domingo, 13 de janeiro de 2008

O Ipê


Ano que vem os ipês de Minas Gerais talvez não tenham flores. E isso é mais alarmante do que qualquer outra notícia sobre o aquecimento global. O tempo ficou mais seco desde o ano passado. Tão seco a ponto de ninguém mais se importar em alertar a população sobre o perigo que os ipês estão correndo.

A quantidade de água no solo diminuiu. A primavera chegou dia 23 e não se vê muitas flores nos ipês. Elas já se foram! Temos tanta pressa que acabamos passando isso para os ipês. O relógio biológico deles está adiantado um mês. E ninguém notou quando eles floriram em agosto. E floriram menos que o normal. Mas é que deve ser muito triste mesmo florir sem ninguém pra ver. E agora, quando chega a estação das flores, vemos quase todos os galhos descobertos. “Era pra ter mais cor nessa época”. As autoridades não dão muitas declarações sobre o sumiço da cor. Dizem que estão investigando. Final de semana talvez já tenham um resposta. E afinal, são só ipês mesmo.

Já caem sementes no solo, mesmo estando longe da temporada de chuvas. “Essas árvores não vão gerar descendentes nesse ano”, diz um engenheiro florestal. Nisso, os ipês estão certos. Pra que gerar descendentes num mundo que não se preocupa com os ipês? Temos mais é que jogar as sementes no chão na hora errada, não concluir o ciclo no momento certo e comprometer o futuro da espécie, para ninguém mais ver o que fazem com a gente.

Um fotógrafo viajou até a Praça da Liberdade. Cansou de fotografar a natureza morta dos homens e foi atrás dos ipês floridos. “Vou ficar na saudade”. É por isso que o ipê branco ainda resiste. É o único que está florido no tempo certo, para estranhamento de todos. Porque o ipê branco, ele pensa na humanidade. Enquanto o ipê branco florir, meu sonho de ganhar a vida escrevendo sobre árvores e pássaros em um jornal do interior permanece em pé.
Henrique Fendrich

Um comentário:

  1. É... se até as flores estão fora do tempo, o que será da gente? Eu bem que tinha reparada que o ipê da casa do meu avô tinha resolvido florir mais cedo... mas na minha pressa deixei isso passar! Acho que vamos acabar todos dentro do buraco negro do tempo, sem ter o que fazer, olhando os olhos cansados uns dos outros. Ou então paramos agora para tentarmos fazer brotar as sementes que deixamos cair! Não tem como não fazer filosofia de buteco!!! Abraços Henrique!

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