domingo, 27 de janeiro de 2008

Calor do Cão


Tenho a dizer que quem não conhece Curitiba tampouco sabe o que é emoção. Isso pode parecer meio pedante, e também meio contraditório. Afinal, é a capital mais fria do país. De fato, o frio aqui é exagerado. Mas o próprio calor é exagerado. Na verdade, até o exagero é exagerado em Curitiba. Já ouvi contarem que Deus começou a criação do mundo por aqui. Em um dos dias, criou o calor. Viu que era bom. No outro dia criou o frio. E no sétimo descansou, porque acabou pegando uma gripe.

Pois a emoção de que falo é a de não saber como o tempo irá se comportar em seguida. O calor rapidamente vira frio e o sol rapidamente vira chuva. Naturalmente, essa imprevisibilidade gera alguns problemas. É comum sairmos de casa com roupas leves, sob um sol ardido e sem nuvens. E no meio do caminho esfria, aparecem umas nuvens negras, e logo começa a garoar. Isso não quer dizer que o sol tenha saído. Continua lá, brigando com a chuva. Depois de algum tempo, ele vai embora, e começa um temporal arrasador. Como era de se esperar, não temos guarda-chuva. Xingamos então metade do mundo e amaldiçoamos em uníssono o tempo maluco de Curitiba. Ficamos ensopados e com medo de pegar uma gripe. Lembramos de que as nossas roupas estão estendidas no varal! Maldita previsão do tempo que nunca acerta!

E como em qualquer lugar, aqui em Curitiba as pessoas também gostam de conversar sobre o tempo. Naturalmente, sempre falando mal. Ou está muito quente, ou está muito frio. Ou então é São Pedro que está maluco, porque nunca se decide. Se o tempo estiver fresco e agradável, iremos dizer que é bom não se iludir, pois já já deve mudar, há uma nuvem ameaçadora surgindo em algum lugar.

A família de João Vitor veio pra Curitiba atrás do frio. Eles nasceram em Guamaré, no Rio Grande do Norte, onde deve fazer um calor do cão. Tentaram a sorte em São Paulo, e depois de alguma indicação, venderam tudo o que tinham e se mudaram para Curitiba. Eles gostam do frio. Há muitas pessoas que gostam do verão. Pois eles gostam é do frio. Quanto mais, melhor.Mas em Curitiba, como eu disse, também existe calor. E os últimos dias têm sido mais quentes que frios. E quando está calor demais, o menino João Vítor, de seis anos, avisa a mãe e entra numa banheira com água fria. Lá ele alivia o calor insuportável. Ou tenta. Não é o bastante. O menino João Vitor não gosta do calor, e por isso a família quer dar um ar condicionado pra ele. Os próximos dias prometem ser difíceis.

Pois ora, o menino João Vítor tem uma doença raríssima e não consegue suar. Não produz saliva, quase não tem lágrimas, não tem mucosa e tem a pele despigmentada. Não nasceram dentes, e a alimentação tem que ser pastosa. A mãe conta que lá no Rio Grande do Norte era pior. Ele sangrava todos os dias, nasciam umas bolhas estranhas. A mãe não conseguia dormir, sempre com medo que o filho começasse a passar mal. Ele não pode ficar exposto ao calor, tem a imunidade baixa. Lá é que não dava pra família ficar.

Hoje eles moram em um pensionato em Curitiba, onde é um pouco mais frio, e onde o menino pode receber um tratamento de saúde melhor. A renda da família é de R$ 400 mais R$ 380 de auxílio saúde. Mas é preciso gastar mais de mil reais por mês com medicamentos. E como é que a família de João Vitor vai ter dinheiro pra comprar um ar condicionado? O verão está chegando, o tempo está ficando quente demais, e o menino de seis anos está sofrendo. Ele não consegue suar, ele precisa chamar a mãe e avisar que está com calor, para então entrar numa banheira de água fria. E tentar aliviar o máximo que puder.

A mãe pede doações. Eles precisam urgentemente de um ar condicionado e um pouco de tranqüilidade. Maldito tempo de Curitiba! Sim, o menino João Vitor já pode conversar com qualquer curitibano sem problemas. Como todos nós, ele também tem algo a reclamar do tempo.

Perdão Senhor, somos todos panacas.
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Henrique Fendrich

domingo, 20 de janeiro de 2008

Cotidiano



A rotina as vezes exaspera. Acordar todos os dias na mesma hora, tomar o mesmo café, ir para o mesmo trabalho. Almoço. Tarde. Tudo igual. Noite, dormir para descansar e amanhã fazer tudo de novo. Perdemos a noção da surpresa. A vida passa a ser agendada, certa como os ponteiros de um relógio de baterias eternas. Perdemos a capacidade de olhar o mundo. Ver a beleza das paisagens, mesmo que essa beleza se resuma a aquela única flor solitária no caminho até o trabalho.
Deixamos de prestar atenção nas pessoas por achar que elas sempre nos dirão as mesmas coisas. Deixamos de nos expressar como gostaríamos por acreditar que isso foge a rotina e pode alterar nosso padrão.

