quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ancestral


Henrique Fendrich

Do lado de fora, mais um pinheiro que servirá de árvore de Natal, quando for a época. O ar da casa de meus avós parece ser muito mais calmo. As coisas parecem acontecer mais devagar, o que se revela começando pelos gestos pela fala com que nos cumprimentam e contam suas novidades. O que, de maneira alguma, significa menos trabalho. Enquando meu avô cuida da marcenaria, minha avó cuida dos serviços do lar. E eu inexplicavelmente me sinto bem num ambiente assim, contrastante à toda a fúria e agitação que acabo de encontrar pelas ruas da cidade. Não é grande a cidade. Mas está crescendo, e isso não é bom em todos os sentidos, naturalmente. Há um preço a se pagar, mas felizmente sempre há lugares pra se fugir, mesmo dentro dela.

Ainda do lado de fora, há um poço, que nunca mais foi usado. Continua intacto, como prova de um saudoso tempo. Há também o balanço que era a diversão quando íamos vistá-los. Tenho uma foto sentado nele junto com minha prima, ambos nenéns. A gente cresce e o balanço continua lá, servindo para outras crianças que um dia também crescerão, talvez se lembrem dele. Até que um dia, por algum motivo, o tempo faz com que não exista mais balanço, talvez vire apenas uma vaga recordação na memória de alguns.

Entramos e seguimos até a sala. Cadeiras imperiais, onde sentamos pra tomar café em dias festivos. Há ainda uma cadeira de balanço. Parece que se balançar era nossa grande diversão. Na parede, quadros, nem pintados nem fotografados: são bordados. E tudo ao redor remete a um passado que não vivi, mas que muito me interessa recordar.

Pra se chagar ao sótão – sim, há sótão! – deve passar por uma saleta em que meu avô deixa suas coisas e faz seus trabalhos e anotações. Livros de história da cidade, livros com partituras de músicas, registros. Que histórias contam esses papéis? Enfim, coisas antigas. Tenho essa estranha preferência pelo que não é moderno, pelo que já foi. Julgo que não é por isso que tais coisas deixam de fazer parte de mim.

A escada até o sótão range muito – como costumam ser tais escadas. Subo os degraus de dois em dois, e chego na casa do andar de cima, com seus cinco quartos. Foi lá que meu pai e todos os meus tios passaram a infância e a adolescência. Obviamente, lá também encontro um mundo de coisas antigas. Ainda restam brinquedos, cadernos e revistas que não foram levados quando eles se casaram. E me toma uma saudade ancestral, pensamentos sobre o que faziam aqueles que me precederam, num tempo já distante.

E meus avós falam de suas coisas. Certamente achariam estranho que um jovem tivesse tanto interesse em ouvir, aproveitar aqueles instantes. Uma gripe impediu que minha avó nos visitasse. Meu avô continua com dores nas pernas. As pessoas envelhecem.

Acho que me daria bem no Século XIX. Talvez houvesse uma vaguinha pra mim como figurante num romance de Alencar.
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(a meu avô Herbert Alfredo Fendrich, falecido na última segunda-feira)

Um comentário:

  1. Henrique, meu amigo de longe...
    Eu já tinha lido essa crônica antes. Me identifiquei, lógico, pois eu tb queria estar nas páginas de um livro de Alencar, vendo a luz do dia só qnd algum insaciável leitor de coisas emboloradas resolvesse abrir as páginas de minha morada...
    Eu compartilho de toda a sua nostalgia do que não vivemos... Eu me identifico com sua sede por coisas e causas antigos... E eu sei como dói perder essas pessoas "antigas" que ficam, devido à nossa juventude ignorante, tão pouco tempo entre nós. Pelo menos um tempo que quase não pode ser aproveitado.
    Ancestral talvez nos dê aquela sacudida, aquele sinal de ouvir mais o que quem já viveu tem a dizer. Ancestral é a risada boa do vovô com o cheiro do bolo da vovó. Ancestral é a sua sensibilidade, mais uma vez, no papel.
    Não quis postar essa semana, porque tudo o que eu poderia dizer sobre esse tema está aí. E queria que seu avô (e minha avó, que faria 77 essa semana, se não houvesse sido chamada a dez anos, para se juntar aos anjos de lá) pudessem ver - me chamem de doida, mas eu penso que continuam vendo - que mesmo no silêncio nosso, na nossa sede por coisas "novas", valorizamos o que eles nos ensinaram. E o amor e aprendizado desse conhecimento vai seguir e ser passado, para nossos próprios netos.
    Vida longa aos Ancestrais e sua memória... quem seríamos nós, se não fosse por eles?
    Abraço imenso!!!!

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