domingo, 17 de junho de 2007

Catarro


Marina Costa

Do meu lado no ônibus, a menina assoa o nariz. Uma vez. Duas. Três, em apenas cinco minutos. Dou um sorriso amarelo. Coitadinha, quero que ela pense, tão bonitinha e com essa gripe toda. Mas na verdade quero dizer "menina catarrenta, saiu de casa hoje pra quê"?
O ônibus dá uma sacudida e ela espirra. Em cima de mim praticamente. Dou um segundo sorriso, que já está ficando vermelho.


Ela tira da mochila um lenço da "hello kitty". Reparo melhor e vejo que tudo nela é inspirado em algum ser do abominável mundo da tv. Tênis dos "Rebeldes". Na verdade, não sei quem além de adolescentes colocaria no pé- por livre e espontânea vontade - algo com a cara de outros adolescentes, em atitudes pouco naturais. Mais uma vez sinto raiva da indústria capitalista que se aproveita de nossa ignorância juvenil para nos empurrar essas coisas ridículas, que nos deixam iguais a todo mundo, em cada esquina.


A mochila, verde fosforescente, tem o desenho de um simpático sapinho. Enquanto isso, na Amazônia, milhões deles, infortunados por serem feitos de células orgânicas ao invés de lápis de cor, perdem espaço com a destruição de seu habitat, sem ter quem os carregue nas costas, pra longe de tudo aquilo. As pessoas preferem os de brinquedo. Deve ser porque são inertes, fácil de serem manejados, como os próprios seres humanos.


No cabelo dela, milhares de buchinhas de plástico colorido. Fazem vários coquinhos em volta da cabeça. Acho engraçado. Se eu saísse assim na rua, diriam que sou ridícula. Pra ela, que não tem ainda seus vinte e dois, fica "doidinho". Eta povo que tem mania de especificar o guarda roupa alheio pelo número de anos vividos. Olhando ao redor percebo também que escova de cabelo perdeu um pouco da utilidade nesses tempos de gel, fixador, creme pra dormir e outras porcarias pra levar nosso dinheiro e estragar nossos cabelos. E falando desse jeito, pareço uma velha saudosista dos tempos naturais (que nem vivi).


Outro espirro. Dessa vez o lenço não chegou a tempo e ela acabou lambrecando a mão com catarro. Acho que percebeu minha cara de "eca" porque deu um sorrisinho ao limpar a mão na calça do uniforme escolar. Catarro no nosso nariz é refresco, blasfemo o ditado. Se fosse eu a fazer isso, obviamente no escuro do meu quarto, sem fazer barulhos para as pessoas não perceberem que dentro de mim também existem coisas nojentas, não teria problema. Mas vendo essa cena, em plena luz do dia, assim no nariz alheio, me pareceu algo fora dos padrões ditos aceitáveis. Eu que não me lembrei de todo o catarro que escorre do palácio do planalto. O dessa garota ficaria até puro, perto daquele.


Ela puxa assunto, justo comigo que detesto conversar dentro de ônibus, elevador ou qualquer outro lugar. Odeio essas conversas sobre nada que nunca levam a lugar algum, normalmente sobre tempo, trânsito ou o último assassinato escabroso noticiado pelo Super. Coisas pra não deixar o sagrado silêncio reinar. Relutante, tiro um fone do ouvido, para afastar minha auto imposta alienação do mundo. Digo "oi?" na esperança de que ela perceba minha pouca animação com aquele papo iminente. E a menina, sorrindo, pergunta se não tenho uma bala de menta. Dou um sorriso de volta. Queria ter essa cara de pau. Quantas vezes já não quis pedir alguma coisa e minha consciência alertou que não devemos incomodar os outros com nossa vontade. Coisas tolas que aprendemos quando somos crianças indefesas e acabamos assimilando como se fossem verdade, na esperança de conseguir a salvação nos fazendo de vítimas da vida.
A desenvoltura dela me agrada e procuro um chicletes na minha bolsa. "É que vou encontrar com meu namorado na porta da escola sabe? E não queria que ele sentisse esse meu hálito pavoroso". Por sorte, eu não senti nada. Catarro e mau hálito, realmente podem colocar fim a qualquer relacionamento, nesses tempos de tantos cheiros artificiais.


Acho um blister com alguns chicletes e dou pra ela, digo que pode ficar com tudo. "Nó, valeu tia, você é legal". O quê???????? Tia???? Eu????? Sem responder, coloco o fone no ouvido. Mas olha essa, que idade essa pirralha pensa que tenho? Me senti mesmo uma velha reumática e rabugenta. Ainda mais depois de olhar para meu uniforme de trabalho muito sério e meus abomináveis sapatos de bico fino. E de ver minha cara amarrada no reflexo da janela do ônibus. É, ela tem razão... as teias de aranha do meu espírito devem estar começando a externar!


