domingo, 28 de dezembro de 2008

Sem Sentido



Marina Costa

Nada para dizer, nada de novo para contar, leio e releio minhas crônicas e percebo infindáveis conselhos moralistas que nem eu mesma sou capaz de seguir muitas vezes.

Imperfeição do ser enquanto humano, “faça o que digo mas não faça o que faço”, seria justificativa para minhas próprias palavras escritas. Não que o que digo sejam coisas utópicas ou sem sentido, mas convenhamos a realidade está tão distante do que gostaríamos que fosse como os tratados de Freud estão cada vez mais próximos da realidade do que podemos imaginar. Mesmo assim não canso de querer mostrar o quão melhor poderíamos ser. O quanto de bem ao mundo poderíamos fazer. Ah, males de um corpo corrompido delirando com os restos de sonhos da alma inocente.

Não tem jeito. Enquanto houver uma mente consciente haverá sonhos, mesmo que indecifráveis ou irrealizáveis buscando o melhor, o mais bonito, o mais feliz. Somos seres utópicos por mais realistas que tentamos parecer. O sonho é inerente ao homem mesmo que nessa terra de carrascos Golias não faça mais sentido sonhar. No mundo interior de cada um tudo é possível. O cinza pode virar azul com um simples sorriso, o mau fica bom e o rosa amor platônico vira tórrida paixão vermelha sem que seja preciso mudar de lugar para isso. Tudo é possível com o sopro da imaginação e se isso me faz feliz o que importa eu dizer coisas impossíveis, sem censo ou sentido, irreais para muitos?

Aqui dentro de mim quero me sentir livre das críticas de quem não tem o que pensar de verdade. Quero me sentir amada como minha mente imagina que o amor deveria ser. Quero imaginar que o quente asfalto árido é um campo de infindáveis lírios balançando ao vento. Quero viver pelo menos quando deito a cabeça no travesseiro. Nesse momento posso me livrar das duras penas que a sociedade de rótulos me impõe. Posso ser simplesmente eu e nada mais.

De que vale estudar e trabalhar toda a vida para no final, a velhice que irremediavelmente chega ser tratada, pela sociedade que tudo me exigiu, como um traste inútil e pesado que nunca serviu para nada? De que vale toda a cultura que aspiro se a maldita televisão aliena todos aqueles com quem eu poderia discutir as boas filosofias da vida? Para que, me digam, botar crianças em um mundo que vai lhes ensinar a lei do mais forte que esmaga o mais fraco, do rico que despreza o pobre, da vida que deixa de ser milagrosa na infância para virar fardo na maturidade? Coisas ilógicas sem sentido. Respondam se é mesmo melhor viver sem sonhos nesse mundo vazio?

Já que não posso fugir de tudo isso, pois já me rendi ao sistema e malditas amarras morais me prendem a toda essa maquete capitalista, eu sonho o quanto quero, como quero, para sorrir pelo menos por dentro.

Assim morro mais devagar. Assim minha alma se mantém um pouco mais pura. Assim no final, sentada em minha cadeira de balanço enquanto todos pensarão que há muito enlouqueci, posso lembrar que pelo menos meus sonhos foram bons, para mim fizeram sentido. Valeram a pena a felicidade momentânea de quem não pôde fazer mais do que sonhar.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Noel


Henrique Fendrich
(...)

E lembrou de uma história do Pato Donald. Deu risada da lembrança, é engraçado lembrar do Pato Donald. Não é todo mundo que se veste com roupa de marinheiro – ainda mais sem calça. Era uma história em que ele e os sobrinhos ficam perdidos na neve. Pedem ajuda numa casa onde mora uma viúva e um casal de filhos. Também é véspera de Natal. A família é pobre. Não tem peru na ceia: há apenas uma lata de ervilhas. Mas quem diria, eles não estão tristes! As crianças explicam que é só fechar os olhos e imaginar que ali diante deles está um delicioso peru, não uma lata de ervilhas. Pato Donald. O gibi imita a vida. Fechar os olhos e imaginar, eis uma das melhores soluções que já ouvi, se encaixa em tantos outros problemas. Não é à toa que saiu da boca de crianças. Havia mais que uma lata de ervilhas em casa, mas ele nunca pensou que isso viria a se tornar um consolo.

Pensou em como eram as coisas há alguns anos, quando ele ainda não tinha ingressado no Mundo da Gente Grande. O que era a preocupação nesse tempo? Era olhar pra fora e ver que está ameaçando cair chuva, logo hoje que eu tinha jogo marcado com a turma! Era a preocupação, dessas que não chegam a deixar rugas em nossa testa. E estava-se sempre certo que, de qualquer maneira, independente das molecagens que fizessem, na noite de vinte e quatro sempre se receberia algum mimo, um presente que os deixasse extasiados a semana inteira. E quando fosse vinte e cinco, toda a turma da vizinhança saberia o que cada um ganhou e dividiriam seu entusiasmo, e compartilhariam suas impressões. Pensava essas coisas, e de súbito teve um tímido reconforto. Achou que o Fantasma dos Natais futuros seria mais generoso com ele. Ele estava demorando, mas chegaria, e seria muito melhor. Apenas o Fantasma do Natal presente não lhe passava muita simpatia.

(...)

E aquele caminhãozinho, feito toscamente com as próprias mãos durante a semana, foi o presente. O único. Entregue com o constrangimento de quem achava que tinha a obrigação de estar dando algo melhor. De quem achava que tinha falhado.

- O Papai Noel teve um ano difícil. Mas ele me prometeu que ano que vem vai tirar todo o atraso...

Mas ele nem prestou atenção na desculpa. Apenas seus olhos brilhavam. Explicou: era só fechar os olhos e imaginar que era um carrinho de controle remoto, aquele que ele queria.

E saiu brincando, verdadeiramente contente, olhos fechados.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Amor de Colégio


Marina Costa
No início éramos tímidos, estranhos. Olhávamos-nos de soslaio, esperando que o outro falasse alguma coisa para poder responder com delicadeza e mostrar que queríamos nos aproximar, ficar mais junto, se fazer mais presente. Outras pessoas também estavam conosco todos os dias, mesmo que não tão perto. Elas vinham para nos unir e entre um ensinamento e outro nos faziam dar as mesmas gargalhadas, pensar as mesmas coisas, nos sentir iguais.

O tempo foi passando frágil e mágico como cristal. Nossa convivência aumentava a cada dia, junto com nosso amor e confiança. Não bastava mais ficar o dia todo juntos naquela segunda (por muitas vezes primeira) casa, não bastava fazermos todos os trabalhos juntos, grupos de estudo, reuniões para projetos. Queríamos mais. E assim, quantas e quantas noites, um ligava para o outro convidando para um lanche acompanhado de “causos” e risadas, convidando para um filme, para uma pizza, um sanduíche no trailer da esquina, um sorvete no domingo à tarde. E a gente se unia e se conhecia ainda mais. Gostava-se ainda mais.

Gostávamos de apreciar nossa diversidade, nossas diferenças, cada um com seu estilo próprio e único, uma risada inconfundível, um jeito de fazer piada com tudo, um brilho cálido e especial no olhar. Amávamos nossos defeitos e quantas vezes rimos de nossas próprias gafes. Sim, era um relacionamento bem próximo da perfeição.

Havia brigas também, como em toda boa união. Por vezes, no ápice de emoções exaltadas, falávamos o que não queríamos dizer, ofendíamos sem a intenção clara de machucar, virávamos a cara, cortávamos relações. Quantas vezes juramos nunca mais nos falar? Ah, os extremos da juventude, como ouço dizer os mais velhos. Mas, mesmo que demorasse alguns dias, ás vezes meses, as mãos se davam novamente, o sorriso tímido dava lugar ao riso solto, a fria distância ao abraço apertado e éramos felizes outra vez!

Por três anos, que naquela época pareciam tão longos, e agora vejo que como tudo que é bom passou depressa demais, nos admiramos mutuamente. Ajudamos-nos, choramos juntos, vimos ao mesmo tempo o mesmo mar, numa viagem mais que inesquecível. Sentimos as mesmas dores, torcemos pelo sucesso de cada um. Vivemos talvez uma só vida.

E no dia da despedida, lágrimas rolaram soltas. Nos rostos de nossos parentes vimos sorrisos de alegria, orgulho e um certo alívio pelo fim. Em nossos próprios rostos havia um sorriso por tudo que vivemos e a sabedoria de tudo que aprendemos. Mas no coração a certeza de que acabava ali, que nossa convivência diária terminara, enchia o ar que respirávamos de melancolia.

Então cada um seguiu seu caminho, sua estrela. O mundo se tornou pequeno demais para nós. Uns foram para longe, outros estão mais perto, outros se perderam nas estradas do vida e não deixaram referências estando agora menos acessíveis. Mas o amor de todos uns pelos outros, às vezes mais, às vezes menos, nos une ainda nos fazendo relembrar o quanto fomos felizes.

Ah! Tempo de colégio! Eu podia querer mais alguma coisa além de toda aquela vida colorida que meus amigos me ajudavam a pintar?

É! O que é bom dura o tempo suficiente para se tornar inesquecível, usando essa frase meio piegas, mas repleta de verdade. Porque aquela Turma daquele Colégio vai ficar para sempre na minha cabeça, gravada em brasa de sentimentos felizes no meu coração.

Amigos, colegas, irmãos, amores... nós ensinamos uns aos outros o sentido de crescer em harmonia. E isso é mais uma lição que cada um de nós, mesmo com o fim daquela fase tão boa, vai levar por toda a vida!


domingo, 7 de dezembro de 2008

Capitão

Henrique Fendrich
O leitor certamente sabe o que está acontecendo em Santa Catarina. E se não sabe, deveria saber. Não é preciso que eu informe nada a respeito. O que ele certamente não sabe é sobre o casal de velhinhos. Eles moram em Blumenau, ou Itajaí, ou mais provavelmente Ilhota. Moravam em uma pequena casa no alto de um morro. E veio a chuva. Cada vez mais forte e arrasadora, destruindo a cidade. Ora, era questão de tempo até que também a casa dos velhinhos desmoronasse e eles morressem soterrados. Qualquer cidadão com um número mínimo de miolos teria saído dali o mais rápido possível.

