quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Saramagueando

Henrique Fendrich
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Lembro da primeira vez que, por circunstâncias especiais, me vi obrigado a fazer a leitura de um dos livros de José Saramago, do qual nada conhecia até então, e não foi com muito entusiasmo que vi se tratar de uma publicação com mais de 400 páginas, sem qualquer gravura, e com linguagem rebuscada, mas ainda assim me dispus a fazer a leitura, não sem alguma dificuldade, e em pouco tempo já me perguntavam, Que está você achando do livro, assim, como quem já tivesse lido e quisesse confirmar a sua opinião a respeito, ou então apenas por curiosidade, ou então por não ter o que perguntar, e exclamavam ainda, São muitas páginas, mas isso só me diziam quando viam o tamanho do livro que eu carregava, o qual, como já disse, era rico em páginas, e a isso tudo eu me via obrigado a responder e travar colóquios dos mais diversos, Estou ainda na metade, Gostas do que já lestes, Estou me acostumando, De fato não é das maneiras mais simples para se entender, e sempre que falavam assim eu emendava, Ainda mais para alguém com entendimento tão precário como o meu, Que achas tu dessa maneira de escrever, Olha, admiro, mas, Mas o que, Pra falar a verdade, detestaria escrever assim.

domingo, 26 de agosto de 2007

A Caixa


Marina Costa


Televisão. Essencial ou dispensável? As opiniões se divergem a respeito dessa caixa mágica que foi elevada ao ápice do cotidiano humano. Para ela lugar de destaque, sobre o sagrado altar de nossa casa, na estante da sala.

Já faz parte da rotina, ao acordar, almoçar ou chegar em casa, apertar o botão da tv e mergulhar no mundo de informação, fantasia, emoção e futilidade que ela nos traz. Enquanto uns discutem a triste saga da heroína da novela das oito (que, diga-se de passagem, sempre vai terminar linda, leve e feliz nos braços de seu amado, depois de todas as desgraças possíveis sem nenhum trauma, problema financeiro e ainda sem precisar de terapia), outros aguardam ansiosos o ínicio de mais um Big Brother. Afinal precisam de tendências novas, de assuntos novos, de vidas alheias novas para viver pois a sua já é sem graça e comum o suficiente. O jornal do almoço, quando não mostra o rapaz assassinado por ter chutado o cachorro do vizinho, mostra o jovem brutalmente torturado por exibir no peito a paixão pelo seu time de futebol. A vida se tornou extremamente banal. Cérebros vazios resultando em ações sem importância.

Talvez a televisão seja um daqueles famosos casos de mal necessário para a grande maioria. Quem pode viver sem assistir o final de mais uma história fantástica na novela? - E “Malhação” professora? Posso sair mais cedo da aula pra não perder?

Onde estão os livros? O que houve com toda a pompa e glória de Machado de Assis? Senhora é tão interessante quanto as "dos destinos" que desfilam na telinha. Mas e minha preguiça de ler José de Alencar? Ele é um chato descritivo, cheio de detalhes. A vida de hoje é rápida. Sem espaço para coisas miúdas. Por que abrir um livro, se posso sentar no sofá e me transformar em olhos e ouvidos, esquecer quem sou ou que existo. Pensar, tentar entender, pesquisar o vocabulário que nos é cada vez mais escasso, tudo isso cansa! Imaginar dá trabalho demais! Penso, logo existo. Ah! Fala sério, quem disse isso? Viramos comodistas. E depois dizem que a vida é que ficou chata.

Verdade seja dita, como tudo tem sempre dois lados, a tv não é só inutilidade. Existem excelentes documentários instrutivos sobre o funcionamento de nosso ecossistema, sobre brilhantes obras de arte, sobre a vida criativa e muitas vezes novelística de escritores famosos, heróis de guerra, artistas notáveis... Existem filmes inteligentes, minisséries excepcionais que balanceiam o amor e a dor sem toda a dramaticidade exagerada das tramas de maior ibope. Mas nem sempre o que é de qualidade é visto com bons olhos. Vira coisa supérflua, programa de nerd, cultura inútil para nossa pobreza, falta do que fazer....

