quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Aniversário

Era um dia qualquer, ainda que segunda-feira. Nada o diferenciava dos demais, a não ser que era o dia de se voltar à rotina. Estava eu com o cérebro ainda no domingo, quando ela surgiu na minha frente. Obviamente, não nos víamos desde sexta-feira. Nem passou pela nossa cabeça que houvesse algum motivo pra nos vermos ou nos falarmos no fim de semana. Mas agora estávamos ali, numa segunda-feira que significava a volta das coisas à sua normalidade. Ela se deparou comigo, e sorriu. Imediatamente sorri também. Mesmo se eu não quisesse, seria impossível não ter sorrido. Depois dos tradicionais beijinhos no rosto (três, que é pra casar), ainda me deu um abraço. Tão apertado como há muito eu não recebia. Como se isso fosse natural, como se ninguém estivesse vendo. Como se nos amássemos, como se tivéssemos pensado no outro o fim de semana inteiro. E no entanto, nada disso era verdade. Aconteceu apenas que ela era afetuosa por natureza, e abraçava com entusiasmo todo mundo que não lhe fazia mal.

Outra amiga estava chegando e viu a cena. Estranhou tamanha demonstração de afeto. Um abraço em local público! Veio até mim e, um tanto constrangida, perguntou:

- Mas então, hoje é seu aniversário?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Puta


