domingo, 7 de outubro de 2007

Olhos


Marina Costa

Ela entrou na loja mais uma vez. Há alguns dias já passava por ali, sem muita atenção. Hoje parecia decidida. Olhou um por um. Experimentou o maior, virou o rosto de lado, abaixou a cabeça, mas estava meio largo. O vendedor só observava. Se aproximou, ela não sorriu e ele disse estar a disposição.

Ficou largo. Tremendo, ela lançou mão de outro. Um mais fino, de lentes semi opacas. Não, não ficou bom. Mas o vendedor não o disse. Apenas assentiu quando ela perguntou o que achava. "Talvez este fique melhor", ele lhe entregou. Ela olhou segurando pela haste, girou os óculos em sua mão e desconsiderou. "Não, muito moderno, talvez". "Não gosta de designs modernos?" – foi a deixa para ele. "Eu até aceito" – respondeu ela – "mas prefiro os rústicos. Na vida não teríamos problemas se fossemos todos mais rústicos". "Hum, fácil dizer quando se tem dinheiro para despender em um objeto medíocre de preço exorbitante." Ele pensou. Na sua função não podia concordar com o que pensava ou seria hipócrita ao receber as comissões. Mas, é a vida. Devemos aceitar certas verdades sujas, para tentar viver em paz. E além disso, se encantou por aqueles olhos. Nada lhe chamava mais atenção. O perfume caro, o jeito tímido e frágil mas cheio de si, nada fazia tanta vista e mexia tanto com ele quanto aqueles olhos. Cheios, exuberantes, castanhos comuns com um brilho único. Poderia derreter qualquer homem apenas com a sua simples função de calmamente olhar. Os olhos, normais. Mas que olhos...

"Quanto é?" a pergunta dela o tirou de devaneios. "O preço normal é R$1.600,00. À vista, poderei fazê-lo por R$ 1.400,00." "Vou levar." "Bom – pensou ele – não tem nada de rústico. E a não ser pelo detalhe nas laterais, é exatamente o modelo que ela recusou por ser 'moderno'. Uma pena. Olhos tão belos em alguém tão incerta de suas próprias opiniões. Aposto que odeia Mozart, mas vive a ouvir música clássica, para exibir uma intelectualidade fingida. Com certeza é dessas pessoas que criam uma personalidade para impressionar. Músicas refinadas, filmes ucranianos, tudo incrivelmente chato mas dito inteligente. A única coisa verdadeira nela são seus olhos. Por eles pode-se ver tudo. Como têm medo de ser quem realmente deseja, porque não poderia viver no mundo que nasceu. Talvez seja para isso os óculos grandes, esconder a única parte de si que pode lhe trair...". "Ei, rapaz, não ouviu? Disse que vou levar!". Essa rispidez já era esperada. Apreçou-se no embrulho, no trato com a máquina de dinheiro de plástico. Propositadamente, passou o cartão de forma errada, culpando a máquina, só para apreciar por mais tempo os olhos. Ela percebeu. Tirou os óculos recém comprados e escondeu o objeto de adoração daquele petulante vendedor. O encanto se quebrou e ele voltou à sua rotina de atendente.

"Obrigada, senhorita." Lá se foi ela. Agora segura, com os óculos no rosto, para esconder a vergonha de ter uma alma fria e oca. Ele se deixou ficar na porta, observando. Lamentavelmente, são assim a maioria dos clientes daquela loja. Tentam atenuar com o dinheiro as coisas tristes que o mundo insiste em mostrar. Se escondem em lojas caras, construídas em mundos forjados, onde a podridão que produzem em suas casas, a pobreza com a qual contribuem em cada esquina é excluída da realidade. Uma cegueira auto imposta e necessária. Certa vez falara disso com seu gerente. "Ah, José! – foi a resposta dele – Infelizmente, ou felizmente talvez, fazemos parte da massa meu amigo, somos proletariado. As coisas tristes da vida nos edificam, nos fazem querer ser melhores, querer lutar, dividir. Por estas pessoas devemos ter desprezo ou até um pouco de compaixão. São fracas. E se chegam a algum lugar é por causa de uma tradição de longa data, que está toda errada, mas só nós, aqui embaixo, é que percebemos isso " – foi o que ele disse. Deu de ombros e completou – "vamos trabalhar, meu amigo. Nem Saramago, nem Marx vão nos levar a lugar nenhum!".

José concordou. Entrou e suspirou resignado, indo cuidar de seus a fazeres.






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