Vez por outra, tropeçamos em Arnaldos como o Jabour. Mas, convenhamos, na grande maioria das vezes não entendemos a piada porque não assistimos o telejornal e não sabemos do que se trata. Não gostamos de política, muito menos queremos entender. Basta nos sentirmos lesados e indignados para nosso restrito público pessoal e tirarmos o corpo fora fingindo que passamos longe das urnas nas últimas eleições quando algo der errado. “Eu votar nele? Nunca!”

É triste ver tanta informação, tanta instrução, tanta diversão apodrecer nas prateleiras das bibliotecas enquanto na tv não perdemos um capítulo do seriado fútil sobre vidas adolescentes fúteis ou da novela que nunca mostra o lado pobre, o lado da miséria que é humana acima de tudo, mas somente a fantasia de vidas ricas e perfeitas onde sempre há o príncipe no cavalo branco. Fantasia essa que nos deixa encantados demais a ponto de passarmos a querer viver a vida das personagens e entrarmos em depressão quando temos que encarar as nossas próprias. Truques sujos para um ibope barato. Pena que nem todos percebem isso para poder reagir. Por mais que alguém fale, que outros critiquem, que cada um mesmo pense... O triste vírus da futilidade e do comodismo, a necessidade de ver a vida alheia, mesmo que imaginada, já se espalhou por meu corpo e não tenho mais vontade própria para desligar aquele botão.


Pimenta nos olhos dos outros é refresco. E assim seguimos sem saber o que fazer com esse presente de Pandora, com medo consciente da peste que sai de dentro dele mas sem ter forças suficientes para reagir e impedir que nós mesmos acabemos por abri-lo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Até o Fim


Henrique Fendrich

O Partido Inexpressivo do Brasil se reuniu para discutir as novas diretrizes. A começar, resolveram mudar de nome. A sigla PIB já havia rendido algumas confusões ao partido. E além do que, estavam obrigados a fazer alguma fusão com outros partidos. Do contrário, seriam extintos, como todos os demais partidos nanicos. Isso foi decidido pela Assembléia, liderada pela bancada do Partido Que Já Nasceu Gigante do Brasil. O presidente do PIB queria sugestões. Com quem vamos fazer a fusão?

- Que tal com o Partido Expressinho? Tem mais a ver com a gente.

- Eles são de direita, e a gente é de esquerda. Não tem como.

Proposta negada por maioria esmagadora dos votos. E o Partido Revolucionário Ultra Jovem?

- São radicais. A gente é de esquerda, mas nem tanto né? Nada de socialistas extremistas por aqui.

A reunião avançava e não se tomava decisão nenhuma. Recusaram fusões com o Partido do Meio Termo, com o Partido da Falta de Termo e até com o Partido Nanico do Brasil, alegando que os opostos é que se atraem, e além do que, eles tinham umas idéias esquisitas. Todos os partidos iam acabar corrompendo as idéias do PIB, diziam. Mas era preciso escolher um deles e fazer uma fusão, senão o partido sumiria do mapa.

- Alguém tem que ceder! É a nossa sobrevivência!

Mas ninguém no Partido Inexpressivo do Brasil pensava em ceder. Não teve nome novo nenhum, não teve fusão nenhuma, não teve decisão nenhuma. O Partido morreu. Mas os membros estavam felizes. “Fomos coerentes até o fim”, consolavam-se mutuamente.

domingo, 19 de agosto de 2007

Cores


Marina Costa
Sábado cor de rosa choque. Sinal verde. Amiga lilás dando grandes sorrisos vermelhos, cor de fogo. Paixão que vai e vem. Suco de laranja. Abraços dourados com desejos de se cuida. Namorado rosa. Namorada azul. Encontro a dois, mais uma vez multicolorido. Música bacana, às vezes amarela, outras branca. No copo, refrigerante marrom, cheio de bolinhas invisíveis que fazem cócegas na boca. Mais um motivo pra sorrir.

Início da manhã cor de pêssego. Com aquele cheiro doce da fruta. Bom dia com cor de sol. Brilhante. Manhã de brisa. Yin e Yang espreguiçando. No escuro que eu não me permitia ver percebi o lado claro da vida. Mais sorrisos cor de pêra.

Almoço meio roxo. Doce e salgado misturados na barriga. Mas é domingo, tudo é permitido. Dia meio cinza que com o arco íris da vida fica lindo. Arco íris que esteve aqui sempre. Mas como diz uma música que agora não lembro a cor, somente o amor ajuda a iluminar certas trevas...