E por tudo isso, a vida pára de nos surpreender. As coisas incríveis, fantásticas, deixam de nos acenar e desviam sua rota de nossas portas. Procuram pessoas que apreciem o novo, o impensável, conhecer o desconhecido, entender o inexplicável.
Mas como sempre temos segundas preciosas chances, de repente um fato bobo pode nos levar de volta a estrada do crescimento. Um livro que acabamos lendo por falta do que fazer, um filme que vemos por estar com a tarde livre, uma pessoa que encontramos e acaba por nos despertar uma lembrança há muito esquecida. Nessa hora a vida dá uma guinada brusca, e com o tombo que levamos somos obrigados a parar e prestar atenção a nossa volta. Aí redescobrimos o mundo. O mundo que todos os dias nos presenteia com um amanhecer, mas que na maioria das vezes só nos ouve reclamar do sol forte. Um mundo que nos dá pessoas maravilhosas para que possamos entender o interior humano, nossas próprias vidas, mas que muitas vezes passam despercebidas porque nossa capacidade de rotular e julgar foi maior do que a magnitude daquela presença... Julgar como loucos, como otimistas extremos, como bobos. Ao fazermos isso, excluímos todas as possibilidades de conhecer pessoas inovadoras, aventureiras, geniais... Definir é limitar, como já disse um mestre meu.

É, rotina. Dos males tu és mesmo maior e pobres de nós que ainda assim te glorificamos. Felizes seremos quando conseguirmos te ver apenas na beleza do nascer e do sol, na água que corre nos rios, na noite para sempre coberta de estrelas. Felizes de nós quando conseguirmos entender que o mundo não é horário e compromissos aborrecidos, mas sim possibilidades infinitas de nos maravilharmos ante a vastidão da alma humana, tão misteriosa. Felizes de nós quando entendermos que em cada encontro e em cada situação há a mão da Vida, nos empurrando a um mundo tão grandioso como aqueles que acreditávamos nos contos de fadas. Felizes de nós quando passarmos a acreditar que nosso final pode realmente terminar com o tão almejado “viveram felizes para sempre.”

Marina Costa



domingo, 13 de janeiro de 2008

O Ipê


Ano que vem os ipês de Minas Gerais talvez não tenham flores. E isso é mais alarmante do que qualquer outra notícia sobre o aquecimento global. O tempo ficou mais seco desde o ano passado. Tão seco a ponto de ninguém mais se importar em alertar a população sobre o perigo que os ipês estão correndo.

A quantidade de água no solo diminuiu. A primavera chegou dia 23 e não se vê muitas flores nos ipês. Elas já se foram! Temos tanta pressa que acabamos passando isso para os ipês. O relógio biológico deles está adiantado um mês. E ninguém notou quando eles floriram em agosto. E floriram menos que o normal. Mas é que deve ser muito triste mesmo florir sem ninguém pra ver. E agora, quando chega a estação das flores, vemos quase todos os galhos descobertos. “Era pra ter mais cor nessa época”. As autoridades não dão muitas declarações sobre o sumiço da cor. Dizem que estão investigando. Final de semana talvez já tenham um resposta. E afinal, são só ipês mesmo.

Já caem sementes no solo, mesmo estando longe da temporada de chuvas. “Essas árvores não vão gerar descendentes nesse ano”, diz um engenheiro florestal. Nisso, os ipês estão certos. Pra que gerar descendentes num mundo que não se preocupa com os ipês? Temos mais é que jogar as sementes no chão na hora errada, não concluir o ciclo no momento certo e comprometer o futuro da espécie, para ninguém mais ver o que fazem com a gente.

Um fotógrafo viajou até a Praça da Liberdade. Cansou de fotografar a natureza morta dos homens e foi atrás dos ipês floridos. “Vou ficar na saudade”. É por isso que o ipê branco ainda resiste. É o único que está florido no tempo certo, para estranhamento de todos. Porque o ipê branco, ele pensa na humanidade. Enquanto o ipê branco florir, meu sonho de ganhar a vida escrevendo sobre árvores e pássaros em um jornal do interior permanece em pé.
Henrique Fendrich

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Comecinho


Aqui também a gente recomeça. Cheios de promessas, igual todo mundo em início de calendário. Prometemos tentar postar sempre nas datas certinhas! Exceto se nosso computador resolver não colaborar. Prometemos tentar sermos menos pessimistas. Se o mundo permitir, obviamente, porque com Bushs e Chávez circulando por aí, não está tão fácil...
Prometemos não deixar nossos ideais morrerem. Isso se o peso da idade não nos fizer responsáveis demais. E também vamos prometer sempre sorrir ao ver crianças na rua, o sol no céu e cães latindo. Caso, veja bem leitor, as dívidas, os amores mal resolvidos e nossas dúvidas existenciais não enegreçam nosso coração.
É... deixa pra lá as promessas. Então prometemos não prometer.


Feliz 2008!!!!!!!
Muito ANACRONISMO para aqueles que querem ver o mundo pela própria luneta!

Marina Costa e Henrique Fendrich