domingo, 24 de junho de 2007

Enquanto você dormia


Marina Costa

Não pude mais ficar ao seu lado. Eu tentei ao máximo. Mas a necessidade de ir embora foi maior do que eu. Eu te amei por muito tempo. Posso dizer, sem me arriscar, que você foi o grande e único amor da minha vida e foi só graças a você que eu entendi o que isso queria dizer.


Desde seu primeiro sorriso no colegial, quando sem querer, joguei todos os seus livros no chão. Desde aquele instante. Lutei por você contra todos os outros que te queriam também. Mas ao contrário deles, o que eu sentia por você era verdadeiro. Sofri muito quando vi que acabou me deixando por um deles. Confesso ainda que sentia um prazer masoquista ao ver que nada dava certo pra vocês. E depois, quando você veio se consolar em meus braços, senti que eu era o pior e mais feliz homem do mundo, por ter desejado seu mal visando meu bem. Mas te tive de volta, só pra mim dessa vez.


Não perdi mais tempo e nos casamos. E vivemos um bom tempo assim. A coisa mais bonita que eu já vi na vida foi você dormindo. Era algo próximo do que deveria ser anjos deitados em nuvens num dia de céu claro. Eu acordava todas as manhãs mais cedo, só pra te ver dormir. Te agradeço por todo esse tempo de paz que me deu. Por ter me transformado em uma pessoa melhor com o poder do amor que você tanto defendia e do qual eu, irritantemente, debochava. Não consigo conter uma lágrima por ver como você tinha razão. Minha garganta está apertada, mas não há como me aliviar mais. Meu tempo ao seu lado se esgotou. Acordei um pouco mais cedo para te ver dormir pela última vez e agora não consigo parar de chorar em silêncio. Eu, o homem forte pelo qual você se encantou, chora como um bebê por saber que essa é nossa última noite. Mas não me envergonho. Dentre outras coisas você me ensinou que os céus só são imponentes porque também choram. Concordo mas apesar disso, agora não me sinto como o céu. Definitivamente.


Nesse momento me revolto. Odeio tudo o que com você aprendi a amar. Porque a vida me leva embora. Porque um homem, num momento infeliz, se descuidou de uma bolsa de sangue e agora a minha vida pinga, aos poucos, constantemente. Sei que as últimas gotas estão nesse momento terminando de cair. E odeio tudo por isso.
Me perdoe por não ter te contado. Mas não queria transformar sua vida em um destino injusto. Preferi que você acreditasse que seríamos sim, felizes para sempre. E fomos, não fomos? Mas ao contrário do que acontece nas fábulas, na nossa história o sempre chegou.


Vou em paz. A vida se extingue e trás a serenidade do momento incerto. Não odeio mais nada nem ninguém. Tenho compaixão por aqueles que ainda vão sofrer mas meus olhos agora se voltam para um paraíso. Nunca acreditei na deusa florida que você tantas vezes tentou me mostrar. Mas agora espero que ela me embale em seu colo e não me deixe sofrer. Tenho medo. Sobretudo porque acho que não fui bom como deveria. Mas agora não há mais jeito.


É engraçado como acabamos por nos tornar contempladores da vida justamente quando vamos perdê-la. De tudo na verdade. Somos eternamente saudosistas. Acho que esse é o último ato de bondade que algo maior permite que nos seja concedido: entender que por mais injusto que tudo possa parecer, bem ou mal vivemos coisas boas e no final, a vida vale a pena.


Tento prolongar esse final, mas me sinto fraco. E não quero que você acorde com minha respiração que fica cada minuto mais difícil. Amanhã nossos amigos talvez chorem. Nossos filhos ficarão sem entender porque não podem ver seus desenhos animados e nem sorrir. Deixe-os sorrir, em homenagem a esse homem que tantas vezes sorriu por eles.
As lágrimas passarão, a dor dará lugar à saudade e eu serei pra você apenas as coisas boas que viveu na vida, porque nosso coração esquece convenientemente das mágoas. Fico feliz com isso. Pensando que você só lembrará do que te fiz de bom, fico mais em paz.


Olhe para nossas fotos, aos poucos deixe de pensar no passado pois não pode-se viver apenas de lembranças. Na verdade nem podemos provar que algum passado existiu de fato. No fim das contas, ele acaba se misturando com aquilo que gostaríamos que tivesse acontecido e aí acreditamos que tudo só foi belo. Só peço que não me culpe por não ter me despedido. Os adeuses são desnecessários e eu nunca gostei de te ver chorar. Na verdade eu estou indo agora porque quero me lembrar na eternidade, se houver mesmo isso, dos seus olhos fechados pelos longos cílios, de sua respiração delicada e constante, do cheiro de rosas que sentia todas as manhãs ao seu lado. E lembre-se sempre que os momentos mais felizes da minha vida eu passei ao seu lado, enquanto você dormia.

2 comentários:

  1. caramba, quanto sentimento. Eu adoro esses exercícios literários em que a gente se passa por outras pessoas. E se passar por pessoas do sexo oposto não é coisa fácil, mas vc se saiu pra lá de bem. Dava quase pra visualizar a cena. Adorei quando ele fala que os momentos mais belos da vida dele ele passou vendo ela dormir. De uma sensibilidade tremenda, como costumam ser as coisas que vc escreve. Acho que até mais que as minhas, pq vc parece ir direto ao ponto, enquanto eu fico enrolando rs.. achei muito boa, cheguei a ficar triste junto com o homem!

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  2. "É engraçado como acabamos por nos tornar contempladores da vida justamente quando vamos perdê-la. De tudo na verdade. Somos eternamente saudosistas. Acho que esse é o último ato de bondade que algo maior permite que nos seja concedido: entender que por mais injusto que tudo possa parecer, bem ou mal vivemos coisas boas e no final, a vida vale a pena."


    adoreeeeeeeeeeeeei

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