domingo, 26 de agosto de 2007

A Caixa


Marina Costa


Televisão. Essencial ou dispensável? As opiniões se divergem a respeito dessa caixa mágica que foi elevada ao ápice do cotidiano humano. Para ela lugar de destaque, sobre o sagrado altar de nossa casa, na estante da sala.

Já faz parte da rotina, ao acordar, almoçar ou chegar em casa, apertar o botão da tv e mergulhar no mundo de informação, fantasia, emoção e futilidade que ela nos traz. Enquanto uns discutem a triste saga da heroína da novela das oito (que, diga-se de passagem, sempre vai terminar linda, leve e feliz nos braços de seu amado, depois de todas as desgraças possíveis sem nenhum trauma, problema financeiro e ainda sem precisar de terapia), outros aguardam ansiosos o ínicio de mais um Big Brother. Afinal precisam de tendências novas, de assuntos novos, de vidas alheias novas para viver pois a sua já é sem graça e comum o suficiente. O jornal do almoço, quando não mostra o rapaz assassinado por ter chutado o cachorro do vizinho, mostra o jovem brutalmente torturado por exibir no peito a paixão pelo seu time de futebol. A vida se tornou extremamente banal. Cérebros vazios resultando em ações sem importância.

Talvez a televisão seja um daqueles famosos casos de mal necessário para a grande maioria. Quem pode viver sem assistir o final de mais uma história fantástica na novela? - E “Malhação” professora? Posso sair mais cedo da aula pra não perder?

Onde estão os livros? O que houve com toda a pompa e glória de Machado de Assis? Senhora é tão interessante quanto as "dos destinos" que desfilam na telinha. Mas e minha preguiça de ler José de Alencar? Ele é um chato descritivo, cheio de detalhes. A vida de hoje é rápida. Sem espaço para coisas miúdas. Por que abrir um livro, se posso sentar no sofá e me transformar em olhos e ouvidos, esquecer quem sou ou que existo. Pensar, tentar entender, pesquisar o vocabulário que nos é cada vez mais escasso, tudo isso cansa! Imaginar dá trabalho demais! Penso, logo existo. Ah! Fala sério, quem disse isso? Viramos comodistas. E depois dizem que a vida é que ficou chata.

Verdade seja dita, como tudo tem sempre dois lados, a tv não é só inutilidade. Existem excelentes documentários instrutivos sobre o funcionamento de nosso ecossistema, sobre brilhantes obras de arte, sobre a vida criativa e muitas vezes novelística de escritores famosos, heróis de guerra, artistas notáveis... Existem filmes inteligentes, minisséries excepcionais que balanceiam o amor e a dor sem toda a dramaticidade exagerada das tramas de maior ibope. Mas nem sempre o que é de qualidade é visto com bons olhos. Vira coisa supérflua, programa de nerd, cultura inútil para nossa pobreza, falta do que fazer....

Vez por outra, tropeçamos em Arnaldos como o Jabour. Mas, convenhamos, na grande maioria das vezes não entendemos a piada porque não assistimos o telejornal e não sabemos do que se trata. Não gostamos de política, muito menos queremos entender. Basta nos sentirmos lesados e indignados para nosso restrito público pessoal e tirarmos o corpo fora fingindo que passamos longe das urnas nas últimas eleições quando algo der errado. “Eu votar nele? Nunca!”

É triste ver tanta informação, tanta instrução, tanta diversão apodrecer nas prateleiras das bibliotecas enquanto na tv não perdemos um capítulo do seriado fútil sobre vidas adolescentes fúteis ou da novela que nunca mostra o lado pobre, o lado da miséria que é humana acima de tudo, mas somente a fantasia de vidas ricas e perfeitas onde sempre há o príncipe no cavalo branco. Fantasia essa que nos deixa encantados demais a ponto de passarmos a querer viver a vida das personagens e entrarmos em depressão quando temos que encarar as nossas próprias. Truques sujos para um ibope barato. Pena que nem todos percebem isso para poder reagir. Por mais que alguém fale, que outros critiquem, que cada um mesmo pense... O triste vírus da futilidade e do comodismo, a necessidade de ver a vida alheia, mesmo que imaginada, já se espalhou por meu corpo e não tenho mais vontade própria para desligar aquele botão.


Pimenta nos olhos dos outros é refresco. E assim seguimos sem saber o que fazer com esse presente de Pandora, com medo consciente da peste que sai de dentro dele mas sem ter forças suficientes para reagir e impedir que nós mesmos acabemos por abri-lo.

Um comentário:

  1. A Caixa! Associação brilhante com Pandora haha.. mto bom. Sabe que às vezes eu ouço algumas pessoas falar mal da programação da TV, e aí eu pergunto se ela assiste a Cultura, ou o Futura, ou algum outro. Todo mundo fala mal, mas quem assiste alguma coisa desses canais? haha.. felizmente eu assisto pouca tv.. esportes e jornal.. e realmente, é uma perda e tanto de tempo sabendo que há verdadeiras preciosidades escondidas nas bibliotecas desse país. Eu acho que futuramente esse caixa vai ser o monitor do computador (quando todos puderem ter um).

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