quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Canto de Gari


Henrique Fendrich

Como todas as pessoas, eu adoro a chuva. Mas, como todas as pessoas, exijo algumas condições para gostar dela. 1) Que eu esteja em casa enquanto estiver chovendo. 2) Que assim que eu pensar em sair de casa a chuva passe. 3) Que mesmo estando em casa, a chuva não dure mais que alguns dias (afinal, eu também gosto dos dias ensolarados). 4) Que eu abrace alguém enquanto olhar a chuva pela janela, e depois a gente assista a alguma coisa juntos. 5) Que no final do dia a chuva dê uma trégua, e a gente possa sentir o cheirinho de terra.

Bem se vê que muito dificilmente me verei satisfeito em todas as minhas condições. Agora mesmo a condição 1 está sendo desrespeitada clamorosamente. Cá estou eu, no meio da rua, enquanto desaba um tremendo pé d'água. Daqueles aguaceiros que guarda-chuva nenhum resolve. E além do mais, como estou caminhando (certamente a chuva ignora que tenho compromissos e que não posso esperar que ela resolva passar), tenho que desviar de poças d´água que se acumulam na calçada. Não é sempre que consigo, de modo que tenho os pés molhados. E pra piorar, de vez em quando o vento se mete a tentar virar meu guarda-chuva.

Enquanto sigo lamentando o azar de estar na rua num dia como esse, vejo um gari que se aproxima. Veste uma capa de chuva, mas nem por isso se molha menos do que eu. Penso comigo que as coisas poderiam ser muito pior. Eu estava reclamando, mas com certeza era melhor tomar chuva enquanto ia a algum lugar do que ter que trabalhar debaixo de chuva, como exigia a profissão daquele sujeito. Tive pena do homem, e imaginei como devia estar se sentindo péssimo, ao ter que trabalhar naquele dia, limpando todas as nossas sujeiras materiais. Caminhávamos em direções opostas, e quando nos cruzamos, pensei em dar ao homem um sorriso de compreensão, algo que na verdade quisesse dizer "eu sei, eu sei... mas fazer o quê!?". Estava pronto para consolá-lo. Então ele passou por mim... assobiando! Assobiava alguma música alegre, que o fazia esquecer a chuva que caia. Parecia nem notar. Estava contente, e não reclamava. Não reparou em mim, e continuou trabalhando e assobiando. Celebrando a minha estupidez. Nada nos humilha mais do que canto de gari em dia de chuva.

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