Mas não aquele casal de velhinhos, que lá permaneceu tranquilamente. Placidamente, a senhora lavava as louças da casa quando apareceu um bombeiro intrometido querendo salvá-la. Qual! Ela disse que não queria sair dali. O marido disse a mesma coisa, e ainda alegou o seguinte: “Se é pra morrer, vai ser na minha casa”. E lá se deixaram ficar, indiferentes ao perigo que corriam. Antes que meus pacientes leitores se alarmem, já adianto que a história terminou bem e eles foram resgatados.

Não faltará quem diga, no entanto, que o casal estava caduco. Nada sei a esse respeito. Apenas vejo com sincero respeito aquele senhor que não achou necessário receber ajuda. Era, na verdade, um sábio capitão, que afundaria junto com a casa, se fosse preciso. Não iria abandoná-la assim, tão facilmente. Ora, pois viveu a vida toda ali! As paredes eram revestidas pelos seus antigos e suaves sentimentos de amor e tristeza. Elas guardavam um passado que já não interessava sequer aos seus parentes. E escondiam os motivos de todas suas rugas. O capitão, em suma, estava em cada pedaço da sua casa. E vejam que idéia, tirá-lo de lá e falar que o estavam salvando! Não se cogita a hipótese de semelhante ato – que, na verdade, representa o que há de mais ultrajante para um capitão.

Além do mais, que vantagem poderia caber a um capitão que fica sem navio? Fosse ele um robusto jovem, e talvez o naufrágio não lhe custasse a vida. Não lhe faltaria oportunidade para conseguir um novo, e logo tudo estaria refeito. Teria tempo e juventude para isso. Mas não é o que acontece com o nosso velho capitão. Sua casa afundará. Vamos dizer que ele não esteja dentro e consiga escapar. Vai sobreviver, mas sobreviver sem navio. E não tem tempo nem dinheiro nem vontade de adquirir um novo. Ora, está velho e acabado. Não há como suportar a perda de algo que estima tanto. De modo que, para ele, entre perder a casa e morrer não há tanta diferença assim.

Mas a imagem que fica não é do capitão. É, ao contrário, a do velho turrão. Tire o leitor a conclusão que achar mais adequada. A mim, cabe apenas escolher um fato miúdo do cotidiano e transformá-lo em assunto principal. Já agora acho a comparação desse texto ultrapassada, e talvez de mal gosto. Que fique aí, ao menos, como um das provas de que a tragédia de Santa Catarina foi capaz de atingir quem morava muito longe.

domingo, 30 de novembro de 2008

Indecisão


Marina Costa

Uma palavra. É impressionante como uma palavra, poucas sílabas reunidas, no máximo três, tem o poder de mudar tanta coisa. Muita coisa.
Quantas questões essenciais da vida não se resolvem com um sim, ou quantas tragédias se podem evitar com um não? Vive-versa também serve, o que não muda é que tudo depende de sílabas, pronunciadas a favor ou contra nossa vontade.
Já dizia um famoso escritor que até que o ser humano pudesse dominar o alfabeto, a fala, a comunicação muita coisa se passou. Mas digo que ainda mais difícil do que esse domínio é o domínio do entendimento, do ler nas entrelinhas do ouvir o que não foi dito, ler o que não está escrito.
As mulheres, dizem muitos, são escoladas em dizer o contrário do que querem, do que sentem, e ai do homem que entender aquilo que ela não quer que ele entenda. Complicado? Talvez... mas quando o amor entra em jogo tudo se explica, tudo fica fácil, completamente entendido!
Mais difícil do que entender o oculto, seria entender o não dito, não pensado. Quantas oportunidades não passam porque não sabíamos se dizíamos sim ou não, quero ou não quero, vou ou fico. Quanta coisa já perdemos na vida por não saber o que escolher. O preto ou o branco? Será que não pode ser cinza?
Não. Escolha. Ou isso ou aquilo, ouço desde a infância, não há caminho do meio. E pior do que não haver caminho do meio é que a vida não tem rascunho. Ao contrário das minhas crônicas não posso remendá-la, reescrevê-la, embolar a folha e começar tudo em um papel em branco. Nada de não saber! Aqui fora é aqui e agora ou nunca. Sem meios termos, sem choramingo.
E até que a gente aprende que é assim que as coisas realmente funcionam, bem, com o perdão dos bois, mas pastamos um bocado. Tudo é tão fantástico que queremos tudo, ou tudo é tão horrível que na verdade nem queremos nada. Mas não é assim. O mundo não é lugar para indecisos. Ou escolhe ou será escolhido. E a segundo opção talvez não seja tão atraente.
Me pergunto se então meu lugar é fora do mundo. Um lugar de completa indecisão. Todos livres sem ter que se curvar à pressão de ter que optar por algo. “Não sei” seria a frase mais ouvida nesse lugar, talvez “também” seria um verbete constante. Mas acredito que ao final morreria de fome pois não haveria quem decidisse o que se faria no jantar. É... são necessárias as escolhas da vida. Desde as mais insignificantes até as maiores, nada pode ser feito sem que se abra mão de um caminho. Sem que se deixe de viver o outro lado da moeda. E nós que convivamos com a frustração de não poder passar duas vezes pela mesma estrada e escolher a cada uma, jeitos diferentes de andar.
Mas afinal, o que é a vida senão uma constante frustração? Creio que nós, seres eternamente insatisfeitos, mesmo que pudéssemos viver ambas as coisas inventaríamos uma forma de obter uma terceira e esta sim, inatingível. Pois não podemos viver sem ter do que reclamar. O que seriam dos hipocondríacos da vida?
Vamos aprendendo, a fortes trancos e muitos barrancos, a levar nossas indecisões e incertezas só dentro de nosso peito. Que o mundo pense que somos sempre bem-resolvidos, e felizes com nossas escolhas. Ou ao final, poderemos todos morrer de fome enquanto o banquete está ali, bem a nossa frente.

domingo, 23 de novembro de 2008

Chuva


Henrique Fendrich
Foi quando os ânimos se acalmaram, e as pessoas puderam enfim relaxar. Quando todos estavam sentados, e pensavam coisas suaves. Quando o almoço ainda descia, e era dia de domingo. Quando todos os assuntos já haviam sido discutidos, e vivia-se um silêncio raro, uma pausa para que o acaso, ou algum acontecimento externo, nos mostrasse algo novo para se discutir. Quando não havia nada para se preocupar, e a televisão desligada não nos perturbava mais. Pois foi então, meus amigos, que o chefe da família esticou o pescoço até a janela com ar de curiosidade e, ao certificar-se do que se passava, voltou-se para nós e sentenciou, gravemente: "Está chovendo". Essas duas humildes palavras provocaram certo alvoroço entre nós. Primeiramente, ficamos espantados, e instintivamente olhamos todos para a janela, e pudemos ver com nossos próprios olhos. Realmente, estava chovendo. A nossa tranquilidade vespertina subitamente abalou-se. Notamos então que algumas toalhas estavam estendidas lá fora. A visão delas tomando chuva apavorou-nos. As mulheres soltaram gritinhos, e as pernas dos homens tremeram. Ainda assim, formou-se um pequeno exército, composto pelos mais bravos e corajosos homens que se dispuseram a enfrentar a chuva e tudo que dela surgisse, a fim de trazer as desprotegidas toalhas para um abrigo, onde poderiam descansar e seriam secas à vontade. Cumprida com sucesso a missão, em algum lugar a Marinha do Brasil deu um salva de tiros, em homenagem aos bravos guerreiros que enfrentaram as intempéries por um motivo tão nobre. Outro pelotão havia sido especialmente designado para subir até o sótão e fechar as janelas que, inadvertidamente, ficaram abertas. Esses valentes homens, no entanto, tiveram algumas baixas, pois alguns dos móveis ficaram molhados, sem que nada pudesse ser feito. Visivelmente humilhados, eles retornaram, mas nem por isso deixaram de ser condecorados com várias medalhas de honra ao mérito. Afinal de contas, impediram tragédia maior, e em pouco tempo estavam já consolados. Depois de alguns minutos, as coisas voltaram a serenar. Num novo momento de paz, a senhora da família achou por bem comentar que já era possível sentir o cheiro da chuva. Todos os presentes então apuraram o olfato e, encantados, concordaram unanimamente. Depois disso, cada um se entregou por alguns instantes a seus próprios pensamentos, que talvez cheirassem à infância. Pois pensando no tempo de criança, quase esquecemos das nossas, as quais, aproveitando-se da nossa distração, sutilmente começaram a caminhar em direção à chuva. Percebendo isso, organizamos uma pequena e rápida reunião, ao final da qual ficou estabelecido que o melhor a se fazer era voltar para dentro de casa, já que não havia nada para as crianças brincarem que não estivesse molhado. Com desculpas variadas, conseguimos convencer grande número delas a entrar. Antes disso, houve alguém que olhou pro céu e viu uma pomba, que pousava num cabo de energia elétrica. Com as asas abertas, a ave aproveitava a chuva para se lavar. A inesperada visão constrangeu a todos, e aceleramos os passos rumo ao interior da casa, antes que o clima de nostalgia fosse além do limite para uma família de bem. Gosto de pensar que também houve uma garota que se demorou um pouco mais, e que só tornou a entrar quando olhou pra cima, e deu graças a Deus.

