domingo, 29 de julho de 2007

Redoma de Vidro


Marina Costa

E, um dia, eu cresci! Depois da infância, naquela cidade pequena, olhei pela janela da vida e vi um outro mundo que acreditava glorioso. Meus amigos, minha casa, meus bichos de estimação; no auge de minha inocente ( ou, quem sabe, ignorante ) juventude, ficaram para trás. Eu quis viver o mundo lá fora. “É lá, mãe! Lá que está meu futuro!”

E eu vim. E vi. Vi um mundo com jaulas de concreto que nos trancam, enquanto ladrões andam em liberdade pelas ruas. Vi a miséria humana, que passa por um irmão, sem notar que ele diverge da paisagem. “Ei! – sinto vontade de gritar – este, que te estende a mão, não é só mais um tijolo da parede!” Mas meu grito morre sufocado na garganta, enquanto o homem de terno, imponente e importante, dobra a próxima esquina. Vi que nesta “terra de gigantes”, só eu cuidarei de mim. Não há mais tantos rostos conhecidos com sorrisos de incentivo.
Resta a mim somente eu mesma.

Talvez possa dizer que venci. Pois entre tantas tristezas e privações, descobri que amizades verdadeiras duram mais que uma simples entrega de diplomas. Chega até a virar um “bom dia” diário, risos na hora do jantar com o macarrão instantâneo de todo dia e um abraço amigo para afastar as saudades de um passado que é tão presente.

Descobri que, como meu pai sempre disse, e eu nunca dei ouvidos, o melhor lugar do mundo é a nossa casa e que o dinheiro é mesmo uma coisa muito difícil de ganhar apesar de esvair de meus dedos como areia. Isso tudo, me fez crescer de verdade.

Agora, às vezes escondida, na solidão de meu travesseiro, eu choro por aquela vida tão boa e tranquila que eu deixei. Que eu tive que deixar. Mas, como adulta que me transformei, respondo a minha colega de quarto que as lágrimas não são nada... Apenas uma dor de cabeça que insiste em não me deixar... Ela sorri, pois sabe que eu minto. E eu retribuo seu sorriso amarelo, por que sei que ela sente o mesmo.

Mas, apesar das saudades, tristezas, correria, o dinheiro que voa pela janela aberta e as responsabilidades que aumentam com o passar dos dias, me sinto feliz por ter saído de minha redoma de vidro; pois descobri que o mundo é muito mais real e palpável do que eu jamais supus. E por ter crescido lá, protegida desse mesmo mundo, me tornei mais humana do que muitos jamais o serão. Só não consegui, e não conseguirei nunca, apagar das minhas lembranças o lugar que vivi... Aquele tempo bom que não volta...

Saudosismo? É. Após dois longos anos, entre alegres idas e tristes vindas, me pego a pensar, constantemente, no único lugar que me cabe de verdade, sem faltar ou sobrar espaços.
Minha redoma de Luz. Minha Cidade querida de vidro.

Um comentário:

  1. minina do céu! esse é dos primeiros textos que vc fez né? Me lembro mto bem, e ele realmente é espetacular, não é a toa que fez sucesso! Esse saudosismo fica lindo colocado no papel de forma tão sincera e verdadeira. Minha redoma de vidro! Lá eu caibo sem tirar nem por! Sensacional o uso da metáfora, e brilhate a descrição da descoberta do crescimento. A gente cresce, e sai de redoma! Lindo lindo

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