa melhor com o poder do amor que você tanto defendia e do qual eu, irritantemente, debochava. Não consigo conter uma lágrima por ver como você tinha razão. Minha garganta está apertada, mas não há como me aliviar mais. Meu tempo ao seu lado se esgotou. Acordei um pouco mais cedo para te ver dormir pela última vez e agora não consigo parar de chorar em silêncio. Eu, o homem forte pelo qual você se encantou, chora como um bebê por saber que essa é nossa última noite. Mas não me envergonho. Dentre outras coisas você me ensinou que os céus só são imponentes porque também choram. Concordo mas apesar disso, agora não me sinto como o céu. Definitivamente.


Nesse momento me revolto. Odeio tudo o que com você aprendi a amar. Porque a vida me leva embora. Porque um homem, num momento infeliz, se descuidou de uma bolsa de sangue e agora a minha vida pinga, aos poucos, constantemente. Sei que as últimas gotas estão nesse momento terminando de cair. E odeio tudo por isso.
Me perdoe por não ter te contado. Mas não queria transformar sua vida em um destino injusto. Preferi que você acreditasse que seríamos sim, felizes para sempre. E fomos, não fomos? Mas ao contrário do que acontece nas fábulas, na nossa história o sempre chegou.


Vou em paz. A vida se extingue e trás a serenidade do momento incerto. Não odeio mais nada nem ninguém. Tenho compaixão por aqueles que ainda vão sofrer mas meus olhos agora se voltam para um paraíso. Nunca acreditei na deusa florida que você tantas vezes tentou me mostrar. Mas agora espero que ela me embale em seu colo e não me deixe sofrer. Tenho medo. Sobretudo porque acho que não fui bom como deveria. Mas agora não há mais jeito.


É engraçado como acabamos por nos tornar contempladores da vida justamente quando vamos perdê-la. De tudo na verdade. Somos eternamente saudosistas. Acho que esse é o último ato de bondade que algo maior permite que nos seja concedido: entender que por mais injusto que tudo possa parecer, bem ou mal vivemos coisas boas e no final, a vida vale a pena.


Tento prolongar esse final, mas me sinto fraco. E não quero que você acorde com minha respiração que fica cada minuto mais difícil. Amanhã nossos amigos talvez chorem. Nossos filhos ficarão sem entender porque não podem ver seus desenhos animados e nem sorrir. Deixe-os sorrir, em homenagem a esse homem que tantas vezes sorriu por eles.
As lágrimas passarão, a dor dará lugar à saudade e eu serei pra você apenas as coisas boas que viveu na vida, porque nosso coração esquece convenientemente das mágoas. Fico feliz com isso. Pensando que você só lembrará do que te fiz de bom, fico mais em paz.


Olhe para nossas fotos, aos poucos deixe de pensar no passado pois não pode-se viver apenas de lembranças. Na verdade nem podemos provar que algum passado existiu de fato. No fim das contas, ele acaba se misturando com aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido e aí acreditamos que tudo só foi belo. Só peço que não me culpe por não ter me despedido. Os adeuses são desnecessários e eu nunca gostei de te ver chorar. Na verdade eu estou indo agora porque quero me lembrar na eternidade, se houver mesmo isso, dos seus olhos fechados pelos longos cílios, de sua respiração delicada e constante, do cheiro de rosas que sentia todas as manhãs ao seu lado. E lembre-se sempre que os momentos mais felizes da minha vida eu passei ao seu lado, enquanto você dormia.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Substantivo


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Henrique Fendrich

domingo, 17 de junho de 2007

Catarro


Marina Costa

Do meu lado no ônibus, a menina assoa o nariz. Uma vez. Duas. Três, em apenas cinco minutos. Dou um sorriso amarelo. Coitadinha, quero que ela pense, tão bonitinha e com essa gripe toda. Mas na verdade quero dizer "menina catarrenta, saiu de casa hoje pra quê"?
O ônibus dá uma sacudida e ela espirra. Em cima de mim praticamente. Dou um segundo sorriso, que já está ficando vermelho.


Ela tira da mochila um lenço da "hello kitty". Reparo melhor e vejo que tudo nela é inspirado em algum ser do abominável mundo da tv. Tênis dos "Rebeldes". Na verdade, não sei quem além de adolescentes colocaria no pé- por livre e espontânea vontade - algo com a cara de outros adolescentes, em atitudes pouco naturais. Mais uma vez sinto raiva da indústria capitalista que se aproveita de nossa ignorância juvenil para nos empurrar essas coisas ridículas, que nos deixam iguais a todo mundo, em cada esquina.


