domingo, 2 de setembro de 2007

Amor de Papel


Marina Costa

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento...” (*)

Era apaixonada por poesia. Vinícius, Drummond, Shakespeare, Byron... lia de tudo um muito e se maravilhava a cada nova frase impensada, a cada sensação de sublime criação que a leitura lhe proporcionava.... Poemas, poetas!
E passava o dia na biblioteca, a ler e reler os muitos livros daquelas prateleiras tão pouco procuradas nessa era virtual e descartável. Melhor - pensava consigo - pois assim tinha todo aquele tesouro só para si.
Mas eis que, entre os livros e o sepulcral silêncio reinante da biblioteca, alguém a notou. Ferido pelas flechas do travesso cupido, este alguém caiu de amor e desde então passava os dias a admirar aquela leitora incrivelmente atenta.
Não havia um susurro que a fizesse se virar, um riso tímido que a levasse a piscar, nada, por mais grandioso que fosse, perturbava sua serenidade maravilhada de criança admirada.
E ele se apaixonou por aqueles longos cabelos sempre presos com canetas, que volta e meia caiam sobre aquela face alva, devido a necessidade de alguma anotação mais urgente. Se apaixonou por aqueles óculos de aros finos sempre escorregando pelo pequeno nariz. Se apaixonou pela imperturbável emoção de amante ou viúva dos milhares de escritores que roubavam dele toda a atenção merecida. E pelas anotações sem autoria que encontrava dentro dos perfumados livros que ela lhe devolvia.
Tempos depois, sem mais poder conter seus sentimentos e inspirado por versos que ela, tão delicadamente lhe recomendara no dia anterior, acordou com a idéia fixa de declarar-se, parodiando um poeta que de tão conhecido já lhe era seu favorito confidente. Com os olhos atados aos dela, ele diria, entre suspiros:

“Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.” (*)

Decoradas as estrofes, ele se dirigiu a seu, agora, abençoado ofício de, entre outros leitores tão sem brilho, atender aquela bela e misteriosa Dama dos Livros.
Qual foi sua surpresa porém, ao constatar que, naquele dia ela não deu o ar de sua graça. Naquele dia, dentre qualquer outro dos milhares de dias anteriores... Naquele dia...
A medida que o mês envelhecia, a biblioteca ia perdendo seu encanto. A alma do pobre apaixonado perdeu o raio de sol que a iluminava. “O que teria acontecido, oh céus? Por que ela não voltou?” Ele se perguntava enquanto via passar também os meses seguintes sem mais notícias de seu irreal e tão platônico amor. A todo instante, lembrava-se de trágicos finais de amantes em muitos dos romances daquela biblioteca, lembrava-se de “amores de perdição”, “morros de ventos uivantes” e quando se comparava a um Romeu desesperado, caia em lágrimas inconsoláveis por sua Julieta desconhecida e o fim que ela poderia ter encontrado...
Oh triste sina dos apaixonados! Morrer de amor junto ao ser encantado ou na solidão como um pobre desamparado... Sua tristeza era tanto que já o fazia rimar...
E o tempo não parou para ele, tal qual acontece em uma obra clássica. Passou. Ele, a custo, se conformou porém, uma dor eterna e lacinante lhe ficara na alma e quando lhe pediam uma opinião, a respeito do que ler, ele triste, olhos no nada, só sabia susurrar, repetidamente:

“De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
De repente, não mais que de repente!” (*)


E foi assim seu fim anos depois de muito definhar, ele partiu, na esperança de ter um pouco de paz e calor sob sua última morada.
Durante esse tempo, em uma casinha perdida ao longe entre girassóis, a dama dos livros acabou vencida e seduzida pelo vilão dessa história...
Sentada em sua varanda, bebericando uma fumegante xícara de chá amargo, ela escrevia seus próprios poemas e lia, pela internet, os dos grandes, que havia deixado desde de sua decepção por não ter conseguido algo com aquele tímido bibliotecário. Em seu lap top, perdida em um mundo de letras que se reduziu a uma tela de cristal líquido de quinze polegadas, ela se lembrava daquele amor platônico, que lhe levara ao cúmulo de amar algo que odiava - livros - correspondido apenas pela frieza do homem que fez pouco de seu sentimento e não quis compreender seus sedutores gestos calculados, suas dicas literárias repletas de segundas intenções, seus bilhetes apaixonados dentro dos livros que devolvia...
Seu coração endurecido agora só ouvia seus próprios suspiros de raiva, quando a pequena máquina metida a ser pensante lhe fazia outra das suas, ao apagar um novo texto de trinta longas páginas ou acusar um novo vírus desconhecido...
E assim viveu, distante e indiferente transformando sua dor de amor platônico em doces palavras de amor de papel... E quando veio a morte bater-lhe a porta, se entregou de bom grado, na esperança de achar nos braços de algum poeta esquecido o calor que não encontrou nos beijos de seu bem amado.

