domingo, 20 de janeiro de 2008

Cotidiano



A rotina as vezes exaspera. Acordar todos os dias na mesma hora, tomar o mesmo café, ir para o mesmo trabalho. Almoço. Tarde. Tudo igual. Noite, dormir para descansar e amanhã fazer tudo de novo. Perdemos a noção da surpresa. A vida passa a ser agendada, certa como os ponteiros de um relógio de baterias eternas. Perdemos a capacidade de olhar o mundo. Ver a beleza das paisagens, mesmo que essa beleza se resuma a aquela única flor solitária no caminho até o trabalho.
Deixamos de prestar atenção nas pessoas por achar que elas sempre nos dirão as mesmas coisas. Deixamos de nos expressar como gostaríamos por acreditar que isso foge a rotina e pode alterar nosso padrão.

E por tudo isso, a vida pára de nos surpreender. As coisas incríveis, fantásticas, deixam de nos acenar e desviam sua rota de nossas portas. Procuram pessoas que apreciem o novo, o impensável, conhecer o desconhecido, entender o inexplicável.
Mas como sempre temos segundas preciosas chances, de repente um fato bobo pode nos levar de volta a estrada do crescimento. Um livro que acabamos lendo por falta do que fazer, um filme que vemos por estar com a tarde livre, uma pessoa que encontramos e acaba por nos despertar uma lembrança há muito esquecida. Nessa hora a vida dá uma guinada brusca, e com o tombo que levamos somos obrigados a parar e prestar atenção a nossa volta. Aí redescobrimos o mundo. O mundo que todos os dias nos presenteia com um amanhecer, mas que na maioria das vezes só nos ouve reclamar do sol forte. Um mundo que nos dá pessoas maravilhosas para que possamos entender o interior humano, nossas próprias vidas, mas que muitas vezes passam despercebidas porque nossa capacidade de rotular e julgar foi maior do que a magnitude daquela presença... Julgar como loucos, como otimistas extremos, como bobos. Ao fazermos isso, excluímos todas as possibilidades de conhecer pessoas inovadoras, aventureiras, geniais... Definir é limitar, como já disse um mestre meu.

É, rotina. Dos males tu és mesmo maior e pobres de nós que ainda assim te glorificamos. Felizes seremos quando conseguirmos te ver apenas na beleza do nascer e do sol, na água que corre nos rios, na noite para sempre coberta de estrelas. Felizes de nós quando conseguirmos entender que o mundo não é horário e compromissos aborrecidos, mas sim possibilidades infinitas de nos maravilharmos ante a vastidão da alma humana, tão misteriosa. Felizes de nós quando entendermos que em cada encontro e em cada situação há a mão da Vida, nos empurrando a um mundo tão grandioso como aqueles que acreditávamos nos contos de fadas. Felizes de nós quando passarmos a acreditar que nosso final pode realmente terminar com o tão almejado “viveram felizes para sempre.”

Marina Costa



Um comentário:

  1. Primeiro, curti muito essa foto, que além de bem criativa, casou super bem com o texto hehe..

    Pois olha, confesso que às vezes a rotina me agrada, e outras tantas me aborrece muito. Por exemplo, me agrada fazer o mesmo trajeto de ônibus todo dia para o trabalho (eu não tenho outra opção rs). Isso porque eu acabo, pelo menos no meu inconsciente, criando uma espécia de identidade com as coisas que eu vejo todo dia, e acabo percebendo, mesmo dentro desse mundinho limitado que se repete todo dia, coisas novas.

    Mas claro que chega um dia que isso enche o saco, e eu quero mais é fazer algo diferente.

    Acho que o problema da rotina é que atualmente não dá mais pra separar ela do stress, da correria. E aí acontece o que vc falou, a gente não percebe mais nada! A gente fica bitolado demais com as nossas próprias preocupações, as nossas coisas mesquinhas, e não vemos mais nada do que acontece ao redor, não prestamos atenção na vida que pulsa sem parar, e alheia aos nossos compromissos.

    Até que apareça uma olhar, uma palavra e um momento mágico que abra os olhos da gente. Ou, infelizmente, até que a gente perde alguma dessas coisas. Porque aí sim prestamos atenção no que a gente tinha.

    Sei que não faço muita das coisas que falo. Quero amar tudo ao meu redor, e às vezes me preocupo demais com coisas tolas.

    Texto que instiga bastante reflexões =]

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