A mochila, verde fosforescente, tem o desenho de um simpático sapinho. Enquanto isso, na Amazônia, milhões deles, infortunados por serem feitos de células orgânicas ao invés de lápis de cor, perdem espaço com a destruição de seu habitat, sem ter quem os carregue nas costas, pra longe de tudo aquilo. As pessoas preferem os de brinquedo. Deve ser porque são inertes, fácil de serem manejados, como os próprios seres humanos.


No cabelo dela, milhares de buchinhas de plástico colorido. Fazem vários coquinhos em volta da cabeça. Acho engraçado. Se eu saísse assim na rua, diriam que sou ridícula. Pra ela, que não tem ainda seus vinte e dois, fica "doidinho". Eta povo que tem mania de especificar o guarda roupa alheio pelo número de anos vividos. Olhando ao redor percebo também que escova de cabelo perdeu um pouco da utilidade nesses tempos de gel, fixador, creme pra dormir e outras porcarias pra levar nosso dinheiro e estragar nossos cabelos. E falando desse jeito, pareço uma velha saudosista dos tempos naturais (que nem vivi).


Outro espirro. Dessa vez o lenço não chegou a tempo e ela acabou lambrecando a mão com catarro. Acho que percebeu minha cara de "eca" porque deu um sorrisinho ao limpar a mão na calça do uniforme escolar. Catarro no nosso nariz é refresco, blasfemo o ditado. Se fosse eu a fazer isso, obviamente no escuro do meu quarto, sem fazer barulhos para as pessoas não perceberem que dentro de mim também existem coisas nojentas, não teria problema. Mas vendo essa cena, em plena luz do dia, assim no nariz alheio, me pareceu algo fora dos padrões ditos aceitáveis. Eu que não me lembrei de todo o catarro que escorre do palácio do planalto. O dessa garota ficaria até puro, perto daquele.


Ela puxa assunto, justo comigo que detesto conversar dentro de ônibus, elevador ou qualquer outro lugar. Odeio essas conversas sobre nada que nunca levam a lugar algum, normalmente sobre tempo, trânsito ou o último assassinato escabroso noticiado pelo Super. Coisas pra não deixar o sagrado silêncio reinar. Relutante, tiro um fone do ouvido, para afastar minha auto imposta alienação do mundo. Digo "oi?" na esperança de que ela perceba minha pouca animação com aquele papo iminente. E a menina, sorrindo, pergunta se não tenho uma bala de menta. Dou um sorriso de volta. Queria ter essa cara de pau. Quantas vezes já não quis pedir alguma coisa e minha consciência alertou que não devemos incomodar os outros com nossa vontade. Coisas tolas que aprendemos quando somos crianças indefesas e acabamos assimilando como se fossem verdade, na esperança de conseguir a salvação nos fazendo de vítimas da vida.
A desenvoltura dela me agrada e procuro um chicletes na minha bolsa. "É que vou encontrar com meu namorado na porta da escola sabe? E não queria que ele sentisse esse meu hálito pavoroso". Por sorte, eu não senti nada. Catarro e mau hálito, realmente podem colocar fim a qualquer relacionamento, nesses tempos de tantos cheiros artificiais.


Acho um blister com alguns chicletes e dou pra ela, digo que pode ficar com tudo. "Nó, valeu tia, você é legal". O quê???????? Tia???? Eu????? Sem responder, coloco o fone no ouvido. Mas olha essa, que idade essa pirralha pensa que tenho? Me senti mesmo uma velha reumática e rabugenta. Ainda mais depois de olhar para meu uniforme de trabalho muito sério e meus abomináveis sapatos de bico fino. E de ver minha cara amarrada no reflexo da janela do ônibus. É, ela tem razão... as teias de aranha do meu espírito devem estar começando a externar!


Em pouco tempo outro espirro. Dessa vez, algo gosmento caiu na minha calça preta. Fiquei sem reação. Ela, sem graça disse "no, véi, desculpa" e tirou o lenço pra limpar. Eu corri e disse que podia deixar! Por sorte, achei um guardanapo de papel na bolsa, e dei um jeito mais ou menos no catarro alheio que espirrou em mim. No final das contas, a gente faz isso todo dia mesmo. No sentido figurado, lógico, mas não deixamos de fazer. Fala se continuar pagando imposto com toda essa roubalheira por aí, não é limpar catarro de político com lenço furado?


