domingo, 10 de junho de 2007

Litoral


O horizonte que o mar anuncia prendia o olhar. O mar encantava. Como que ouvindo uma sublime melodia na boca suave de uma sereia (a mais bela entre todas), sentiu-se atraído. As ondas o desafiavam enquanto passeava pela costa. Ficou indeciso. No fundo, um desejo, irresistível, arrebatador, que só fez aumentar com o tempo. Mas ele, caipira que era, mal sabia nadar. Uma vez havia tentado. Não sabe se saiu-se bem ou mal. As águas se recusaram a responder. Medo. Medo de gente que encara o mar pela primeira vez, e que sabe que deve ousar. Homem simples, de pensamentos complexos e inúteis. Sem outra coisa a fazer que não se atirar nas águas, única forma de vencê-las, superando a si mesmo, os seus medos de caipira. Conversando com homens da água, homens que vivem sempre as coisas do mar, muito melhores que as coisas da terra, ficou sabendo de coisas. Falaram que ele ensinava. Ou insinuava. Não deixava se revelar de todo. Um mistério, carecia de alguém que enfrentasse, nem que fosse um caipira. Ouviu mal e parcamente tudo que lhe falaram. Conselhos de quem já sabia como as coisas eram. Respirou fundo. Era agora. Se atirou, convicto e inseguro. Nadar, coisa de gente experiente. Como andar de bicicleta. Depois nunca mais esquece. Basta o impulso inicial, basta que tirem as rodinhas e que nos deixem ficar soltos, livres pra cair. De pouca coisa tinha certeza, embora soubesse exatamente de tudo. Medo idiota, natural da Cidade Grande, porque é lá que nascem todas as reflexões sem sentido que não deixam a gente fazer o que sabemos que devemos. O encontro com o mar aconteceu a duras penas. Agora estava lá, não podia mais voltar. Sabia que devia nadar com toda a sinceridade. Se entregar totalmente, ficar convencido de que acabaria o dominando, conforme tudo indicava mesmo. Movia braços e pernas, com certo desconforto, mas com esperança. Estaria fazendo os movimentos corretos? Pensou no instrutor que pouco pôde lhe ensinar. Sentiu que tudo que fazia era desengoçado e tosco. Freiou seus movimentos, quando pensou nessas coisas. Esse foi seu maior erro. Ficou subitamente paralisado. Não mexeu mais braços, não bateu mais pernas. E bastava apenas alguma reação dele para que continuasse. Mas não houve reação alguma. Não saiu mais do lugar. Ondas se aproximavam. Era preciso fazer algo enquanto havia tempo. Sabia que devia, mas de repente era como se tivesse esquecido de tudo. Parou, numa incompreensível espera, atrás do momento certo, como se houvesse um momento totalmente certo. De vez em quando se desesperava, dando-se conta do que fazia, e principalmente do que deixava de fazer. Passou a engolir água. Voltou a bater as pernas, a dar braçadas, e dessa vez saindo-se maravilhosamente bem. Mas já era tarde demais. Conseguiu chegar de volta até a praia, mas de nada adiantava. Achou estar a salvo, teimou que estava. Era desespero apenas, não havia mais o que fazer. Antes do fim, viu com alívio que ao menos o mar continuava, e que as águas poderiam enfim ser felizes. Sem ele.

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