domingo, 16 de novembro de 2008

No ônibus




Marina Costa
Hoje é dia de visitar a biblioteca pública durante meu horário de almoço, este curto espaço do meu dia, que é todo ocupado pelo serviço matutino e pela preguiça noturna; as únicas duas horas disponíveis para resolver meus pequenos problemas causados por essa vida civilizada. Pois se não fosse a civilização, eu não teria esses pequenos problemas. Nem horário de almoço. Mas também não teria que trabalhar.
Enfim, saí de meu local habitual, atravessei uma avenida, neguei esmola a um homem sujo que cheirava a álcool, cheguei na praça e subi no ônibus. Não que a biblioteca fique longe. Mas, convenhamos, andar debaixo de sol quente, atormentada pela poluição visual e sonora da cidade grande, parando a cada trinta passos em sinais que se mantêm eternamente fechados para pedestres, além do subir e descer ladeiras, não é bem a idéia que se tem de um programa de fácil digestão. Não que o ônibus não passe pelo mesmo caminho e seja impermeável as estas mesmas coisas. Mas pelo menos dentro dele estou sentada (na maioria das vezes) e como boa brasileira nasci cansada - as exceções da regra queiram por favor me desculpar o disparate.
Bom então, continuando, entrei no ônibus e me sentei na parte da frente, esperando o trocador liberar a passagem pois estávamos no ponto final e, apesar do motor ligado, havia um horário a respeitar. Além do que, o motorista, ainda não havia terminado sua animada discussão com o pipoqueiro.
Minha mente, para variar inquieta, dirigiu suas atenções ao volante e a chave na ignição. Tratou logo de fazer uma mirabolante viagem para passar o tempo inútil. Imagine - pensava ela - alguém sentar na poltrona do motorista e sair dirigindo esse ônibus... mais ainda, imagine eu, que não tenho nem carteira B, me sentar ali e sair dirigindo, só para distrair...
Eu andaria provavelmente menos de dez metros, pois naquela via movimentada, acabaria batendo em algo, o ônibus acabaria enguiçando ou poderia até levantar vôo – uma mulher no volante, como muitos dizem, nunca se sabe - enfim...
Mas ele se moveria, um pouco que fosse. Nessa aventura então eu me sentiria dona de minhas verdadeiras vontades. Os passageiros, desesperados com a alteração de sua sagrada rotina, gritariam, estarrecidos. Os motoristas e trocadores que se encontravam no ponto final, atordoados pelo movimento do ônibus fantasma, correriam atrás de mim a gritar “Páaaaaara!!!!!” ou “Pega!!!!”. Os transeuntes, parariam sua vida corrida para assistir aquele episódio inédito e engraçadíssimo – pois ora, vejam, que garota maluca! – diriam aos risos. E então, depois de segundos que pareceriam eternos ( tal é o poder da alteração na nossa mesmice diária), o ônibus finalmente pararia.
Eu desceria do lugar do motorista, calma, com um leve sorriso nos lábios - cara de quem sonha - com todos a me lançar olhares espantados-cômicos-raivosos e, ao chegar a viatura, o policial, de saco cheio das loucuras da capital me interpelaria para saber quais eram minhas pretensões.
“Uma terrorista querendo entrar com ônibus e tudo, em algum prédio público?”
“Uma louca fugida do hospício do quarteirão ao lado?”
“Uma ladra, integrante de uma gangue estabelecendo uma nova modalidade de roubo”?
Eu, em minha calma habitual, com a cara de quem sonha sendo interpretada como cara de quem tem parafusos a menos, responderia simplesmente que “ah, me deu vontade de dirigir um ônibus, uai!”
Talvez eu fosse presa ali mesmo e levada a uma delegacia, onde assinaria um B.O e receberia alguns comentários repressores por perturbar a ordem pública. Ou eles me amarrariam em uma camisa de força e ligariam para meus pais, para confirmar que eu não era certa de minhas próprias idéias. Poderia acontecer também de eu ser linchada ou ovacionada pela população ali presente (dependendo de ser início ou fim de mês). Ou então, vendo minha cara inocente, apenas me ameaçariam com a prisão e me mandariam embora dali aos gritos.
O único desfecho mais improvável do que essa minha idéia, seria aparecer nos lábios dos espectadores daquela cena fantástica um sorriso de entendimento e ver que eles aceitariam naturalmente o meu “deu vontade, oras!”, pois nessa vida tão regrada, quem no mundo não tem também idéias malucas de rebeldia?
O ônibus então saiu, me tirando do devaneio sem sentido, não sendo, obviamente, por obra minha.
Íamos aos solavancos típicos daquele transporte enquanto eu, já longe do motorista para não cair na tentação de lhe tomar aos sopapos a direção, olhava distraída a paisagem lá fora, as pessoas com sua habitual pressa, os sinais habitualmente fechados, as buzinas como sempre impacientes...
Divagava: “Ah mundo! Infeliz de nós que, domesticados em sua pobre rotina, perdemos a coragem de cometer atos insanos, com medo do que outros, tão insanos quanto nós, podem acabar pensando...” Mas, veja bem, que isso não é um movimento no sentido de “vamos todos sair por aí a dirigir ônibus”. É apenas um suspiro de desesperança pelo desejo de vivermos mais de acordo com nossas próprias vontades e não podermos. É simplesmente um... Bah! Vocês entenderam!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mundo Doce



Marina Costa
- Ei moça, me compra uma bala?
- Agora não tenho, fica pra depois.
- Só uma moça, pra eu poder ir embora...
- Mas...
E seu olhinhos esperançosos de criança pidona, mesmo eu sabendo que são pré-programados para nos comover, me vencem.
- Quanto é?
- Cinquenta centavos!
- É com leite condensado?
- É, bem docinha!
- Tá, me dá duas aí.
E estendo para a menina uma nota de dez reais, já sabendo no meu intímo maldoso que ela não tem como trocar.
- Ih! – ela diz exteriorando sua tristeza – tem trocado não?
- Não, só esse!
- Ah... deixa pra lá então...
E assim, livre da obrigação e ciente de que tentei cumpri-la, sigo meu caminho buscando outras coisas para pensar. Mas ainda chega as meus ouvidos:
- Moço, me compra uma bala?
Com a consciência pesada, vejo todo mundo passar sem tomar conhecimento da vendedora mirim. Volto, sento ao seu lado no passeio e ela pergunta cheia de expectativa:
- Você trocou moça?
- Você quer ir comigo tomar um lanche? – é minha resposta.
Ela pensa um pouco; por um momento vejo toda a sua vontade de ser só uma criança normal e sem preocupações tão “adultas”, de sair correndo dali e se lambuzar com chocolates e refrigerantes, deixando de lado aquele ofício tão difícil para sua pouca idade. Mas sua responsabilidade ofusca seus desejos infantis e ela responde:
- Não posso! Tenho que vender tudo isso ainda, antes de voltar pra casa.
- Mas você não está com fome?
- Bom, tá eu tô né? Mas se eu não vender, meus irmãos também não vão ter o que comer.
Olho sua caixinha com apenas quatro pacotes de bala. Acredito que seja mesmo difícil vendê-las principalmente ao final do dia, quando as pessoas, cansadas, não enxergam nada além de sua imensa vontade de chegar em casa.
Levanto, entro na lanchonete mais próxima, compro alguns salgadinhos e refrigerante tamanho extra e levo para ela.
- Toma amiguinha!
- Brigada moça!!!!!! - ela exclama sincera e sem deixar de lado balas e caixa, se põe a comer com um sorriso enorme no rosto, como se na vida não tivesse nada de tão bom como aquele momento.
Na minha cabeça se passa tudo o que pode ser essa menininha. Com seus oito, dez anos, pelo que aparenta, ela pensa mais em sua família do que na fome que sente. Parece não saber o significado de egoísmo. Quantos pessoas não demoram décadas para tentar desaprender o que é isso?
Eu, com meu coração mole de quem ainda não se acostumou com a miséria das grandes cidades, sinto meus olhos se encherem de água, pensando em sua inocência roubada pelas dificuldades da vida. Porquê?
- Nó – fala ela – agora posso trabalhar mais um tempão!
Eu rio de sem graça e compro suas balas para que ela vá logo para casa. Seu descanso talvez seja mais merecido do que o meu.
Em troca recebo um abraço. Não um abraço de gratidão ou de obrigação, mas um abraço de uma criança que se sentiu compreendida, no meio de tantos que não a escutam, que entende de bondade mesmo recebendo tantos dissabores e que encontra em cada dia difícil uma coisinha que é capaz de fazê-la sorrir e entender que viver, apesar de tudo, vale a pena. Uma pequena “Pollyana”, eu diria, com obstáculos bem mais tristes para fazer seu “Jogo do Contente”, mas que não deixa nada a desejar em comparação a esta outra, famosa e clichê, da literatura mundial. O quanto aprendi nesse dia ao esquecer um pouco minha diária correria maluca que, concluo, só servirá para me trazer a morte mais depressa.
- Tchau moça!
- Tchau mocinha!
E ela corre em direção o ponto de ônibus, pois sabe que o motorista, assim como a vida, não espera por ninguém.

domingo, 12 de outubro de 2008

Meu Cerco na Lapa


Henrique Fendrich

A Lapa é uma cidade a 69 quilômetros de Curitiba. É uma distância segura. Uma das vantagens em se visitar a cidade é a possibilidade de passar quase despercebido. Os turistas estão para a Lapa assim como os pombos estão para Curitiba: tomando conta das principais praças da cidade, todos os dias da semana, sempre em grupos animados, em número cada vez maior, ficando cada vez mais ousados, e fazendo parte de uma rotina que não merece mais muita atenção.

O curitibano do século XXI sente-se chocado com algumas das noções de planejamento urbano existentes na Lapa. Não consegue conceber a idéia de que existam ruas de calçamento em pleno centro da cidade. É como se o centro de Curitiba fosse engolido pelo Largo da Ordem. Todos os 14 quarteirões do Centro Histórico da Lapa não possuem asfalto. E nem sinaleiros. Em tempos de eleição, essa é uma característica amplamente favorável. Os homens urbanos certamente veriam com indignação a calçada da Rua Francisco Braga – sem dúvida a mais estreita de toda a Região Metropolitana de Curitiba. Mal cabe uma pessoa em cima dela, e essa pessoa geralmente encontra uma outra, vindo na direção oposta. Gosto de pensar que, na verdade, essa é uma eficaz estratégia do governo municipal, com o admirável objetivo de conceder ao cidadão comum a chance de praticar um ato de bondade, descendo da calçada e permitindo que um outro cidadão passe com mais tranqüilidade.

A cidade conta com pouco mais de 40 mil habitantes. E assim como a capital paranaense, a Lapa também possui uma rua chamada XV de Novembro. Mas ao contrário da concorrida homônima de Curitiba, a rua lapeana possui tanto movimento quanto as outras ruas vizinhas: muito pouco. Há outra diferença fundamental que separa Curitiba da Lapa. Na Rua XV de Novembro da capital, os cidadãos curitibanos erigiram um imponente templo ao consumo e à modernidade. Na Rua XV de Novembro da Lapa, os cidadãos lapeanos ergueram um estranho prédio para preservar a memória de seus heróis. No “Pantheon dos Heroes” descansam em paz muitos dos cidadãos da Lapa, e provavelmente muitos outros que apenas morreram na cidade. Eis, portanto, a diferença: os lapeanos erguem templos ao passado, e nós a um futuro incerto, e provavelmente prejudicial.