Vi que ela ficou sem graça. Me surpreendi, porque achava que uma menina com alguns Adidas e Vide Bula espalhados pelo corpo, não ligaria muito pro desconforto alheio. Digo pra ela não se preocupar, não foi nada. Ela sorri sem graça e diz que hoje não queria nem ter saído de casa. Mas as notas andam ruins e a mãe não quis nem conversar. Saiu correndo pra sua massagem dizendo que a filha não tinha nada, era tudo preguiça de menina mimada. Bem, ela podia até ser mimada mas realmente não parecia muito boa.


Então a menina do sapinho continuou, dizendo que havia combinado com o namorado, o Zeca sabe, que conheceu no orkut mas é um carinha gente boa, acabou descobrindo que ele é amigo da vizinho da prima, pois é, combinaram de ir a uma farmácia antes da segunda aula. Ele ficou meio preocupado com a voz dela, que está engraçada a quase duas semanas. Só para o farmacêutico dar uma olhada em você, ele disse, passar umas vitaminas. Pais muito ocupados, sabe como é, eu disse pra ele, se a gente não cuidar de si mesmo, cai na vida.


Esse diálogo me enterneceu. Parecia que aquela menina de uns treze anos era mais uma garotinha que ganhava muitos badulaques coloridos em lugar da atenção dos pais prósperos mas sem tempo para os filhos, ocupados demais com sua vida social e o fim iminente de sua juventude. Presentes e vontades economicamente satisfeitas que não deviam trazer nada além de satisfação momentânea pra ela, para depois ver chegar uma tristeza vazia vinda sabe-se lá de onde. E anos mais tarde, com certeza, tudo isso seria revertido em caras sessões de análise para descobrir traumas de não se sabe o que.


Comentei que trabalhei em farmácia. Ela ficou animada e perguntou o que poderia tomar. Perguntei se a mãe dela estaria em casa. Respondeu que não, a mãe sempre fica o dia todo fora, fazendo compras com as amigas, e ia viajar pra um spa pra perder os quilos que nunca achou. Só ela e a empregada estariam em casa, todo o fim de semana. De novo, comentou rindo. Falei então pra ela comprar um chá vick, mel com própolis, mais um monte de chipes e refrigerante, não muito gelado, veja bem. Depois que alugasse um filme (gostei muito do Irmão Urso, tanto o um quanto o dois) e fosse pra casa, com o namoradinho, ficar embaixo dos cobertores, que no dia seguinte ela estaria boa.


Me olhou como se eu fosse doida. E eu fiquei olhando pra ela como se eu fosse doida. Depois de um tempo a garota começou a sorrir. Me senti como aquele diabinho que aparece no ombro da gente, dando as idéias boas mas indevidas. Ela disse, "sabe que vou fazer isso mesmo! E o Zeca é fera em matemática, ainda dá pra gente estudar um bocado!"


Sorri de volta, concordando. Não vai ser por isso que a menina vai perder o ano, pensei. E pode ser que o que ela precise na verdade seja de uma companhia sincera e algo agradável pra distrair a cabeça.
Ela se despediu e desceu na porta do colégio! Vi ainda o tal Zeca dar um abraço apertado nela e ser arrastado pela mão até o outro lado da rua, no ponto de volta do ônibus.


O meu diabinho sorriu sobre meu ombro, vi a ponta do seu rabinho balançar contente. O anjinho, que não parava de sacudir a cabeça, acabou se chocando contra a janela numa curva mais fechada.
No final das contas, o chifrudinho me disse, a vida não pode ser tão séria assim. Concordei com ele. Se nos pregam peças como catarro, diarréia e outras coisas piores é porque nem tudo deve correr sempre como manda o figurino.

