domingo, 8 de julho de 2007

Gramática

* Créditos da imagem: Ziraldo - Uma Professora Muito Maluquinha

Marina Costa

Vez por outra tropeço em uma crase que eu mesma coloquei aonde não devia. Algo que sai sem querer mas com vontade, ainda que incerta. E esse erro premeditado me coloca em situações mais enroladas do que classificar a transitoriedade do verbo. A linguagem é uma fonte de mal entendidos, já dizia sabiamente Exupéry.


É. Ou não é. Depende do ponto de vista, como diria Einstein. Sem a linguagem talvez seríamos mais livres mas eu seria a primeira a ter que abrir mão de fazer o que mais me agrada, que é falar pro papel. Talvez esse seja meu problema: eu só pratico a fala com o papel. Quando me acontece algo como o citado aí em cima, de ter que calar minha voz interior e abrir a boca, me atrapalho toda e passo a concordar com o pai do pequeno príncipe. Haja eloqüência para colocar nos eixos o que eu “joguei na grila” aos brados. Sai a crase na hora errada, eu me embolo na falta de sentido das orações, não consigo formar períodos coerentes e pronto: a concordância que eu tanto queria foi pro beleléu! Meu interlocutor, coitado, me olha com uma cara entre o cômico e o trágico. Ele deve ter adivinhado que a arte do bem dizer não é mesmo meu forte. Meu sorriso fica amarelo, minhas mãos pingam litros de suor gelado e eu não sei mais onde enfiar a cara. Quem sabe em algum dicionário aurélio, penso envergonhada.


Tento consertar minhas frases mas parece ficar cada vez pior. O objeto direto sai tão indireto que se enrola todo, falo tantas conjunções para remendar que fico parecendo um livro de coordenadas sindéticas e, ao invés de entendimento, provoco risos.


Não posso fazer nada. Ninguém nunca vai saber explicar o porquê (ou o por que, ou o porque, ou o por quê) de com alguns sabermos tão bem aonde colocar as benditas preposições enquanto que com outros não tem jeito nem mesmo de fazer a concordância verbal, tudo fica redundante. É o tal de sentimento mesmo. Desnorteia até os mais hábeis narradores.


Tudo o que eu queria, era poder falar milhares de adjetivos... mas sabe-se lá o humor do outro, morro de medo que ele acabe ouvindo um punhado de adjetivos substantivados e aí pronto: ficarei pelo resto da vida subordinada às minhas pobres orações impensadas!


Não tem jeito. Tento falar que “em anexo” é uma locução invariável só pra puxar assunto, ou então conto, cheia de orgulho de minha sintaxe, que quaisquer é a única palavra da nossa língua em que o plural aparece no meio. Não recebo nada além de sorrisos piedosos. No máximo, elogio à minha prolixidade verbal. Prolixidade, bolas! Tenho lá culpa de não conseguir dizer realmente o que quero? Pra mim só eu sei, é fácil! Mas eu não quero namorar o espelho (lembrando ainda que não se usa o “com” junto deste verbo tão especial)! Eu quero auxiliar a desenvoltura do diálogo, pontuar frases dele com minhas exclamações, mostrar que estou determinada a ser determinante do verbo “gostar”, transformar minhas indefinições pronominais em objeto completamente direto, ligado, unido à definição de gênero oposta a minha. Mas vai tentar fazer isso tudo com aquele olhar que te tira a coerência da existência. Me diz depois se é ou não é pior do que classificação adverbial.


Nunca pensei que expressar sentimentos ternos era algo tão difícil, dominado por tantas regras de postura e desenvoltura. Nasci praticamente sabendo falar mas na hora de alinhar meu predicado com aquele sujeito, parece que acabei de sair de uma caverna do fim do mundo e não sei soletrar nem o bê-a-bá.


Suspiro e sento, esperando ouvi-lo dizer um pronome que me agrade. Quem sabe um sonoro “comigo” ou um florido “nós” completado com o numeral “dois”. Com isso sinto que poderia passar em um segundo por todos os infinitivos dos tempos e transformar meu pretérito isolado em futuro mais que perfeito. Poderia viver à base do gerúndio pois tudo em minha vida seria uma constante sem fim: estar sorrindo, estar abraçando, estar amando. Mas a tal ligação de orações não sai. Será esse sujeito tão atrapalhado quanto eu para falar? Ou então ele nem mesmo tem intenção de formar frases para um possível período de união! Ai meu santo dos aflitos do dizer! Enquanto não consigo entender essa morfologia, continuo perdida nessa matéria tão difícil de aprender, que é a gramática da vida.

Um comentário:

  1. ooooooow, nessa vc apavorou, hein, menina? Caramba! Fez uma junção interessantíssima de uma série de regras da língua, colocando tudo como metáfora pra falar de uma coisa pessoal da personagem. Altos momentos que as comparações acabam sendo engraçadas hahaha.. mas isso pq são inspiradíssimas! o lance de esquecer o pretérito, passar pro futuro mais que perfeito, viver no gerundismo.. adorei! Crônica super instigante! Com certeza vai entrar no "200 Crônicas Escolhidas de Marina Costa". bjuuus

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