(*) – As três passagens utilizadas tratam-se de
fragmentos de três sonetos de Vinicius de Moraes,
Soneto de Fidelidade, Soneto do Amor Total
e Soneto de Separação, respectivamente na ordem que aparecem no texto.

4 comentários:

  1. aaaaaaaaaaah!!! quando vc lan�ar um livro, sugiro que essa seja a cr�nica principal, a cr�nica que vai dar t�tulo � obra! Dio mio! De uma singeleza arrebatadora. E pra mim, que sou acostumado a viver amores plat�nicos assim, faz um sentido tremendo! Lembrei de certa vez que fui o bibliotec�rio, e que tamb�m havia me decidido a "declarar-me", mas j� era tarde, porque a minha am�vel "leitora" havia cansado de esperar alguma atitude minha. Isso eu deduzi dos atos dela hehe.. (essa hist�ria eu conto muito por cima em "Segunda".) E faz lembrar de ainda outra situa�o, que n�o abordei devidamente ainda, mas quem sabe agora o fa�a.
    Imposs�vel n�o se emocionar. O que eu mais gosto da cr�nica � que ela tem uma capacidade mto maior de envolver o leitor, pq � mais r�pida. Seja pra emocionar, como foi o caso, ou seja pra rir. E eu me senti super envolvido na hist�ria, angustiado com o drama dos dois personagens. Acho uma ousadia divina falar em amores plat�nicos que n�o deram certo num tempo como o nosso, t�o cheio de "vc consegue tudo que vc quer, se danem os outros", "do it yourself", etc. Isso prova que ainda h� VIDA pulsando nas pessoas (pelo menos nos escritores). O que por si s� j� � uma grande coisa. E tenho certeza que todo mundo que se dispor a ler t�o bela cr�nica, fatalmente ir� se enternecer. Eis a� uma miss�o divina que os escritores tomam pra si! Enternecer as pessoas num tempo que nada mais emociona! Fant�stico, mo�a. E ainda tem os trechos dos poemas do Vin�cius.. � cheio de detalhes que tornam essa uma das suas melhores, sen�o a melhor cr�nica.
    Eu me empolgo nas divaga�es, olha o tamanho do meu coment�rio hahaha.. parab�ns mo�a.. bjuuus

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  2. aaaaaaaaaaah!!! quando vc lançar um livro, sugiro que essa seja a crônica principal, a crônica que vai dar título à obra! Dio mio! De uma singeleza arrebatadora. E pra mim, que sou acostumado a viver amores platônicos assim, faz um sentido tremendo! Lembrei de certa vez que fui o bibliotecário, e que também havia me decidido a "declarar-me", mas já era tarde, porque a minha amável "leitora" havia cansado de esperar alguma atitude minha. Isso eu deduzi dos atos dela hehe.. (essa história eu conto muito por cima em "Segunda".) E faz lembrar de ainda outra situação, que não abordei devidamente ainda, mas quem sabe agora o faça.
    Impossível não se emocionar. O que eu mais gosto da crônica é que ela tem uma capacidade mto maior de envolver o leitor, pq é mais rápida. Seja pra emocionar, como foi o caso, ou seja pra rir. E eu me senti super envolvido na história, angustiado com o drama dos dois personagens. Acho uma ousadia divina falar em amores platônicos que não deram certo num tempo como o nosso, tão cheio de "vc consegue tudo que vc quer, se danem os outros", "do it yourself", etc. Isso prova que ainda há VIDA pulsando nas pessoas (pelo menos nos escritores). O que por si só já é uma grande coisa. E tenho certeza que todo mundo que se dispor a ler tão bela crônica, fatalmente irá se enternecer. Eis aí uma missão divina que os escritores tomam pra si! Enternecer as pessoas num tempo que nada mais emociona! Fantástico, moça. E ainda tem os trechos dos poemas do Vinícius.. é cheio de detalhes que tornam essa uma das suas melhores, senão a melhor crônica.
    Eu me empolgo nas divagações, olha o tamanho do meu comentário hahaha.. parabéns moça.. bjuuus

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  3. faltou dizer: eu queria ter escrito isso! hahaha

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  4. Sincermente, de início achei que já tinha visto algo parecido em algum outro lugar, mas a medida que fui lendo o texto percebi a profundidade de meu engano. Simplesmente ótimo, não, exelente, me faltam palavras pra elogiar cada parte como gostaria, mas a crônica é brilhante, engoblando como tema central o amor platônico consegue ainda nos levar a uma discussão secundária(?) sobre a tecnologia, como um tapa de luvas em um debate meio esquecido, mas de suma importância, que é o abandono de livros. adorei.

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