Chegando segunda, dia bege. Sem cheiro e cheio de uma preguiça inútil. Antes disso adormeço, mergulhando no mais profundo negro. No fundo dos meus sonhos revejo a aquarela da minha vida. Cada dia um tom diferente. E cada tom pintando uma lição de urgência que só pode ser preenchida com minha caixa de lápis de cor.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Escritor Renomado


Henrique Fendrich
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O escritor renomado está em crise. Isso segundo a opinião pública. Sempre aclamado pela crítica por causa de seus comentários inteligentíssimos e sacadas pra lá de espirituosas, o escritor renomado está em crise. Seus livros estão vendendo menos. Até mesmo a sua coluna semanal agora é menos lida. E não faltam cartas que chegam até a sua casa, repletas de reclamações e cobranças. Aonde estão aquelas crônicas que tão bem analisavam o cenário político brasileiro? Aqueles textos com a mais fina ironia, que pareciam vingar um povo tão sofrido diante de mais um escândalo de corrupção, onde estão esses textos? É o que todo mundo quer saber. O escritor renomado deixou passar em branco um escândalo no Senado: nem uma linha a respeito. Querem saber qual a opinião do escritor sobre a crise aérea no Brasil. Nem um pronunciamento a respeito. Pensaram que iria fazer alguma crônica sobre o Panamericano. Nada. Ninguém entendia. Sua opinião sempre era levada em conta, e agora suas crônicas passaram a tratar de temas estranhos, pra não dizer absurdos: falavam sobre passarinhos, borboletas, dias de sol, goiabeiras, modas de viola, banhos no rio, peladas de futebol, cachorros, cheiro de chuva, primavera, galhos de árvores, ruas desertas, folhas secas, pescadores, e pasmém, galinhas, palheiros, armazéns, refrigerantes, e muitas outras coisas que em nada lembravam o escritor sério de outrora. Pelo contrário, lembravam textos de um caipira provinciano. Dizem que isso começou depois que fez aniversário. E não adiantava pedir que escrevesse sobre alguma coisa séria. Fazia como quem não ouvia. A direção do jornal o chamou para uma conversa. Ou ele falava sobre um tema importante da atualidade e deixava de lado as baboseiras melancólicas, ou ia pro olho da rua! Mal ouviu a ameça, o escritor renomado aproveitou que a janela estava aberta, e ao ver uma borboleta que por lá passava, levantou vôo e foi lhe fazer companhia.

domingo, 12 de agosto de 2007

Ampulheta


Marina Costa


Mais um dia dos pais. Como se esse dia não fosse todos os dias para os filhos. Mas não vou entrar nessa história batida de datas comerciais e suas etcéteras.

Passei o dia com meu pai. Agora sou maiorzinha, trabalho, fora, moro sozinha e cheguei ao cúmulo de ter que visitá-lo para vê-lo. Como a vida é engraçada. Faz do cotidiano algo especial. Não no sentido positivo da palavra. No sentido raro.

Enfim. Passamos o dia juntos. Almoçamos. Comentamos sobre coisas da vida. Fidel e Cuba. Bombas no Líbano. Repórteres seqüestrados por facções criminosas. Tenho que reconhecer que os assuntos mudam com o passar dos anos. Antigamente falávamos sobre meu bichinho de estimação. Sobre o jantar das minhas bonecas ou o dever de casa. Agora já entendo o mundo de verdade então podemos conversar sobre coisas sérias. Não sei se isso é bom. Convenhamos que a cada ano que passa, os assuntos ficam mais tristes. Talvez fosse melhor se eu continuasse a ser a eterna princesa do papai e pudesse deixar as guerras no mundo estranho. Mas não tem outro jeito, preciso me armar e lutar como todo mundo.

O que me leva pra frente, é o sabor da alegria que não muda com o passar do tempo. A alegria que inunda meu espírito ao sentar em frente à tv e ver um filme antigo com o meu pai, rindo das suas risadas e ouvindo a legenda que ele lê para mim, como se eu ainda não conseguisse entender as palavras. Ao dar e receber o abraço e a benção que não perdem nunca o sentido de proteção. Ao tirar um cochilo no domingo de tarde segurando a mão do meu eterno herói gigante que me mostra todo dia um mundo onde nada é tão ruim como parece.

