quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Puta


Henrique Fendrich

De chico. Hoje não vai ter, então? Que nada! Pra tudo se dá um jeito. Foi ao mercado, enquanto ouvia gracinhas de toda a parte. Senhores de respeito, os mais sérios e puritanos. Falavam coisas escondidos. Covardes. De soslaio, viu uma antiga vizinha. Uma vez elas trocaram farpas. Ela que começou. Me xingou, aí teve que ouvir também, porque eu não tenho sangue de barata. O que a vizinha tinha a ver com a vida dela? Nada. Falava de metida que era. Gente fuxiqueira que não tem o que fazer. Vive sempre no bem-bom, depois acha que pode ficar criticando. Eita mundo pequeno, tinha que encontrar ela bem aqui... Se afastou. Sabia que a vizinha era casada. Mas então quem é esse senhor que tá junto dela? Tá perto demais pro meu gosto. Olha só, segurou a mão dela! Safada! Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço, né? É isso? Puta que o pariu, que ódio. Se eu não tivesse nessa vida, se eu não precisasse, se eu fosse como ela, cheia de pose, se eu gostasse de homem, eu... meu, eu ia ter um só, o meu homem, único e pra sempre. Mas essa cadela não. Paga de moralista, e olha só. Mas que se foda, não vou me estressar por causa dessaí. Sempre teve de tudo. Vamos em frente. Estendeu a mão até a prateleira e pegou uma caixa de algodão. Foi pagar. E nada de ter um caixa vazio. Nem o caixa rápido. Achou um que tinha pouca gente. Merda, na frente dela, um maloqueiro, com cara de tarado. Se preparou para ouvir as piadinhas de sempre, galanteios de quem acha que tá abafando, todos fazem isso. Mas ela se enganou. Ele deixou que ela passasse na sua frente na fila, afinal, tava levando só o algodão mesmo, e ele com um carrinho quase cheio. Olhou o que ele comprava. Cheio de coisas de bebê. Devia ser pai. Reparando melhor, viu que tinha uma aliança. Aposto que leva a foto da mulher na carteira. Nem brincou nem nada, cara séria e tals. Beleza, menos mal. Seguiu o caminho de volta. Hoje não tinha facul, podia começar mais cedo. Ia ganhar mais. Perto de mil reais a facul, você acredita nisso? Como é que dá pra pagar um troço desses? Aí não tem outro jeito mesmo. Mas eu quero me formar, trabalhar na área de saúde, sabe. Só que precisa ter grana pra isso né? Foda. Pensava essas coisas. De novo, se lembrou daquela vagabunda do mercado. Foi quando alguns homens apareceram. Aff, tenho nojo deles. Saudades da minha mulher. Somos quase casadas. Eu considero como se fosse mesmo. Meu amor por ela é incondicional, forte mesmo. Ontem ela me perguntou umas coisas. Quis saber se eu gostava de mulher que nem ela só porque fazia trabalho com homem. Não, meu amor. Teve um, apenas um homem por amor. Catorze anos, acho. Treze, sei lá. Foi o primeiro em quase tudo. Mas terminou, fazer o quê. Depois disso que teve a primeira menina, sabe. Foi quando comecei a ter nojo mesmo dos caras. Tão diferentes da gente né? Nojo, só tenho nojo deles, meu amor, eu sempre tive. Ontem ligou aquele cara. Três da manhã. Tem que atender né, senão ele não volta. Vontade de mandar tomar no cu. Mas eu não tenho horário. E eu preciso, aí já viu. Quantos será que vão ser hoje? Cinco ou seis, será? Pior que o preço às vezes é alto, mas muita gente paga. Tem concorrência, isso sempre tem. Aí tem vez que o preço tem que abaixar, senão já era. Não dá pra ficar marcando. Quem vê pensa que entra muita grana. Até entra, mas depende. Mal vem já sai. Ela tem muitas contas pra pagar. Como uma família qualquer. Família que esse povo esquece quando vem aqui. Gente que economiza o mês inteiro só pra poder fazer a festa depois. Claro que não falo nada que o senhor veio aqui. Briguei com a minha esposa, sabe como é. Ah sim, eu entendo. Gente de gabarito, que se alguém descobre, desaba o mundo. Mas ela não tava com coisa hoje? Tava, por isso o algodão. Fez com ele várias bolinhas e colocou pra dentro, naquele lugar. Quanto mais conseguisse, melhor. Aí não desce, né? Absorve, é assim que fala, todo o líquido. Na hora do vamo-ver, vai parecer que tá saindo pela boca. Dane-se. Não, só na carne ela não faz. Tem que colocar. Uma vez ela não teve como fazer nada. Deu problema, mas já tava lá. Correu o risco. Nem é só por causa da doença, é também pensar em como meu amor iria se sentir né. Foi o primeiro. Com esses caras que ela ganha dinheiro. Trata bem. Mais velhos. Os de vinte anos, trato muito mal. É pra eles nem voltarem mais. Ai, ainda por cima isso. Se lembrou de quem havia vindo semana passada. Muito me admira isso. Cada desejo escondido, se eu pudesse eu fazia um livro. Quando a gente vê, nem pensa. Tão sérios, elegantes. Gente de negócio, de direito, que entende das coisas. São os piores, minha filha. Vem aqui e se revelam. Ai, o que eu não tenho que fazer. Pedra ume moída + água, seringa sem agulha, e aí coloco, duas ou três doses, e pronto, vou ter a minha primeira vez de novo, já que isso tanto te satisfaz, seu tarado. E nem vai saber de nada, tolinho. Ela mantém a higiene. O máximo que pode. Já terminou? Segue então para o banheiro, vai tomar um banho. Troca os lençóis. Troca de roupa também. Tem que se preservar. Tô me sacrificando pelos meus pais. O resto da família não tá nem aí. E olhe que tem gente casada, que é pra ser direito, mas nem eles. Eles têm a mesma vida, mas quer tirar eles de lá, não quer ver eles envelhecerem dessa maneira. Arrumar um emprego, de vez em quando alguém fala. Vai se foder, acha que é facil, se nem posso contar a profissão dos meus pais? Nem telefones de referências eu posso dar. Alguém já perguntou se gostava do que faz. Odeio! Mas tenho que pagar a facul. Lá dentro, eu fico horrorizada! Menininhas que têm de tudo, o papai paga tudo, um monte delas, esnobando, se achando. Não dão valor nem pra profissão que tão aprendendo, sabe. Um bando de filha da puta.

2 comentários:

  1. Putaaa! Como eu adoro essa crônica! Surpreendentemente realistíca, maravilhosamente escrita, totalmente integrada no universo feminino-objeto, por um homem, o que é mais fantástico ainda!!!! As falas, os atos, os comentários sarcásticos... como eu já disse, difere agudamente da sua pena melancólica, sem deixar de mostrar pequenos tons graves dela... Uma das provas "mor" do seu talento pra mim!!!!Adooooro! Beijo!

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  2. Na minha opinião o que mais impressiona nessa crônica é a grande proximidade que ela tem com a realidade conemporânea, apesar de que muitos "cegos" que lerem isso irão discordar de mim. não apenas o foco central, mas todas as personagens secundárias que, mesmo não sendo tão notados à primeira lida, enriquecem toda a estória, como os falsos moralistas, o "maloqueiro" que se mostra tão gentil, e tudo mais. Temos assim uma descrição muito próxima de uma realidade para a qual a nossa sociedade atual "empurra" muitos indivíduos. muito boa essa e todas as outras crônicas, vocês dois ainda vão longe.

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