Esses heróis da cidade morreram durante o Cerco da Lapa, na Revolução Federalista, em 1894. As tropas legalistas, em menor número, conseguiram impedir que os maragatos vindos do sul avançassem e chegassem com a revolução na capital do Brasil. E o líder das forças legalistas era o General Carneiro, esse mesmo senhor sob os pés de quem estou sentado nesse momento. É a praça que leva o seu nome, e a estátua em bronze também é a sua. Sei que se trata de um militar, um ex-combatente da Guerra do Paraguai, mas esqueço nossas diferenças e começo a puxar assunto. Penso em dizer que ele possui a grande vantagem de não ser estátua em Curitiba, onde atrairia apenas pombos. Assim como eu, o General Carneiro não nasceu na Lapa. Mas hoje, é ali que seu nome soa melhor. Não acredito que suas cinzas estejam realmente no Pantheon. O General Carneiro sequer morreu. O número de homenagens que recebe, o seu olhar imponente, o seu rosto convicto, a sua aura de valentia, a freqüência com que seu nome é pronunciado, a importância que representa para a economia da cidade, tudo isso é prova suficiente de que o General Carneiro continua bem vivo no pensamento de uma cidade que, por algum motivo que não conseguimos entender direito, se recusa a esquecer tudo que se refira ao seu passado.

Ao me despedir do General, encontro o embaixador Hipólito Alves de Araújo, que desde 1957 é um bonito busto na mesma praça. Pareceu-me um bom sujeito, que libertou seus escravos oito anos antes da Lei Áurea. Ele olha fixamente para o Hospital que criou, do outro lado da rua. O prédio informa o ano da construção, que foi o de 1924. Ontem, praticamente.

Ainda mais se repararmos na Igreja de Santo Antônio, que fica na própria praça, e cuja porta informa uma data ocorrida há praticamente dois milênios: 1784. Sua arquitetura é em estilo colonial português simples. Dentro, há imagens do século XIX, trazidas da Europa. Mas tivemos o azar de estar lá em plena segunda-feira. Nesse dia, a Igreja fica fechada. Tudo que podemos fazer é ficar no espaço entre a porta central e a porta que dá acesso ao interior da Igreja. Pelo vidro, conseguimos enxergar o que existe lá dentro. Um senhor e duas senhoras estão lá, em profunda concentração, com semblantes contritos .Não é a segunda-feira e tampouco uma porta que vai impedir que eles orem. Em silêncio, observo aquela admirável manifestação de fé lapeana.

Dizem que são 258 as edificações do Centro Histórico, das quais 38 datam do século X IX. A definição “Centro Histórico” não é de meu agrado. Sugere a existência de um outro centro, um centro que temo conhecer e me decepcionar. E, na verdade, tenho sérias dúvidas sobre a necessidade de um outro centro. Por ali, temos uma Igreja, uma praça, uma escola, um mercado, um hospital, uma farmácia, um terminal de ônibus e 24,41 hectares de passado e história, disponíveis de forma democrática a todos, incluindo aqueles que, como eu, não moram na cidade.

Caminhando pelos quarteirões, encontro a casa onde o governador Ney Amynthas de Barros Braga resolveu vir ao mundo. Muitos governadores do Paraná ainda irão nascer, mas tenho certeza que dificilmente um deles terá o seu nome estampado com tanto orgulho na casa onde nasceu. Existe ainda a Casa Lacerda, sede do Quartel General durante o Cerco da Lapa. Também existe a casa onde – dizem – morreu o sempre vivo General Carneiro. Há a simpática prefeitura, ao contrário do que estamos acostumados. A Casa dos Cavalinhos, onde um homem sonhou com cavalos alados e ganhou o prêmio máximo na loteria imperial. Hoje, essa casa guarda o acervo da memória lapeana que não está no inconsciente coletivo. E uma quantidade considerável de casas com placas na entrada, explicando a razão pela qual nós, estranhos seres contemporâneos, devemos reverenciá-las por toda a eternidade.

Passo novamente pelo Antigo Beco da Tia Caetana, hoje Rua Dr. Amynthas de Barros. Coisa impensável em Curitiba: motoristas cumprimentam pedestres de dentro do carro. E pedestres cumprimentam outros pedestres. A Lapa oferece popularidade aos seus cidadãos. Encontro um motorista de chapéu, que me faz pensar nos tropeiros que seguiam de Viamão para Sorocaba. O antigo caminho das tropas é hoje uma bonita avenida, com 2 quilômetros de jardim. Descendo novamente a estreita Rua Francisco Braga, e praticando uma nova boa ação, chego até esse antigo caminho, no trecho que hoje se chama Rua Dr. Manoel Pedro. De lá, alcanço o Terminal Rodoviário José Ribas e me preparo para voltar.

Enquanto lá estou, uma moça se aproxima de mim. Ela segura uma prancheta e uma caneta. Certamente está fazendo alguma pesquisa eleitoral, pois estamos na época. A Lapa conta com tão poucas placas de propaganda política que chego a pensar que se trata de um novo Cerco. Mas ela se aproxima de mim, e antes de me dizer qualquer coisa, pergunta se eu sou da Lapa.

Tive uma doce vontade de mentir e dizer que sim, que eu era da Lapa desde o começo, desde que eu me conheço por gente. E, ao mesmo tempo, tive uma vergonha tão grande de confessar que eu era da capital que o máximo que consegui fazer foi negar, sem dizer de onde eu era.

- Não, eu não sou da Lapa.

Foi uma decepção tão grande para ela que não quis mais papo comigo, e então caminhou na direção de um outro cidadão. Dessa vez, um bom e pacato lapeano.

domingo, 5 de outubro de 2008

Justificativa


Vou me abster de escrever pois estou acompanhando as eleições. E vou me abster de falar sobre elas porque qualquer site que vocês olharem por aí vai estar falando melhor do que eu. Podem até ser feitos de ctrl c + crtl v. Mas continuam falando melhor do que eu.

As urnas ultra-modernas do país que está engatinhando na questão da tecnologia ainda demoram duas ou três horas para dar o veredicto final. Os mais cybernéticos se impacientam. Querem o resultado para ontem, antes da cerveja.

O que vai sendo apurado não é lá um cenário tão novo assim: quem apareceu e gastou acaba sendo mais lembrado do que aqueles que fizeram a campanha no sonho. A vida não espera ninguém acordar. Na política muito menos. É por isso que estamos do jeito que está.

Uns choram, outros riem, alguns gargalham a derrota alheia. Em certo interior 20 pessoas fizeram a maior diferença. Em outro, a vida podre do candidato pouco importou. Se temos os políticos que merecemos, talvez uns merecem mais que os outros. E o 5 de outubro se põe.

Janeiro virá. A memória vai se apagar. Pouca cobrança será feita. Mas eu sonho. Eu sonho com pessoas nas ruas, com cidadãos fazendo valer seu dinheiro, ensinando ética à quem mal sabe soletrar. Sonho com pessoas honestas, que estão lá não pelos desvios, pelo dinheiro fácil, mas pelo patriotismo, pela vontade de ajudar. Sonho com pessoas lutando pela real democracia, pelo real significado de nação. E nessa hora os políticos vão ter que se justificar. 

E eu que nem queria falar das eleições fico aqui divagando, gastando o seu tempo e o meu...

domingo, 28 de setembro de 2008

As Idéias

Henrique Fendrich
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As idéias se juntam em fila indiana, e pedem a atenção de Isadora. Ela apenas observa, indecisa. Há idéias de todas as cores, tamanhos, credos e times de futebol. Algumas nascem nas páginas de um jornal, ou em um programa de televisão. Outras surgem quando Isadora olha pela janela e observa as pessoas. Ela precisa escolher uma delas e escrever. Decide pegar a primeira idéia da fila. Satisfeita, a idéia se oferece, toda serelepe. Isadora começa a rabiscar. Mas subitamente se decepciona. Aquela idéia não era tudo isso que pensou. Arremessa-a contra a parede. Quando pensa em pegar a próxima da fila, ela percebe que agora todas as idéias se misturaram e se confundiram, e começaram todas a gritar e dizer que são melhores que as outras, que merecem ser colocadas no papel. Isadora escolhe uma, e outra, e mais outra, e não consegue falar sobre elas. Se pudesse, ela não queria escolher. Que houvesse apenas uma única idéia, e que ela fosse totalmente extraordinária, e que ela pudesse escrever o mais belo dos textos sobre ela. Mas há excesso de idéias, e Isadora se confunde. O mundo oferece idéias às pencas, e ela não sabe qual escolher. Desanimada, ela quer desistir e pensar em outra coisa. E só nesse instante é que Isadora se dá conta que sofre. Que é vítima de uma injustiça, ou que ama alguém que não quer saber dela. Que a vida é dura, que o tempo é curto, que o trabalho é árduo e que os sonhos estão distantes. Então o rosto de Isadora se ilumina, e ela joga fora todas as idéias que tinha sobre o mundo. Ora, do mundo e das pessoas ela nada conhecia, ou então conhecia muito pouco, não havia como escrever sobre elas. Mas sabia muito bem de si, mais do que qualquer outra pessoa. Isadora escolhe então as idéias em que foi escolhida.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No Consultório


Da série: "O Namorado da minha amiga".

Marina Costa


Quando ela nasceu seu pai, que esperava um garoto, não resistiu e se derreteu. Mimou tanto a princesinha que ela nunca mais quis saber de outro homem, até conhecer o doutor. Não, ela nunca precisou de médicos. Sempre foi uma menina travessa e vivia ralada nos joelhos. Mas era o orgulho da família: nunca precisou de ir ao médico. Sua saúde sempre foi de ferro e às vezes até fingia que espirrava só para ganhar a atenção dos avós! Todos sabiam que era falso, mas a cobriam de beijos até vê-la correndo novamente.


Um dia, já grandinha, ela foi a um bar, com as amigas. Reparou em um homem que a olhava insistentemente. Começaram a conversar, trocaram telefones e não teve jeito: em uma semana, tinha pego o mais temido e desejado vírus dessa vida, o da paixão. Quando descobriu que sua companhia era um médico, aí que não se segurou mais. Tudo o que não sentira por toda sua vida veio à tona. Calafrios, febres altíssimas, vertigens. Se ele não ligava então aí que caía de cama. Mas bastava o doutor aplicar o remédio (muitos beijinhos durante uma tarde) que ela ficava muito bem de novo, e assim foi por um longo período. Mas aconteceu o previsto. Ele era um homem feito pra cuidar das dores do mundo. E precisou viajar para longe, a fim de continuar entendendo sobre os perigos de estar vivo.


