quarta-feira, 11 de julho de 2007

Domingo

Tarde de outono que é de verão. Ai de ti, desventurado, que terá a ousadia de sair do seu conforto e enfrentar o raivoso vento que te aguarda. Não há quem escape. Cabelos são bagunçados e nossos esforços não evitam. É esse um sentimento mesquinho de vaidade. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Agora, uma tentativa de se livrar dessas preocupações. Mas eu, fraco, tive outro pensamento egoísta. Te ver andando leve, mas aflita, com uma das mãos tentando segurar o cabelo moreno, tudo pra evitar que seu penteado se desmanchasse, porque sabia que então aconteceria algo de extraordinariamente terrível. Eu, espectador. Sem nada lhe contar nem perturbar, com a superioridade imbecil de quem vê um sofrimento do qual está livre, e sequer sabe o que deve ser feito para cessá-lo: apenas contempla.

Domingo, depois da sobremesa. Ruas desertas, dessa vez não há ninguém que desvie o olhar, não há ninguém que faça coisa alguma. O horizonte atrai, mas no momento, me basta a sombra que eu consigo. Venço por alguns instantes a minha luta contra o sol. Galhos de árvores estão pouco preocupados comigo. Nem comigo nem com ninguém, justiça seja feita. Se movem, certos de que ninguém os observa. Todo movimento é um milagre. Parmênides chamou o movimento de ilusão. Não, ilusão deve ser outra coisa. Ilusão é achar que vou te encontrar de repente, e a gente irá caminhar juntos, a sua mão na minha. Então eu terei certeza que é domingo, porque no domingo as pessoas caminham juntas. E quando eu vejo apenas asfalto pela frente, entendo o que é ilusão. Mas isso não me deixa de todo triste, pelo menos não no domingo. Num instante, as coisas silenciam. Os automóveis cessam. O não-movimento também é ilusão. Porque dura pouco, logo o conjunto de pequenos barulhos e de carros em movimento restaura a normalidade. Basta, a tarde está bonita demais para ser gasta com filosofias.

Hmm, outra tarde triste, mais uma lembrança. Vovô mal, deitado e prestes a partir. Nós nada podíamos ver ou fazer, sequer estávamos perto. Em casa, o medo do que poderia acontecer quando o telefone tocasse. Nada aconteceu. Os olhos fazendo tudo o que sabem fazer. Olhando galhos se balançarem e folhas caírem, longe de casa. Sentir-se desconfortável, mas quase agradável. Um absurdo! A noite passada trouxe discussão. Uma mágoa tola como costumam ser todas. Orgulho ferido, pois afinal de contas, vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Um pensamento vago, indefinível, leve. Essa não era uma tarde pra se lembrar, antes a outra. Ainda que no fundo sejam as mesmas. Nessas horas eu consigo me perdoar e pedir outra vez perdão. A leveza pode ser insustentável, caro Kundera, mas às duas horas da tarde de um domingo ela dura mais.

Ai de mim se a mudança for só uma ilusão e Parmênides estiver certo. Não mudo mesmo, continuo escrevendo coisas incompreensíveis, tolas divagações sobre mim – ó falta de temas! Continuo vendo graça em galhos se balançando, ruas desertas, você segurando o cabelo moreno na luta contra o vento. Continuo me arrependendo dos mesmo erros, e se mágoas existem, elas continuam a ser tolas. Mas também me satisfaço com a sombra que já consegui, tendo o horizonte como consequência. E ainda quero caminhar junto, a sua mão na minha.

Henrique Fendrich

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