Mas o dia passa. E é hora de voltar. Pela janela do carro vejo o sol descendo no horizonte mais uma vez. Majestoso como todas as vezes. Meu pai reconta nossos casos de infância enquanto dirige. Nunca me canso de escutá-los. Para mim é sempre mágico ouvir como eu era inocente e fazia esse velho moço feliz.

Bebendo suas palavras e vendo a luz que vai acabando, sinto a vida como se fossem grãos de areia em uma ampulheta. Sem que a gente perceba, ela vai escoando, escoando. De repente nos damos conta de que já está quase na metade e nem vimos como isso aconteceu. Olhamos para ver se não está quebrada, mas é isso mesmo. O tempo passa, e quando percebemos, já tem mais terra para pisar do que para construir.

O importante é ver se nasceram flores nessa areia. Porque mesmo que chegue o dia em que ela caia completamente, as pétalas do carinho, da felicidade e do amor não vão passar pelo tênue espaço entre vida e morte. São tesouros acima dessa lei divina. E quem sabe talvez, com uma rajada de vento, poderão voar eternamente, na lembrança do que fica, na saudade do que foi.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ancestral


Henrique Fendrich

Do lado de fora, mais um pinheiro que servirá de árvore de Natal, quando for a época. O ar da casa de meus avós parece ser muito mais calmo. As coisas parecem acontecer mais devagar, o que se revela começando pelos gestos pela fala com que nos cumprimentam e contam suas novidades. O que, de maneira alguma, significa menos trabalho. Enquando meu avô cuida da marcenaria, minha avó cuida dos serviços do lar. E eu inexplicavelmente me sinto bem num ambiente assim, contrastante à toda a fúria e agitação que acabo de encontrar pelas ruas da cidade. Não é grande a cidade. Mas está crescendo, e isso não é bom em todos os sentidos, naturalmente. Há um preço a se pagar, mas felizmente sempre há lugares pra se fugir, mesmo dentro dela.

Ainda do lado de fora, há um poço, que nunca mais foi usado. Continua intacto, como prova de um saudoso tempo. Há também o balanço que era a diversão quando íamos vistá-los. Tenho uma foto sentado nele junto com minha prima, ambos nenéns. A gente cresce e o balanço continua lá, servindo para outras crianças que um dia também crescerão, talvez se lembrem dele. Até que um dia, por algum motivo, o tempo faz com que não exista mais balanço, talvez vire apenas uma vaga recordação na memória de alguns.

Entramos e seguimos até a sala. Cadeiras imperiais, onde sentamos pra tomar café em dias festivos. Há ainda uma cadeira de balanço. Parece que se balançar era nossa grande diversão. Na parede, quadros, nem pintados nem fotografados: são bordados. E tudo ao redor remete a um passado que não vivi, mas que muito me interessa recordar.

Pra se chagar ao sótão – sim, há sótão! – deve passar por uma saleta em que meu avô deixa suas coisas e faz seus trabalhos e anotações. Livros de história da cidade, livros com partituras de músicas, registros. Que histórias contam esses papéis? Enfim, coisas antigas. Tenho essa estranha preferência pelo que não é moderno, pelo que já foi. Julgo que não é por isso que tais coisas deixam de fazer parte de mim.

A escada até o sótão range muito – como costumam ser tais escadas. Subo os degraus de dois em dois, e chego na casa do andar de cima, com seus cinco quartos. Foi lá que meu pai e todos os meus tios passaram a infância e a adolescência. Obviamente, lá também encontro um mundo de coisas antigas. Ainda restam brinquedos, cadernos e revistas que não foram levados quando eles se casaram. E me toma uma saudade ancestral, pensamentos sobre o que faziam aqueles que me precederam, num tempo já distante.

E meus avós falam de suas coisas. Certamente achariam estranho que um jovem tivesse tanto interesse em ouvir, aproveitar aqueles instantes. Uma gripe impediu que minha avó nos visitasse. Meu avô continua com dores nas pernas. As pessoas envelhecem.

Acho que me daria bem no Século XIX. Talvez houvesse uma vaguinha pra mim como figurante num romance de Alencar.
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(a meu avô Herbert Alfredo Fendrich, falecido na última segunda-feira)