A menina, que esbanjava saúde, caiu em depressão. Tomava remédios como antes chupava balas e bastava passar em frente a um hospital para ter impulsos de se jogar em uma maca. Começou a freqüentar um divã para tentar curar o dito incurável. E conseguiu. Três semanas depois o clínico geral dera lugar ao psicanalista. Foi um tempo bom. Mas ela percebeu que a vida além do divã estava se tornando complexa demais. Ele, não podia ouvi-la dizer que amou um filme tal, para começar a analisá-la sob a ótica de Freud. E ela não suportou esse relacionamento a três.


Resolveu partir para outras áreas. Foi à uma festa de engenharias. Recebeu um presente do acaso e acabou escorregando ao pisar na cauda de seu longo Dior. Todos, ao verem aquela bela mulher ao chão, chegaram para ajudá-la, mas dentre eles apareceu um que se fez mostrar: “Sou médico, deixem-me examiná-la!” Ela desmaiou de emoção. E no dia seguinte almoçou ouvindo, maravilhada, as últimas novidades no campo da neurocirurgia. Mas tal como o discípulo de Freud, esse novo namorado acabou se esgotando. Ele era bonitinho, ela sabia, mas veio com uns papos de se especializar na Inglaterra e antes que ela sofresse demais alegou uma amnésia recente. E esqueceu seu telefone para sempre.


Disposta a abandonar essa vida de pessoa saudável às voltas com médicos em constante mudança, se mudou para uma praia. Lá, trabalhava em uma repartição pública de manhã, nadava à tarde e bebia água de coco à noite. A cidadezinha era um paraíso e há anos não se via um caso sequer de doença. O máximo que acontecia era um ou outro turista trazer uma gripe qualquer que não durava dois dias sobre o sol. “Estou livre deles” – pensava ela. E assim foi. Até o dia em que sentiu uma câimbra no mar. Um surfista, que estava por perto a salvou heroicamente e no instante em que ela, aliviada, olhou seus olhos verdes, agradeceu aos céus por ele estar sob uma prancha e não com um estetoscópio no pescoço. Combinaram de sair. Durante um mês, conversaram, riram, tomaram drinques de laranja. Mas então ele veio com a notícia: “Eu tenho que voltar!”. Ela se desesperou. Mais uma vez. Perguntou por quê e ele respondeu que suas férias, longas depois de 5 anos trabalhando direto, haviam terminado. Convidou-a para acompanhá-lo. E ela, sem pensar duas vezes, seguiu seu coração dessa vez. Pediu as contas, catou as últimas conchas, fez as malas e embarcou, muito feliz e saudável. No avião, ao decolar, perguntou, por distração, o que ele fazia. Ele, orgulhoso de si, respondeu que era cardiologista. Ela, estática, teve ímpetos de se jogar da janela do avião! Mas viu entre as nuvens um anjo sorrindo no céu, entendeu que não há como fugir ao nosso destino e disse para ele que o maior sonho de sua vida era trabalhar em um consultório médico. Assim começou outra história de amor...

domingo, 14 de setembro de 2008

O Coveiro

Henrique Fendrich

A cidade de Lagoinha tem cerca de seis mil habitantes, e um único coveiro. Há três anos, Francisco de Assis Soares trabalha no cemitério local, ganhando um salário mínimo por mês e enterrando os seus conterrâneos, sem fazer distinção de cor, credo, classe social ou time de futebol. Apesar do serviço ser meio morto, ele não se importa em trabalhar de domingo a segunda-feira. Mas tem muita gente que se importa. Pedir para que fique trabalhando em pleno final de semana é abusar demais da boa-vontade do pobre Francisco. Ele precisa descansar, ficar com a família e ter o seu momento de lazer. Foi com essa nobre intenção que a Prefeitura Municipal dispensou o funcionário público do trabalho aos sábados e aos domingos. Em outras palavras: nesses dias não tem coveiro na cidade. Ou, em palavras ainda melhores: nesses dias ninguém pode morrer.

Talvez o ofício tenha feito de Francisco um homem mais cético. É por isso que ele não acreditou na Prefeitura. Um senhor sério e engravatado, que diz ser do Departamento Pessoal do município, assinou um documento dizendo que, na verdade, o coveiro nem fará muita falta, porque as pessoas não têm o hábito de morrer aos finais de semana em Lagoinha. Pois ora, ninguém melhor que Francisco para saber qual a taxa de mortalidade da cidade aos sábados e domingos. E o coveiro diz que é exatamente nesses dias que ocorre a maior parte dos falecimentos! Agora que foi dispensado, todos terão que esperar pacientemente até a segunda-feira. Bolas, o que são dois dias para quem tem a eternidade?
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Francisco conversou com o Sindicato e encontrou uma explicação para a atitude da prefeitura. O coveiro não estava recebendo horas-extras. O Sindicato protestou, movendo uma ação contra o município. E a Justiça do Trabalho procurou fazer justiça ao trabalho, obrigando a Prefeitura a pagar o dinheiro devido a Francisco. O prefeito certamente morreu de raiva com essa punição, e se recusou a pagar. Ora! Gastar tanto dinheiro com um coveiro? Onde já se viu? E foi depois disso que o coveiro recebeu o comunicado dizendo que estava dispensado do trabalho nos fins-de-semana. E como resultado, os cidadãos estão proibidos de morrer durante a folga do coveiro.
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O prefeito nega essa versão até a morte. Diz que ninguém está proibido de morrer aos fins-de-semana em Lagoinha e, aqueles que assim o desejarem, que sintam-se à vontade. E diz ainda que, se for o caso, ele próprio servirá de coveiro nesses dias. O prefeito certamente acha que o trabalho do coveiro é simplesmente arrancar um punhado de terra do chão e jogar um esquife dentro do buraco que for aberto. Francisco diz que não. Homem concursado, diz que não é qualquer um que sabe fazer o serviço. Há uma série de técnicas e, certamente, nem o prefeito, o homem mais poderoso da cidade, saberia realizar o trabalho de Francisco.
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Aguardamos com apreensão um novo comunicado da Prefeitura, avisando ao coveiro que, ele próprio, está terminantemente proibido de morrer, e isso em qualquer dia da semana, e não apenas aos sábados e domingos. Quem é que enterra o coveiro, afinal?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sozinha


Ela chegou mais uma vez exausta. Ainda não entendia porque era preciso se matar de trabalhar enquanto jovem para depois, já velha, poder descansar relativamente tranqüila. Não poderia ser ao contrário? Receber a aposentadoria para só depois quitar a dívida com o INSS? Afinal, infelizmente já tomara conhecimento disso a algum tempo, a velhice é uma época em que nos consideram inúteis trastes rabugentos. Preferia gastar seus anos de descanso enquanto era jovem, enquanto era cortejada e podia contar anedotas sem graça, que faziam todos rir (mesmo que cheios de segundas intenções) por causa do seu charme juvenil. Assim, quando fosse velha, trabalharia como voluntária em um asilo, onde não ganharia mais atenção do que uma cadeira antiga, mas estaria entre mentes igualmente resignadas. Não adianta pensar sobre isso, era dar murros em ponta de faca, como dizia sua mãe. Vai entender esse sistema. Querer discutir em uma sociedade onde só se valoriza o novo é uma grande besteira, que nos dá o depreciador julgamento de idealista. Visionários. E pensar que gente assim não cansa de nascer por aí. Não entendem que é melhor aceitar e labutar como se fosse a única coisa que realmente se devesse fazer na vida.

Desde que começaram a dizer-lhe que já era uma adulta as responsabilidades não paravam de chegar. O que mais lhe entristecia era saber que agora, nunca mais poderia passar uma tarde vendo filmes em frente à TV, comendo biscoito com leite, debaixo das cobertas enquanto o sol esquentava a rua. Férias não contam, são como um desafogo do crachá, duram menos que um piscar de olhos e a sensação de descanso é bem diferente daquela tranqüilidade “vagabunda” do colegial. A menina morena também se lembra com carinho das tardes sem aula, dos deveres por fazer até por volta das seis horas, da bola na rua, dos pés sujos de terra vermelha, dos bons tempos de “Malhação”. Agora, olha triste para seus pés incrivelmente brancos, abandonados, sem resquícios daquele encardido de que tanto se orgulhava. Não resta nada a não ser suspiros. Cansada, se dirige ao banho.

“Você ta aí? Eu quero entrar.” Nem paz tem nessa vida de gente grande. É um tal de preocupar com a irmã, com o gato, o papagaio do vizinho, que não entende a palavra relaxar. Tem um pouco de culpa nessa parte, pois vive achando que pode carregar o mundo nas costas e ai de quem diz o contrário. Talvez a vida, como Kafka, deveria transformá-la em um inseto algum dia, para ver que precisam dela sim mas que não é nada insubstituível. Como diz seu velho pai, o cemitério está cheio de insubstituíveis. E chega uma hora que há alguém mais competente para poder ajudar.

Alta madrugada, quase na hora de levantar outra vez, finalmente adormece. Por vezes sonha com o escritório e toda a papelada que deixou por organizar. Tem pesadelos homéricos onde pilhas de processos a perseguem até a beira de um abismo. Acorda assustada de madrugada, fugindo daquele pandemônio irreal para deparar-se com a bagunça incrivelmente palpável do seu quarto de pensão compartilhado. Nessas horas, pensa em como acostumamos com tudo na vida, seja bom ou ruim. No início tentara manter tudo limpo e organizado, tendo o caos dos outros moradores levado a moça ao extremo da loucura onde reinavam gritos e sérias ameaças de morte. Quando por fim viu que de nada adiantaria lutar com seus esfregões e panos úmidos, decidiu matar realmente, mas ainda não estava sã o bastante para fazê-lo. Deixou-se vencer e via, indiferente, os montes de roupas sujas e poeira ir tomando seu espaço, escarnecendo de sua organização a cada instante. Mais suspiros.Levantou-se para beber uma água na cozinha. Os milhares de copos na pia já não lhe diziam mais respeito, nem os via na verdade. Encostou-se na mesa de jantar e, copo na mão, começou a sonhar acordada com um cantinho branco e limpo onde pudesse viver sozinha.