Em pouco tempo outro espirro. Dessa vez, algo gosmento caiu na minha calça preta. Fiquei sem reação. Ela, sem graça disse "no, véi, desculpa" e tirou o lenço pra limpar. Eu corri e disse que podia deixar! Por sorte, achei um guardanapo de papel na bolsa, e dei um jeito mais ou menos no catarro alheio que espirrou em mim. No final das contas, a gente faz isso todo dia mesmo. No sentido figurado, lógico, mas não deixamos de fazer. Fala se continuar pagando imposto com toda essa roubalheira por aí, não é limpar catarro de político com lenço furado?


Vi que ela ficou sem graça. Me surpreendi, porque achava que uma menina com alguns Adidas e Vide Bula espalhados pelo corpo, não ligaria muito pro desconforto alheio. Digo pra ela não se preocupar, não foi nada. Ela sorri sem graça e diz que hoje não queria nem ter saído de casa. Mas as notas andam ruins e a mãe não quis nem conversar. Saiu correndo pra sua massagem dizendo que a filha não tinha nada, era tudo preguiça de menina mimada. Bem, ela podia até ser mimada mas realmente não parecia muito boa.


Então a menina do sapinho continuou, dizendo que havia combinado com o namorado, o Zeca sabe, que conheceu no orkut mas é um carinha gente boa, acabou descobrindo que ele é amigo da vizinho da prima, pois é, combinaram de ir a uma farmácia antes da segunda aula. Ele ficou meio preocupado com a voz dela, que está engraçada a quase duas semanas. Só para o farmacêutico dar uma olhada em você, ele disse, passar umas vitaminas. Pais muito ocupados, sabe como é, eu disse pra ele, se a gente não cuidar de si mesmo, cai na vida.


Esse diálogo me enterneceu. Parecia que aquela menina de uns treze anos era mais uma garotinha que ganhava muitos badulaques coloridos em lugar da atenção dos pais prósperos mas sem tempo para os filhos, ocupados demais com sua vida social e o fim iminente de sua juventude. Presentes e vontades economicamente satisfeitas que não deviam trazer nada além de satisfação momentânea pra ela, para depois ver chegar uma tristeza vazia vinda sabe-se lá de onde. E anos mais tarde, com certeza, tudo isso seria revertido em caras sessões de análise para descobrir traumas de não se sabe o que.


Comentei que trabalhei em farmácia. Ela ficou animada e perguntou o que poderia tomar. Perguntei se a mãe dela estaria em casa. Respondeu que não, a mãe sempre fica o dia todo fora, fazendo compras com as amigas, e ia viajar pra um spa pra perder os quilos que nunca achou. Só ela e a empregada estariam em casa, todo o fim de semana. De novo, comentou rindo. Falei então pra ela comprar um chá vick, mel com própolis, mais um monte de chipes e refrigerante, não muito gelado, veja bem. Depois que alugasse um filme (gostei muito do Irmão Urso, tanto o um quanto o dois) e fosse pra casa, com o namoradinho, ficar embaixo dos cobertores, que no dia seguinte ela estaria boa.


Me olhou como se eu fosse doida. E eu fiquei olhando pra ela como se eu fosse doida. Depois de um tempo a garota começou a sorrir. Me senti como aquele diabinho que aparece no ombro da gente, dando as idéias boas mas indevidas. Ela disse, "sabe que vou fazer isso mesmo! E o Zeca é fera em matemática, ainda dá pra gente estudar um bocado!"


Sorri de volta, concordando. Não vai ser por isso que a menina vai perder o ano, pensei. E pode ser que o que ela precise na verdade seja de uma companhia sincera e algo agradável pra distrair a cabeça.
Ela se despediu e desceu na porta do colégio! Vi ainda o tal Zeca dar um abraço apertado nela e ser arrastado pela mão até o outro lado da rua, no ponto de volta do ônibus.


O meu diabinho sorriu sobre meu ombro, vi a ponta do seu rabinho balançar contente. O anjinho, que não parava de sacudir a cabeça, acabou se chocando contra a janela numa curva mais fechada.
No final das contas, o chifrudinho me disse, a vida não pode ser tão séria assim. Concordei com ele. Se nos pregam peças como catarro, diarréia e outras coisas piores é porque nem tudo deve correr sempre como manda o figurino.

3 comentários:

  1. ah, essa é maravilhosa! Eu já falei isso huahua, mas ela é mto bem conduzida, e ainda tem as suas reflexões enquanto conversa com a menina, pra lá de interessantes, e ainda bem humoradas.. very good!

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  2. Adorei Marininha. Rí o tempo todo de você nessa cena...rs. Engraçado. Aconteceu algo parecido pra você ter escreto isso né. Sua imaginação também floreou igulazim a gente fazir para encher linquiça nos trabalhos...rs. Ficou ótimo mesmo. Agora vou virar internauta assídua do seu blog. Bjos! GEO

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  3. Hey Geo! Acredita que essa situação foi toda uma viagem inventada na minha mesa de trabalho? É amiga, às vezes o ócio rende algumas pérolas... Que bom c vc achou graça!!! E espero msm q seja assídua aqui!!! Leitores por prazer como vc sempre são bem vindos! Bjoo!

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