quarta-feira, 25 de julho de 2007

Talita


Henrique Fendrich

Talita de vez em quando me cobra. Quer sair. Quer brincar. Fazer as coisas de que tem direito. Fica impaciente. Tento desconversar, mas não adianta. Ela quer saber o que estou fazendo para as coisas mudarem. "Você não percebe que assim eu me afasto de você?", ela pergunta. Talita diz que do jeito que está não pode ser. Dou um suspiro. Ela tem razão. Articulo uma desculpa. "Eu não levo jeito pra isso". Talita ri, encantadoramente. "Você sabe que é mentira, seu bobo". Começa então a enumerar uma série de argumentos para convencer que sim, eu levo jeito. "E a sua prima? Vai negar que se dão bem?". Eu não ia negar nada. Mas falei que era diferente. Agora foi Talita que suspirou. Parou na minha frente, segurou a minha mão. "Eu confio em você. Muito". Estava séria. Como era bonita. Disse a ela que até podia ser. Mas isso seria no começo, depois eu não saberia mais lidar. Eu iria me tornar um estranho! Talita continuava séria. "Nem nem". Ela imitava a minha fala. "Pra mim não vai. Nunca. Te conheço". E começou a contar seus desejos. Passear. Rir. Ouvir histórias. Eu que conto. Rodopiar. Eu que giro. Felicidade. Os três. "Ou quatro, quando você largar de ser bobo". Talita tinha os olhos fixos em mim, esperando a minha decisão. Com esperança. Diz que vai esperar, claro que espera. Mas quer me ver dando os primeiros passos, e um dia vai chegar a hora. Sim. Eu acreditei nela. Eu também queria. Antes que ela misteriosamente sumisse, ainda pude segurar e ficar balançando as suas mãos, enquanto perguntava:

- Muito bem. Mas Talita, onde é que eu vou arrumar uma mãe pra você?

Um comentário:

  1. Como todas as outras... linda! Singela, profunda... Esse menino grande, habitante da Terra do Nunca, que pensa que cresceu, tem penas nas mãos e vento na cabeça! O que, junto, dá essas obras maravilhosas!!! E um brinde à "Talita" que vive em nós!!!

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