Uma casinha branca, lá no pé da serra só para ela morar. Seria uma casa sem móveis para não aparentar acúmulo desnecessário. De uma coisa não abria mão: um quarto, o maior de todos, para encher de estantes com livros. Traria flores todos os dias e elas ficariam perfumando os cômodos junto com os incensos sempre acesos e sem ninguém para maldosamente reclamar da “fumaça fedorenta”. Sua coleção de cristais poderia andar pela casa sem receios de tombos e mãos curiosas. E, o melhor de tudo, reinaria ali, em seu território, uma limpeza e organização sem igual. Essa perspectiva até alegrou o semblante desanimado da mulher. E, na expectativa de algo novo, mesmo que pequeno ou inatingível, deitou-se novamente, deixando-se embalar na onda dos sonhos solitários. Eram esses sonhos, tímidos e mirrados (a única coisa que restou de seus gigantescos ideais infantis) que ainda a mantinham acordada a cada outro dia que insistia em vir, monotonamente igual ao anterior.

domingo, 31 de agosto de 2008

A Pequena


Henrique Fendrich
Era noite de reveillon, e eu estava reunido em meio a uma multidão de gente que eu não conhecia, incluindo a minha namorada. O que não impediu que nos abraçássemos todos efusivamente quando o relógio anunciou doze horas. Afinal, é nessa hora que a gente rasga todos os calendários do ano anterior, perdoamos todas as dívidas, desejamos todas as bem-aventuranças, fazemos todas as promessas, e acreditamos em todas as mudanças de comportamento.
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Fogos de artifício coloriam o céu e exigiam toda a nossa atenção, impedindo qualquer conversa mais prolongada. O momento pedia uma fotografia, ela me disse. Mas uma fotografia, meu amor, é um instante que morreu. Um instante que a gente mata. Se a gente se preocupar mais em matar o instante, é capaz de nem aproveitar o momento em que ele acontece. Eu coloco mais vinho, você coloca também. Eu queria ficar alto, eu suspeitava que os fogos anunciavam a nossa separação.
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Quando a gente se olhou e se abraçou, você falou “Tudo de lindo pra você”. Eu falei alguma coisa parecida, e nada mudou. Eu até pensei em falar mais alguma coisa, algo que te deixasse ainda mais bonita e alegre. Mas o barulho dos foguetes era alto demais, e você provavelmente não iria entender. Então pediria pra eu repetir. Eu tentaria dizer de novo, mas me atrapalharia, não usaria as palavras certas, e você continuaria sem entender. A gente se cala e olha pro céu, que é o melhor que a gente pode fazer.
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Um senhor chega até mim e me cumprimenta. Não sei quem era, e nunca mais o verei. Eu queria que fosse como na noite anterior, quando o mundo todo era nós dois. Estar de pijama, usar chinelo. E principalmente, ficarmos colados, em plena sala de estar. Sabe, é uma injustiça que seu corpo trigueiro não faça parte de nenhuma Escola de Samba. É uma tristeza maior ainda que eu não diga essas coisas pra você nessa noite, nem em noite alguma, meu amor. Mas hoje é reveillon, finjamos que todas as coisas mudarão para melhor. Aproveitemos os cachos de uva, cantemos as músicas que o seu irmão toca no violão. E que a gente ria, sempre, sempre.
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Pensando melhor, agora já acho uma boa idéia tirar uma fotografia desse instante. Congelar os momentos que interessam, e esquecer os tristes. No máximo, avançar um pouco até o momento em que o seus lábios deixaram nova marca na minha boca. E depois, quando eu fiquei brincando com as suas mãos, feito bobo, balançando pra lá e pra cá, e você deixou tudo. Como se ainda houvesse esperança, você deixou tudo. Você é muita boa, sabe.
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Congelemos portanto uma imagem dessa noite de reveillon. Para deixar registrado o instante em que ainda acreditamos em ilusões. Quando tudo é motivo de paz e esperança, quando a gente apenas sorri, e deseja com toda a sinceridade tudo de lindo para o outro. Sem saber que não ficaremos mais colados. Sem saber que algum tempo depois iremos brigar por causa de uma banalidade, que iremos dizer coisas feias, que vamos chorar, que vamos esquecer o que houve de bom, e que ganharemos algumas rugas a mais.
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Tiremos, pois, uma foto!

domingo, 24 de agosto de 2008

Morena


Marina Costa

É morena, o cantor diz que está tudo bem e te chama de serena. Mas por trás desse rosto passivo, escorre lava e pedras explodem, contidas pelo germe da boa educação.

O mundo continua girando e levando quem já cumpriu seu tempo e você segue chorando por tudo que sabe não ter remédio. O fardo é pesado mas ai daquele que te mandar descansar. Sua bondade de mártir te dá forças, mesmo que falsas, para continuar a andar.

É morena, chega uma hora na vida que é preciso decidir. Deixar o outro escolher por você não quer dizer diplomacia mesmo que seja o que sua mente condicionada quer te fazer acreditar. Busque o seu caminho pela sua vontade. Diz a lenda que quem se deixa levar acaba ficando invisível, perdido na floresta do nada...

Levanta dessa cama e abre o vidro da janela. Não tem problema se a chuva entrar. Tudo um dia seca. E se alguém reclamar, deixa falar... ou você acha que o mundo segue essas nossas regras contidas?

A vida passa, morena, e você insiste em não querer deixar marcas. Não quer ser citada, não quer ser lembrada, não quer se mostrar. Página em branco, sem margens nem linhas, só existindo por insistência da criação. Não é desperdício não?

Tenta acordar se sentindo linda. Achando que fala a língua do vento, que ouve as histórias das árvores velhas. Beije aquele menino com brilho no olhar. Lambuze a boca de chocolate, fale coisas impensadas, só para rir de si mesma.

O tempo vai passar morena, e todo o riso vai ser esquecido. Seus sonhos e desejos não serão mais que memória empoeirada. Mas o que você pode sentir, morena, isso vai seguir por aí. Inspirando outras meninas que como você tinham medo de viver.

domingo, 17 de agosto de 2008

O Barbeiro


Henrique Fendrich
Há um barbeiro, pois de vez em quando eles existem. E ele não faz outra coisa da vida há mais de meio século. Mas ora, os barbeiros estão em baixa no mercado. Em pouco tempo, se transformarão em peças de museu. A tendência mundial é, naturalmente, relegar esses profissionais antiquados a um merecido esquecimento. Isso porque hoje temos modernos salões de beleza, muito mais atrativos para as nossas vaidades. E além do mais, com tanta tecnologia, já é possível fazer a barba sem sair de casa. De modo que a profissão de barbeiro se tornou de pouca utilidade.
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Por isso, o barbeiro não consegue mais aumentar sua clientela. Tem os mesmos fregueses há várias décadas. Gente que começou a ir à barbearia ainda criança, em companhia do pai, e que continua indo depois de grande, pra manter a tradição. E pra poder conversar com o barbeiro sobre as suas coisas, pois ele é sempre um bom ouvinte. Além do mais, também o barbeiro deve ter, necessariamente, histórias muito curiosas que precisa contar a alguém.
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Mas essas pessoas estão ficando cada vez mais raras. O barbeiro observa com tristeza que sua clientela está cada vez menor. Ele constata que as pessoas, depois de certo tempo, acabam morrendo. Todo ano, cerca de 15 clientes fiéis de sua barbearia partem dessa para melhor. Obviamente, esse número não será nunca reposto. Sua profissão é uma contagem regressiva, até o momento em que todos os seus antigos e fiéis amigos estejam mortos. Então, o barbeiro não terá mais o que fazer e sua vida terminará. Ou talvez ele morra antes, e então os clientes precisão fazer a barba por conta própria, ou entrar de uma vez por todas no mundo moderno.
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Se o barbeiro tiver honrado os nobres preceitos da barbearia enquanto esteve por aqui, ele poderá, como recompensa por toda a eternidade, fazer a longa e branca barba de São Pedro. Que, cá entre nós, bem que está precisando.

domingo, 10 de agosto de 2008

Alívio


Marina Costa

Estava cega. A obsessão pela vida de ilusões me deixou em um estado de inércia, sem conseguir lutar contra as adversidades impostas depois que parti desse mundo irreal. Me acho merecedora dos castigos que recebo e sofro embora lamentando as punições que armei para meu espírito fraco. Enquanto era consciente de meus atos eu julguei, condenei, ignorei, estipulei modos de viver, agi com vários pesos, várias medidas. E agora, me recolho à minha posição, de quem deve sofrer para expurgar seus próprios pecados, valores corrompidos. O calor da culpa derrete minha pele, corrói meus ossos mas purifica minha alma e por isso é bom. Minhas lágrimas secam antes mesmo de cair pelo meu rosto e me sinto indigna até de chorar ao reconhecer que por muito tempo errei. Busquei o que enfrento agora, colho o que plantei. Mesmo ciente de como procurei pelas atrofiações do mundo, sinto um pouco de pena de mim. Viver aqui é pior do que jamais alguém poderia imaginar. Não há inferno inventado que se compare a este lugar, o poço de remorsos do ser humano, onde não há nada de claro, de límpido, de puro. Apenas solidão, culpa, choro e ranger. O Pai, sei que errei e que mereço sofrer. Mas agora, do fundo de mim que se envergonha de pensar que sou tua imagem, eu me arrependo de meu viver imponente. Me arrependo de meu orgulho e prepotência, de minhas omissões, de meu escárnio. Tenho nojo de meus pré-julgamentos, de meus preconceitos, de minhas manipulações. Não peço perdão, pois talvez não mereça. Só quero me dissolver e acabar com essa consciência do nefasto interior que me consome.

