domingo, 12 de agosto de 2007

Ampulheta


Marina Costa


Mais um dia dos pais. Como se esse dia não fosse todos os dias para os filhos. Mas não vou entrar nessa história batida de datas comerciais e suas etcéteras.

Passei o dia com meu pai. Agora sou maiorzinha, trabalho, fora, moro sozinha e cheguei ao cúmulo de ter que visitá-lo para vê-lo. Como a vida é engraçada. Faz do cotidiano algo especial. Não no sentido positivo da palavra. No sentido raro.

Enfim. Passamos o dia juntos. Almoçamos. Comentamos sobre coisas da vida. Fidel e Cuba. Bombas no Líbano. Repórteres seqüestrados por facções criminosas. Tenho que reconhecer que os assuntos mudam com o passar dos anos. Antigamente falávamos sobre meu bichinho de estimação. Sobre o jantar das minhas bonecas ou o dever de casa. Agora já entendo o mundo de verdade então podemos conversar sobre coisas sérias. Não sei se isso é bom. Convenhamos que a cada ano que passa, os assuntos ficam mais tristes. Talvez fosse melhor se eu continuasse a ser a eterna princesa do papai e pudesse deixar as guerras no mundo estranho. Mas não tem outro jeito, preciso me armar e lutar como todo mundo.

O que me leva pra frente, é o sabor da alegria que não muda com o passar do tempo. A alegria que inunda meu espírito ao sentar em frente à tv e ver um filme antigo com o meu pai, rindo das suas risadas e ouvindo a legenda que ele lê para mim, como se eu ainda não conseguisse entender as palavras. Ao dar e receber o abraço e a benção que não perdem nunca o sentido de proteção. Ao tirar um cochilo no domingo de tarde segurando a mão do meu eterno herói gigante que me mostra todo dia um mundo onde nada é tão ruim como parece.

Mas o dia passa. E é hora de voltar. Pela janela do carro vejo o sol descendo no horizonte mais uma vez. Majestoso como todas as vezes. Meu pai reconta nossos casos de infância enquanto dirige. Nunca me canso de escutá-los. Para mim é sempre mágico ouvir como eu era inocente e fazia esse velho moço feliz.

Bebendo suas palavras e vendo a luz que vai acabando, sinto a vida como se fossem grãos de areia em uma ampulheta. Sem que a gente perceba, ela vai escoando, escoando. De repente nos damos conta de que já está quase na metade e nem vimos como isso aconteceu. Olhamos para ver se não está quebrada, mas é isso mesmo. O tempo passa, e quando percebemos, já tem mais terra para pisar do que para construir.

O importante é ver se nasceram flores nessa areia. Porque mesmo que chegue o dia em que ela caia completamente, as pétalas do carinho, da felicidade e do amor não vão passar pelo tênue espaço entre vida e morte. São tesouros acima dessa lei divina. E quem sabe talvez, com uma rajada de vento, poderão voar eternamente, na lembrança do que fica, na saudade do que foi.

Um comentário:

  1. aaaaaaah, que lindo! Casa bem com o texto anterior que publiquei, o "Ancestral". Tem essa coisa meio nostálgica,. Isso é fazer poesia em prosa, moça! Me lembra também dos meus desejos de paternidade huaha, que é o assunto de "Talita". Porque também quero ter uma filha inocente pra me fazer um velho mais feliz hehe.. Os assuntos ficam mais tristes ao longo dos tempos, realmente. Fica sempre essa pontinha de saudade... mas são sentimentos que podem sempre voltar, seja em forma de uma visita no dia dos pais, ou numa crônica bem escrita. Sabe que eu nem pude ver meu pai nesse dia? Ele mora em Taubaté, sem chance de eu ir até lá. Parabéns moçaaaaaaa!

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