Henrique Fendrich

De chico. Hoje não vai ter, então? Que nada! Pra tudo se dá um jeito. Foi ao mercado, enquanto ouvia gracinhas de toda a parte. Senhores de respeito, os mais sérios e puritanos. Falavam coisas escondidos. Covardes. De soslaio, viu uma antiga vizinha. Uma vez elas trocaram farpas. Ela que começou. Me xingou, aí teve que ouvir também, porque eu não tenho sangue de barata. O que a vizinha tinha a ver com a vida dela? Nada. Falava de metida que era. Gente fuxiqueira que não tem o que fazer. Vive sempre no bem-bom, depois acha que pode ficar criticando. Eita mundo pequeno, tinha que encontrar ela bem aqui... Se afastou. Sabia que a vizinha era casada. Mas então quem é esse senhor que tá junto dela? Tá perto demais pro meu gosto. Olha só, segurou a mão dela! Safada! Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço, né? É isso? Puta que o pariu, que ódio. Se eu não tivesse nessa vida, se eu não precisasse, se eu fosse como ela, cheia de pose, se eu gostasse de homem, eu... meu, eu ia ter um só, o meu homem, único e pra sempre. Mas essa cadela não. Paga de moralista, e olha só. Mas que se foda, não vou me estressar por causa dessaí. Sempre teve de tudo. Vamos em frente. Estendeu a mão até a prateleira e pegou uma caixa de algodão. Foi pagar. E nada de ter um caixa vazio. Nem o caixa rápido. Achou um que tinha pouca gente. Merda, na frente dela, um maloqueiro, com cara de tarado. Se preparou para ouvir as piadinhas de sempre, galanteios de quem acha que tá abafando, todos fazem isso. Mas ela se enganou. Ele deixou que ela passasse na sua frente na fila, afinal, tava levando só o algodão mesmo, e ele com um carrinho quase cheio. Olhou o que ele comprava. Cheio de coisas de bebê. Devia ser pai. Reparando melhor, viu que tinha uma aliança. Aposto que leva a foto da mulher na carteira. Nem brincou nem nada, cara séria e tals. Beleza, menos mal. Seguiu o caminho de volta. Hoje não tinha facul, podia começar mais cedo. Ia ganhar mais. Perto de mil reais a facul, você acredita nisso? Como é que dá pra pagar um troço desses? Aí não tem outro jeito mesmo. Mas eu quero me formar, trabalhar na área de saúde, sabe. Só que precisa ter grana pra isso né? Foda. Pensava essas coisas. De novo, se lembrou daquela vagabunda do mercado. Foi quando alguns homens apareceram. Aff, tenho nojo deles. Saudades da minha mulher. Somos quase casadas. Eu considero como se fosse mesmo. Meu amor por ela é incondicional, forte mesmo. Ontem ela me perguntou umas coisas. Quis saber se eu gostava de mulher que nem ela só porque fazia trabalho com homem. Não, meu amor. Teve um, apenas um homem por amor. Catorze anos, acho. Treze, sei lá. Foi o primeiro em quase tudo. Mas terminou, fazer o quê. Depois disso que teve a primeira menina, sabe. Foi quando comecei a ter nojo mesmo dos caras. Tão diferentes da gente né? Nojo, só tenho nojo deles, meu amor, eu sempre tive. Ontem ligou aquele cara. Três da manhã. Tem que atender né, senão ele não volta. Vontade de mandar tomar no cu. Mas eu não tenho horário. E eu preciso, aí já viu. Quantos será que vão ser hoje? Cinco ou seis, será? Pior que o preço às vezes é alto, mas muita gente paga. Tem concorrência, isso sempre tem. Aí tem vez que o preço tem que abaixar, senão já era. Não dá pra ficar marcando. Quem vê pensa que entra muita grana. Até entra, mas depende. Mal vem já sai. Ela tem muitas contas pra pagar. Como uma família qualquer. Família que esse povo esquece quando vem aqui. Gente que economiza o mês inteiro só pra poder fazer a festa depois. Claro que não falo nada que o senhor veio aqui. Briguei com a minha esposa, sabe como é. Ah sim, eu entendo. Gente de gabarito, que se alguém descobre, desaba o mundo. Mas ela não tava com coisa hoje? Tava, por isso o algodão. Fez com ele várias bolinhas e colocou pra dentro, naquele lugar. Quanto mais conseguisse, melhor. Aí não desce, né? Absorve, é assim que fala, todo o líquido. Na hora do vamo-ver, vai parecer que tá saindo pela boca. Dane-se. Não, só na carne ela não faz. Tem que colocar. Uma vez ela não teve como fazer nada. Deu problema, mas já tava lá. Correu o risco. Nem é só por causa da doença, é também pensar em como meu amor iria se sentir né. Foi o primeiro. Com esses caras que ela ganha dinheiro. Trata bem. Mais velhos. Os de vinte anos, trato muito mal. É pra eles nem voltarem mais. Ai, ainda por cima isso. Se lembrou de quem havia vindo semana passada. Muito me admira isso. Cada desejo escondido, se eu pudesse eu fazia um livro. Quando a gente vê, nem pensa. Tão sérios, elegantes. Gente de negócio, de direito, que entende das coisas. São os piores, minha filha. Vem aqui e se revelam. Ai, o que eu não tenho que fazer. Pedra ume moída + água, seringa sem agulha, e aí coloco, duas ou três doses, e pronto, vou ter a minha primeira vez de novo, já que isso tanto te satisfaz, seu tarado. E nem vai saber de nada, tolinho. Ela mantém a higiene. O máximo que pode. Já terminou? Segue então para o banheiro, vai tomar um banho. Troca os lençóis. Troca de roupa também. Tem que se preservar. Tô me sacrificando pelos meus pais. O resto da família não tá nem aí. E olhe que tem gente casada, que é pra ser direito, mas nem eles. Eles têm a mesma vida, mas quer tirar eles de lá, não quer ver eles envelhecerem dessa maneira. Arrumar um emprego, de vez em quando alguém fala. Vai se foder, acha que é facil, se nem posso contar a profissão dos meus pais? Nem telefones de referências eu posso dar. Alguém já perguntou se gostava do que faz. Odeio! Mas tenho que pagar a facul. Lá dentro, eu fico horrorizada! Menininhas que têm de tudo, o papai paga tudo, um monte delas, esnobando, se achando. Não dão valor nem pra profissão que tão aprendendo, sabe. Um bando de filha da puta.

domingo, 2 de setembro de 2007

Amor de Papel


Marina Costa

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento...” (*)