Nesse momento, consigo chorar, pois por mim e não por uma imagem para exteriorar, me purifiquei. Me sinto em paz comigo. Reconheço que errei e meu choro limpa a culpa. Consigo respirar menos sufocada pelo enxofre de meus pensamentos sombrios. E aos poucos a paz que há tempos tanto busco vai inundando meu coração. Consigo sorrir e agradecer a algo que sei que me ouviu. Entendo nesse momento o que é piedade e sei que alguém sentiu compaixão por mim. Uma brisa leve começa a soprar em meu rosto. O calor, que tanto me martirizava aos poucos vai se abrandando, meus pés já não parecem pisar sobre brasa, meu sangue começa a correr mais fresco por minhas veias. Então me preparo para a dissolução, a total ausência de ego, o simples nada ser, nada ouvir, escuridão do universo em potencial. As sensações não param. Penso, amedrontada, que meu sofrimento será ampliado, que minha culpa ainda não foi expurgada. De cabeça baixa, ouço o piar de um pássaro e ainda com medo, abro os olhos devagar. A luz me cega por momentos mas volto a enxergar agora como um ser criado por algo divino. Vejo flores, ouço ao longe uma queda d’água, vejo crianças, a personificação da inocência perdida. Não consigo me conter e caio de joelhos na grama verde, chorando convulsivamente. Anjos sem asas vem me consolar. Seus sorrisos suprimem as palavras e entendo que fui perdoada. Em primeiro lugar por mim mesma pois venci minhas próprias distorções. Me levanto, ainda amparada. Respiro o ar fresco desse lugar magnífico que supera qualquer idealização de céu. Meus olhos são pequenos para abarcar tanta harmonia. Encho meu peito de ar puro, de paz diluída, de amor expirado. E, finalmente, começo a andar para o lado certo, seguindo o rumo do sol, com o coração cheio de esperanças de que, como eu, outros sintam o alívio de recomeçarem a viver sem o peso de suas próprias ambições.

Ao amigo Mike, os agradecimentos por incitar a idéia dessa crônica...

domingo, 3 de agosto de 2008

Isadora Sorri

É uma casa sem graça, mas é nossa, e Isadora sorri. A paisagem é esplêndida para os otimistas, e profundamente triste para os melancólicos. Faz pouco tempo que nos mudamos, e na viagem perdemos muitas coisas, coisas que nunca mais vamos encontrar. Iremos remexer em todas as caixas, mas jamais encontraremos todos os afetos que matamos suavemente. Mas o mundo é feito de novidades, e Isadora sorri.
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Depois de muito trabalho, nossa casa nova já está apta a abrigar duas pessoas, e até a receber visitas. Os móveis foram pacientemente divididos entre as paredes, e só permaneceram quietos depois de muita reflexão. Há uma série de estratégias na divisão dos móveis pela casa. Quem se encarregou dessa penosa tarefa foi Isadora e o outro.
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O outro é aquela pessoa que não vemos, mas que sempre está presente, dando palpites inconscientes, e nos censurando quando fazemos alguma coisa não esperada. Quando Isadora escolhe o lugar do sofá, além de obedecer aos seus próprios critérios, está pensando no outro e no que ele irá achar dessa escolha. Conformado, cabe a mim apenas o esforço físico, e deixo que a dupla decida em paz.
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No nosso primeiro domingo, esperamos uma visita agradável, a quem apresentaremos todos os cômodos, e diremos que ainda estamos ajeitando as coisas. Ouviremos que está tudo muito bonito, e nos darão parabéns. Em seguida, sentaremos pela primeira vez na nossa sala de visitas. Vamos conversar e serviremos um lanche, um café, uma cerveja, alguma coisa para receber bem a primeira visita da nossa casa tão sem graça.
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Eles ainda não chegaram, e Isadora, a rainha da nossa casa, percorre a sala e os quartos com visível nervosismo. Quer ter a certeza de que tudo está no seu devido lugar. Ela pára diante de um quadro na parede, que parece estar torto, e se inclina para ajeitá-lo. E Isadora sorri quando escuta a campainha tocar. Ajeita o cabelo moreno, tão lindo, e então caminha até a porta.
Henrique Fendrich

domingo, 27 de julho de 2008

Sobre palavras e dizeres


Marina Costa
Como é bom o ato de falar. Falar de coisas sérias, mentiras inocentes, verdades fingidas, falar besteira, bobagens engraçadas, falar sem saber, falar dos outros, de gente famosa, de gente nem tão interessante assim, falar da vida, falar do mundo. Note bem, caro falador, que eu disse falar e não reclamar, xingar, gritar, lamuriar ou sussurrar. Falar com todas as suas cinco letras bem ditas. 

Falar é o que fazemos quando estamos num barzinho, com amigos, ás vezes sobre a influência doce e desenvolta do vinho. Nesses momentos falamos sem esperar a resposta que seguramente buscamos, falamos sem pensar, só por dizer alguma coisa, sentir as palavras saindo da boca como seda do gargalo de uma garrafa de vidro. Falamos inebriados pelo som de nossa voz humana, que se faz entendível, com o qual alguns concordam, outros sorriem, outros ainda retrucam mas sempre visando o auge do diálogo supremo, o entendimento dos seres. 

Já dizia Exupéry, e essa é a frase que mais repito depois do "bom dia" diário, que a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Obviamente que sim. Talvez até mais que o silêncio, que é interpretado conforme o humor, o tempo ou o saldo bancário. 

Mas o que seria de nós, pobres seres mortais, sem a inspiração flutuante dos Deuses e Musas, se não pudéssemos fincar nossa existência com as palavras faladas? Acabaríamos amuados e tristes, sem ter com quem dividir as teorias sobre o azul esverdeado do céu, perdidos em nós mesmos, solitários. O mundo seria literalmente um grande exército de homens sozinhos. 

Acredito que o ato de dizer é o primeiro grande passo rumo a perfeição completa. Primeiro pensamos, mas isso já é tão inerente (mesmo que não tão transparente) que classifico como o sopro inicial. Depois dizemos, agimos, construímos, contemplamos e por fim merecidamente, descansamos. Foi assim com aquele que tudo criou – acredita-se - e é natural que se repita em suas criaturas, numa escala obviamente proporcional. 

Por isso, mesmo que as palavras, mesmo que o dizer gere lágrimas, corações partidos, excesso de apetite ou greve de fome, mesmo quando o ato de dizer algo se encaminhar para gerar destruição de outrem – diga-se de passagem, como simples figura de linguagem, não me interpretem como entusiasta da violência física – mesmo com todos esses contras, caro amigo, diga. Liberte a torrente de vocábulos, fale para o nada, para o eco, para o abismo de ouvidos surdos de quem finge não te ouvir, mas não prenda em si, tal qual uma barragem, a vontade do dizer. 

Se, ao contrário, as palavras articuladas visarem um sorriso, um agradecimento sincero feito com olhos rasos d'água, um novo sentido para a vida do outro, aí que não devemos mesmo segurar a boca e bradar ao mundo o que pensamos, o que sentimos, o que gostaríamos que os outros soubessem mas que por um pudor sem sentido nos escusamos de dizer. 

Muitas pessoas são criticadas pelos ditos "donos da palavra" por falarem demais, falarem de coisas desnecessárias, falarem futilidades. Mas eu, enquanto íntima das letras, mesmo que mais no papel do que em qualquer outra forma de comunicação, digo: 

Deixem que falem. Deixem que a boca seja algo mais do que máquina trituradora. Deixem que se digam bobagens maliciosas, bobagens infantis, bobagens sonhadoras. Vamos deixar o mundo falar porque isso é sinônimo de que há o que dizer nos corações tomados como ocos. Não somos máquinas programadas. Temos nossas opiniões, por mais que escarneçam delas ou que elas mereçam esse escárnio. Temos nossos pensamentos e nossa vontade de dizer. Então diga! Que o mundo se transforme em um grande dicionário, recheado de verbetes sem limitações! Adotemos o lema "A liberdade de expressão junto ao pão!". 

Eu, enquanto tímido ser silencioso, me comprometo a abrir mais meus lábios para dizer tudo do que me esquivo por mania de quietude. E faço um brinde ao falatório, esperando que depois de tanto conversa nada fiada, aprendamos a agir com o mesmo entusiasmo também.
* Créditos da imagem: belogue.wordpress.com/ 2008/01/