domingo, 10 de junho de 2007

Litoral


O horizonte que o mar anuncia prendia o olhar. O mar encantava. Como que ouvindo uma sublime melodia na boca suave de uma sereia (a mais bela entre todas), sentiu-se atraído. As ondas o desafiavam enquanto passeava pela costa. Ficou indeciso. No fundo, um desejo, irresistível, arrebatador, que só fez aumentar com o tempo. Mas ele, caipira que era, mal sabia nadar. Uma vez havia tentado. Não sabe se saiu-se bem ou mal. As águas se recusaram a responder. Medo. Medo de gente que encara o mar pela primeira vez, e que sabe que deve ousar. Homem simples, de pensamentos complexos e inúteis. Sem outra coisa a fazer que não se atirar nas águas, única forma de vencê-las, superando a si mesmo, os seus medos de caipira. Conversando com homens da água, homens que vivem sempre as coisas do mar, muito melhores que as coisas da terra, ficou sabendo de coisas. Falaram que ele ensinava. Ou insinuava. Não deixava se revelar de todo. Um mistério, carecia de alguém que enfrentasse, nem que fosse um caipira. Ouviu mal e parcamente tudo que lhe falaram. Conselhos de quem já sabia como as coisas eram. Respirou fundo. Era agora. Se atirou, convicto e inseguro. Nadar, coisa de gente experiente. Como andar de bicicleta. Depois nunca mais esquece. Basta o impulso inicial, basta que tirem as rodinhas e que nos deixem ficar soltos, livres pra cair. De pouca coisa tinha certeza, embora soubesse exatamente de tudo. Medo idiota, natural da Cidade Grande, porque é lá que nascem todas as reflexões sem sentido que não deixam a gente fazer o que sabemos que devemos. O encontro com o mar aconteceu a duras penas. Agora estava lá, não podia mais voltar. Sabia que devia nadar com toda a sinceridade. Se entregar totalmente, ficar convencido de que acabaria o dominando, conforme tudo indicava mesmo. Movia braços e pernas, com certo desconforto, mas com esperança. Estaria fazendo os movimentos corretos? Pensou no instrutor que pouco pôde lhe ensinar. Sentiu que tudo que fazia era desengoçado e tosco. Freiou seus movimentos, quando pensou nessas coisas. Esse foi seu maior erro. Ficou subitamente paralisado. Não mexeu mais braços, não bateu mais pernas. E bastava apenas alguma reação dele para que continuasse. Mas não houve reação alguma. Não saiu mais do lugar. Ondas se aproximavam. Era preciso fazer algo enquanto havia tempo. Sabia que devia, mas de repente era como se tivesse esquecido de tudo. Parou, numa incompreensível espera, atrás do momento certo, como se houvesse um momento totalmente certo. De vez em quando se desesperava, dando-se conta do que fazia, e principalmente do que deixava de fazer. Passou a engolir água. Voltou a bater as pernas, a dar braçadas, e dessa vez saindo-se maravilhosamente bem. Mas já era tarde demais. Conseguiu chegar de volta até a praia, mas de nada adiantava. Achou estar a salvo, teimou que estava. Era desespero apenas, não havia mais o que fazer. Antes do fim, viu com alívio que ao menos o mar continuava, e que as águas poderiam enfim ser felizes. Sem ele.

domingo, 3 de junho de 2007

Tormentas

Marina Costa


O que aconteceu com toda a história do papel? O confessionário onde sentimentos são despejados sem serem interrompidos pelas lanças que saem de corações feridos?


O tempo. Esse mal ou bem irremediável que cura feridas, sepulta promessas, destrói ameaças e nos traz talvez o pior de todos os hábitos; a rotina.
A rotina que nos leva a fazer tudo do meio mais fácil para não termos o trabalho de pensar. Mecânico, como se o ser humano fosse mesmo uma máquina. A rotina, que faz com que deixemos de aproveitar a companhia de um ser radiante e iluminado pela simples certeza de que o veremos mais uma vez. A rotina que nos leva a esquecer de algo tão presente em nossos dias; o imprevisto.


Num mundo em que tudo é muito rápido, num mundo onde a certeza deixa de existir no momento seguinte, após virarmos a esquina. O coração, antes tranquilo – “Vou vê-lo de novo.” – se aperta ante a dúvida que surge – “Será?”.
Por isso são tão necessárias as tormentas! Literalmente, as tempestades em copo d’água que por vezes ocorrem dentro de nós trazem ondas furiosas que lavam a alma, ventos alucinados que dissipam maus sentimentos e clareiam a mente, deixando fértil o coração para que nasça novamente a semente do bem querer, fazendo com que vejamos aquele ser como se fosse a primeira vez, com toda a emoção e amor que isso quer dizer.


Por isso, dizem os sábios: sejam intensos.
Amar com intensidade, sentir com intensidade, viver com intensidade, brigar com intensidade nem que seja para sofrer com intensidade.
Pois é o calor do momento que aquece a alma e nos faz sentir vivos, pulsantes, ligados ao mundo.
Que me perdoem tantas tormentas. Mas esse foi o meio que encontrei para deixar em meu ser um campo sempre arado permitindo que sentimentos cálidos possam nascer a todo minuto.