domingo, 22 de julho de 2007

PANaquice



Créditos da imagem: www.blogueisso.com/category/esporte

Marina Costa

Rede Globo não fala de outra coisa. Posso substituir essas duas primeiras palavras por “Televisão Brasileira”. Afinal, além de Jornal Nacional e novela das 8 (global, claro) o brasileiro não dá muitas notícias de outras coisas.


O último escândalo-piada da vez, um tal de Renan não sei das quantas, presidente de sei lá o quê, já virou rotina e onze em cada dez brasileiros provavelmente nem vão saber mesmo do que se trata. Mas no Pan todo mundo dá pitaco.


Eu, alienada do mundo de notícias televisivas, não sabia que esse tal espetáculo era por agora. Na verdade, há pouco menos de dois meses não dava nem notícia de que seria no Brasil. Mas para minha surpresa, não é que até estádio e vila olímpica o Rio construiu? É o Rio de Janeiro, que continua lindo para o Pan, mesmo depois de guerras com o tráfico. Onde está o tráfico agora? Não sei. Provavelmente, esperando pra ver as delegações desfilarem na avenida. Talvez tomando uma Brahma com a polícia, no barzinho da boca da favela. Tudo em nome do espírito esportivo.


Pista de atletismo com madeira importada da Sibéria. Desculpa, mas eu preciso rir. Muito. Num país em que pessoas passam fome (e preste atenção, elas não estão no Vale do Jequitinhona, mas provavelmente embaixo do viaduto no seu bairro), num país em que nem todos têm acesso à luz elétrica, num país onde a corrupção consegue superar índices de arrecadação (não me pergunte como ainda estamos de pé – se é que estamos), tem-se a coragem de importar madeira da Sibéria. Para dar de andar às bicicletas (importadas, obviamente).


Artistas de renome para abrirem os jogos. Fogos coloridos. Músicas de paz e integração. Fantasias dançantes no meio da avenida. Direção de carnavalesca renomada. Depois querem que o mundo nos respeite. E que não pensem que tudo no Brasil vira festa, regada à pizza.


Não sou contra o esporte. Sou patriota o suficiente para achar fantástico que um evento desse (mesmo nem tendo uma divulgação tão grande lá fora como pensamos) esteja acontecendo no Brasil. Mas já diziam os sábios chineses, se quer ordem, comece pela sua casa.


Comprar madeira importada pra pé de atleta, principalmente os vindos de fora, beira o ridículo. Porque os daqui (tirando o futebol claro, orgulho mor verde amarelo), muitas vezes não podem competir por falta do calçado dado pelo patrocínio inexistente.


Mas Pan é Pan. Vamos esquecer o congresso. Os números sociais. As filas em hospitais, o déficit da previdência.


O povo, isso é mais que provado, gosta mesmo é de pão e circo. O brasileiro já está tão dentro do picadeiro que até da fome esqueceu. Quem sou eu pra questionar a bandeira no lugar mais alto do pódio. Quem sou eu para questionar tanta alegria nesse Pan 2007.


E que venham as medalhas de ouro. E depois alguma outra coisa qualquer, para continuar nos distraindo. Mas por favor, com muita lantejoula e paetê.

Um comentário:

  1. Sabe que eu gosto do Pan? Bem, na verdade eu gosto de esportes, então naturalmente gosto do Pan. Mas talvez até por isso, não sinta tanto essas contradições que vc aponta muito bem. Realmente, há mta gente que tira proveito dessa "distração" momentânea, que toma conta de todos os noticiários. Acho também que temos mais circo que pão rs.. talvez um evento como esse possa até fazer bem, como uma dose de cachaça pra quem sofre. Ou como um reveillon. Bendito o cara que determinou que depois de dezembro começa um ano novo. Do contrário, não perceberíamos que nada muda do 31 de dezembro pro primeiro de janeiro. Acho que precisamos de ilusões que nos aliviem a alma, e o esporte traz muito disso. Mas sempre tem os espertalhões que fazem tudo errado, e querem achar vantagem em tudo. Aí o pan fica com esse lado panaca que vc colocou, e que também concordo. Sibéria? Credo, não sabia dessa.

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