domingo, 20 de julho de 2008

Um Caso Às Minhas Leitoras

Admito que acontecem coisas várias na minha vida. Algumas poucas são realmente extraordinárias e mereceriam, de fato, ser transformadas em um texto – obrigação da qual eu não me furtei, naturalmente. Mas a grande parte delas são tão banais que semelhante destino só se tornaria válido na pena de um grande cronista. Como não é esse o caso, temos como resultado uma escrita truncada que não consegue traduzir a beleza do acontecimento, e que, para quem lê, parece mero devaneio intelectual. Vem daí a reclamação das minhas leitoras, para quem a minha vida só é de interesse na medida em que encontra ressonância nas suas próprias.
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Mas ora bolas, eu não resisto e contarei outra vez um caso desprovido de qualquer interesse universal. É, acima de tudo, um caso que só diz respeito a mim, como tantos outros de que já me ocupei. Mas ei! Nada de resmungos. A senhora leitora certamente poderá encontrar, sem grande dificuldade, muitos cronistas ágeis que acompanham o noticiário com um bloco de notas em mãos, prontos para captar qualquer manifestação do comportamento humano que possa servir de mote às suas crônicas. Observadores argutos dos movimentos sociais, eles mergulham com espantosa avidez nos fatos do noticiário, e em seus textos a leitora poderá encontrar a universalidade, a atualidade, a opinião, e uma porção de valores que não costumo preservar nas minhas crônicas.
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Ainda assim, há uma parcela de leitoras que se atém ao suposto lirismo e tom poético que busco empregar no que escrevo e, para elas, os acontecimentos de que me ocupo, mesmo que particulares, mesmo que banais, e mesmo que mal abordados, são capazes de encontrar uma existência menos falaz. Duram, de fato, o tempo suficiente para serem esquecidos – coisa diferente eu não poderia esperar de uma crônica. É para essas leitoras que enuncio o caso de hoje. Aproveito para esclarecer que se pareço privilegiar determinados públicos, é pela simples razão de que não espero ser lido por homens. De fato, creio que jamais dirigi a palavra a eles em meus textos. À parede, várias vezes. Aos homens, jamais.
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Dito tudo isso, é bom que não nos alonguemos demais, pois embora as pacientes leitoras costumem ter mais tempo para o vício da leitura, não quero que deixem de cuidar de seus afazeres mais imediatos por conta de tão pouca coisa, como é o caso que prometi contar-lhes hoje. E também não quero que me larguem aqui, escrevendo à toa. O acontecimento de hoje é outro caso romanesco, destes que sei serem os favoritos das leitoras.
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Acreditem vocês que eu estava em um supermercado, fazendo as necessárias compras da semana, e me deparei com uma moça, entre tantas que por lá havia. E que, aos passarmos um pelo outro, trocamos olhares de análise, para ver se éramos merecedores de maior contemplação. Às leitoras mais exaltadas, esclareço que não estou comprometido no momento, e penso não ser esse também o caso da distinta dama. E nos contemplamos rapidamente, para só então voltarmos às compras e esquecermos um do outro.
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Não sei se vocês acreditam em coincidências, mas eu, não lembrando da moça, ainda me deparei com ela quatro vezes, em meio a multidão geral. E verdade seja dita, a fim de preservar a discrição daquela mulher: não houve mais nenhum olhar da sua parte. Da minha houve, naturalmente. Já pensando que ela devia ter farejado o cronista que havia em mim e tratado de escapar, deixo-a de lado e pago minhas mercadorias, entro no meu carro e apresso-me para sair - homem que sou, vivo apressado. Mas eis que... atenção, minha senhora, pois é nesse momento que entra o relato poético que tanto aprecia. Deixai o que mais estiveres fazendo e venha cá para o aconchego dessa crônica. Vou até iniciar um novo parágrafo, pois creio que o fato merece, além de elevar o grau de suspense.
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Eis que, de dentro do carro, eu a vejo pela quinta vez. Está lá fora também, acompanhada de pessoas que devem ser da sua família. Mas está sozinha, e também me vê. E dessa vez, quando percebe que estou saindo e se dá conta que nunca mais voltaremos a nos ver, lança um novo olhar para mim. Imediatamente, faço o mesmo. E por alguns segundos... um, dois, três, quatro, cinco. Aí está. Por alguns segundos, ficamos olhando um para o outro, sem desviar o olhar em nenhum momento. E era um olhar cheio de ternura, cheio de dor, cheio de vergonha por ser o último e por nada ter acontecido. Desperdiçamos, pois, uma nova chance de sermos plenos, jogamos fora uma provável felicidade. Era preciso ir pra casa, era preciso matar o sentimento passageiro de esperança, sufocar o desejo de amor que não se realizou porque não houve tempo. Porque não houve tempo... E assim foi feito.
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Aí está o caso de hoje. Sei que muitas vezes a leitora prefere o final feliz, mas que posso fazer? Mentir é que não posso, isso é lá com os poetas. Também não creio que o caso tenha despertado muita emoção, mas eu havia feito uma série de ressalvas já no começo da crônica, então não há do que reclamar. Elogios não me trarão de volta aquela moça, não nos darão mais tempo e não me farão mais feliz. Críticas não apagarão aquele último olhar e não me farão dar menos importância ao acontecido. É um caso tão particular e tão especial que seria melhor eu não ter escrito nada. Mas ora bolas, eu não resisto.
Henrique Fendrich

domingo, 13 de julho de 2008

Nas alturas


Da série: "O Namorado da minha amiga".


Marina Costa


Toda vida ela se sentiu meio deixada de “lado”. A história do “Patinho Feio” sempre lhe fazia chorar. Nunca acreditou no potencial que todos viam mas que o espelho insistia em esconder. A frescura da maçã ainda estava na sua face, mas insistia em sentir-se velha demais, ultrapassada demais, solitária demais. E tentava correr contra o que não pode parar, buscando algo que nem ela mesma sabia se queria encontrar, mas agindo como todo mundo achava que a vida devia ser. Às vezes penso que o mal do mundo são os palpites que damos na vida dos outros. Mas vai botar isso na cabeça da sociedade... Ela era mais uma, entre tantos os que acreditam nesse fato, que pensava ser a vida resumida em três substantivos (os quais ninguém nem percebe como são abstratos): realização, estabilidade e dinheiro. Não necessariamente nessa mesma sucessão dolorida. Por mais que tudo desse certo, ela sempre se angustiava. Os outros diziam que ela era um sucesso mas a mulher se achava pouco e não acreditava. Assim a vida escorria entre risos e lágrimas, e por vezes quase acabava em alguns copos de cerveja quente.

Tinha o costume de pedir conselhos e ouvia atentamente aquele esoterismo de boteco. Sabia aonde devia chegar mas como queria correr mais do que as próprias pernas longas, tropeçava por vezes e ficava com mais alguns arranhões, que não contribuíam para melhorar o que quer que fosse. Além de tudo, tinha a mania, tão em voga nesses dias, de criar ilusões para si, vivendo a encontrar amores eternos em cada homem, por mais subalterno que fosse o pobre. Não era sua culpa. Deles talvez, os homens nem sempre são tão inocentes quanto querem parecer. Então, quando mais uma história terminava, o vazio aparecia de novo e só restava a responsabilidade que ninguém tinha mas que à ela nunca faltava. Afogava-se em obrigações e deixava os sonhos ficarem mais distantes. A vida de rotina apertava cada vez mais o pescoço da grande menina loura. Um dia, ela sentou-se em frente à janela, sem mais poder com os próprios desejos frustrados. Foi num desses dias tão comuns para muita gente, onde já não se espera nada, não se pede nada e finge-se não ser nada enquanto inerte, vê-se o domingo chegar. De tantos nadas, abriu-se uma pequena fenda em seus pensamentos ocos e um beija-flor saiu a voar, terminando por bicar a janela. Ela deixou-se ficar perdida na contemplação de tão pequena criatura. “Será que sabe o que faz?” pensou, ainda dormindo para a vida. E o animalzinho, que a olhava pensando “Como todos eles, mais uma que espera pra viver”, sentiu pena da moça bonita. Bicou no vidro até que ela prestasse atenção no sol que adormecia. E naquele momento de crepúsculo, naquele instante mágico onde portas são abertas, ela saiu de seu sono cinzento, sabe-se lá por que pensamento; o resto de sol lhe abrilhantou os lábios e a menina grande retomou as rédeas de sua vida: “Dane-se as esperas! As dos outros e as minhas!”.

Em frente ao espelho, que não escondia mais o sorriso verdadeiro, ela se vestiu. Abriu a porta da rua como se nunca mais fosse voltar. E quando menos esperava, encontrou em uma dessas esquinas a sorte que por tanto tempo ficou escondida. Na imagem de um uniforme armado, cheio de significativa proteção, ela encontrou o amor que buscava mas que não conseguiu distinguir até que deixou de sentir pena de si mesma. A história ainda não terminou aqui, por isso não posso dar o final das fábulas, com o qual essa moça, também uma contadora de histórias, tanto sonha. Como deu pra perceber, o cisne dentro dela já começou a se mostrar. E sei também que o casal protagonista desse caso vive a andar muito feliz por aí, espalhando lírios por onde passa. Ela, que antes sentia-se como que largada na vida, hoje senta-se em frente à janela, para contemplar as surpresas que vêem do alto. Sente-se, literalmente, nas alturas, por que agora entende o sentido dessa vida tão maluca. Ele, amante à moda antiga, passa todas as noites em frente ao prédio de sua “Pequena” e no seu beija-flor metálico, entre fachos de luz e giros de hélice, atira-lhe os beijos frescos e cheios pelos quais ela tanto procurou. Eu, que tanto conselho dei, fico feliz cada vez que a encontro. Porque agora, ela é pra mim a prova viva de que na vida as coisas só acontecem quando nada se espera e mesmo assim não perdemos o pôr-do-sol que alimenta nossa vontade de voar.


domingo, 6 de julho de 2008

Flash-back


Henrique Fendrich
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O poeta encontra um caderno velho, meio rasgado, com a capa solta. E fica surpreso, porque pensou que ele já estivesse no lixo há muito tempo. Com a excitação de um cientista maluco, resolve abrir e ler. Só que quando abre o caderno, seu rosto é imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão. O poeta é arremessado ao chão, e só com muito custo consegue se aproximar do caderno novamente. Não sabe mais quanto tempo faz que escreveu. A primeira poesia, inevitavelmente, é uma porcaria. Cheia de versos obscuros que ele não lembra mais o significado. E quando consegue lembrar, não gosta. É um texto patético e nada mais. O poeta se consola com o pensamento de que evoluiu bastante desde que escreveu tamanho lixo. E agradece a Deus por aquele texto não cair na mão do povo e da imprensa, pois poderia acabar com a sua carreira.
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Com olhar concentrado, o poeta vai percorrendo todas as páginas. Não há dúvidas que é a sua letra, mas ele não quer acreditar que tenha sido capaz de parir aquelas poesias. Percebe, desesperado, que tudo aquilo que escreveu já morreu. Exaltou a casa onde morava, e ela já foi demolida. Falava de sua cidade, e nunca mais teve tempo de voltar lá. Nunca mais soube nada dos seus melhores amigos. As suas poesias estavam repletas de referências a pessoas que sumiram para toda a vida. Que estranho que era, porque ali no papel, materializado numa poesia, parecia que tudo era eterno. E quando escreveu, realmente achava que era. Como era ingênuo! A leitura dava a ilusão de que aqueles sentimentos poderiam ser conseguidos de novo. Mas nunca mais, nunca mais!
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E o poeta de antigamente pensava tão diferente do poeta de hoje! Era muito mais livre no que escrevia. E como era infantil! E como era idiota! Como se deixava levar por emoções que hoje já não teriam nenhum impacto! O poeta de hoje sente vergonha das suas antigas tolices. E ao mesmo tempo, deseja ardentemente voltar a ser tolo. Nunca mais teve chance de ser tolo. E tem ainda as musas... Com um aperto no coração, se lembra das musas que se foram. O poeta está cheio de pensamentos tristes, e percebe que as suas musas provavelmente não são mais puras, e muito menos perfeitas, como ele as descrevia nas suas poesias. Elas já cresceram, já fizeram muitas besteiras, já encheram a cara, já foram grosseiras e indelicadas, já treparam, já fecharam os olhos de prazer, já deram a luz, já receberam uma porção de cantadas, e talvez já tenham pensado em ceder. E nunca mais se lembraram do imbecil que jurou amor eterno numa poesia.
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O poeta não pode mais suportar esses pensamentos. Enlouquecido, começa a rasgar as folhas do caderno e a gritar compulsivamente. Com um isqueiro, resolve fazer um pequeno ritual e colocar fogo em toda a casa. E então o poeta morre, carbonizado pelas chamas do passado.