Era apaixonada por poesia. Vinícius, Drummond, Shakespeare, Byron... lia de tudo um muito e se maravilhava a cada nova frase impensada, a cada sensação de sublime criação que a leitura lhe proporcionava.... Poemas, poetas!
E passava o dia na biblioteca, a ler e reler os muitos livros daquelas prateleiras tão pouco procuradas nessa era virtual e descartável. Melhor - pensava consigo - pois assim tinha todo aquele tesouro só para si.
Mas eis que, entre os livros e o sepulcral silêncio reinante da biblioteca, alguém a notou. Ferido pelas flechas do travesso cupido, este alguém caiu de amor e desde então passava os dias a admirar aquela leitora incrivelmente atenta.
Não havia um susurro que a fizesse se virar, um riso tímido que a levasse a piscar, nada, por mais grandioso que fosse, perturbava sua serenidade maravilhada de criança admirada.
E ele se apaixonou por aqueles longos cabelos sempre presos com canetas, que volta e meia caiam sobre aquela face alva, devido a necessidade de alguma anotação mais urgente. Se apaixonou por aqueles óculos de aros finos sempre escorregando pelo pequeno nariz. Se apaixonou pela imperturbável emoção de amante ou viúva dos milhares de escritores que roubavam dele toda a atenção merecida. E pelas anotações sem autoria que encontrava dentro dos perfumados livros que ela lhe devolvia.
Tempos depois, sem mais poder conter seus sentimentos e inspirado por versos que ela, tão delicadamente lhe recomendara no dia anterior, acordou com a idéia fixa de declarar-se, parodiando um poeta que de tão conhecido já lhe era seu favorito confidente. Com os olhos atados aos dela, ele diria, entre suspiros:

“Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.” (*)

Decoradas as estrofes, ele se dirigiu a seu, agora, abençoado ofício de, entre outros leitores tão sem brilho, atender aquela bela e misteriosa Dama dos Livros.
Qual foi sua surpresa porém, ao constatar que, naquele dia ela não deu o ar de sua graça. Naquele dia, dentre qualquer outro dos milhares de dias anteriores... Naquele dia...
A medida que o mês envelhecia, a biblioteca ia perdendo seu encanto. A alma do pobre apaixonado perdeu o raio de sol que a iluminava. “O que teria acontecido, oh céus? Por que ela não voltou?” Ele se perguntava enquanto via passar também os meses seguintes sem mais notícias de seu irreal e tão platônico amor. A todo instante, lembrava-se de trágicos finais de amantes em muitos dos romances daquela biblioteca, lembrava-se de “amores de perdição”, “morros de ventos uivantes” e quando se comparava a um Romeu desesperado, caia em lágrimas inconsoláveis por sua Julieta desconhecida e o fim que ela poderia ter encontrado...
Oh triste sina dos apaixonados! Morrer de amor junto ao ser encantado ou na solidão como um pobre desamparado... Sua tristeza era tanto que já o fazia rimar...
E o tempo não parou para ele, tal qual acontece em uma obra clássica. Passou. Ele, a custo, se conformou porém, uma dor eterna e lacinante lhe ficara na alma e quando lhe pediam uma opinião, a respeito do que ler, ele triste, olhos no nada, só sabia susurrar, repetidamente:

“De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
De repente, não mais que de repente!” (*)


E foi assim seu fim anos depois de muito definhar, ele partiu, na esperança de ter um pouco de paz e calor sob sua última morada.
Durante esse tempo, em uma casinha perdida ao longe entre girassóis, a dama dos livros acabou vencida e seduzida pelo vilão dessa história...
Sentada em sua varanda, bebericando uma fumegante xícara de chá amargo, ela escrevia seus próprios poemas e lia, pela internet, os dos grandes, que havia deixado desde de sua decepção por não ter conseguido algo com aquele tímido bibliotecário. Em seu lap top, perdida em um mundo de letras que se reduziu a uma tela de cristal líquido de quinze polegadas, ela se lembrava daquele amor platônico, que lhe levara ao cúmulo de amar algo que odiava - livros - correspondido apenas pela frieza do homem que fez pouco de seu sentimento e não quis compreender seus sedutores gestos calculados, suas dicas literárias repletas de segundas intenções, seus bilhetes apaixonados dentro dos livros que devolvia...
Seu coração endurecido agora só ouvia seus próprios suspiros de raiva, quando a pequena máquina metida a ser pensante lhe fazia outra das suas, ao apagar um novo texto de trinta longas páginas ou acusar um novo vírus desconhecido...
E assim viveu, distante e indiferente transformando sua dor de amor platônico em doces palavras de amor de papel... E quando veio a morte bater-lhe a porta, se entregou de bom grado, na esperança de achar nos braços de algum poeta esquecido o calor que não encontrou nos beijos de seu bem amado.

(*) – As três passagens utilizadas tratam-se de
fragmentos de três sonetos de Vinicius de Moraes,
Soneto de Fidelidade, Soneto do Amor Total
e Soneto de Separação, respectivamente na ordem que aparecem no texto.