domingo, 10 de fevereiro de 2008

Esbofetear um Jornalista

Henrique Fendrich
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Sou quase jornalista. Mas concedo ao leitor o direito de esbofetear um jornalista de vez em quando. Pois vejamos se não há motivos suficientes: caiu um avião em São Paulo, no meio de um bairro residencial. Morreram oito pessoas. Bem, foram pelo menos oito os corpos que encontraram. Houve ainda dois feridos. Eram pessoas que estavam em casa naquela hora. O avião as atingiu. Nele estavam apenas o piloto e o co-piloto. Ora, aí está uma notícia que todos os veículos noticiosos deveriam noticiar. Mas convenhamos, há maneiras decentes de se fazer isso.

Um jornalista entrou ao vivo, falando diretamente do local em que caiu o avião. Começou a falar usando aquele tom dramático, angustiante, como se o avião estivesse caindo naquela hora. Mas tudo bem, desculpemos esse tom de voz. O problema é o que veio depois. Eis que o jornalista diz, em meio ao seu texto: "A nossa rede foi a primeira a chegar ao local". Meu Deus! De que me interessa saber quem foi a primeira emissora a chegar lá? O que o jornalista quer que eu faça depois de ouvir isso? Reconhecer a competência da sua equipe, que conseguiu passar a perna em todas as outras e dar o furo de reportagem? Começar a assistir mais os programas jornalísticos da sua emissora? Esquecer que caiu um avião e pensar na sua grade de programação?

Provavelmente, o senhor Jornalista acha que o fato de um avião ter caído, e oito pessoas terem morrido, foi uma boa ocasião para mostrar o seu talento profissional, e também pa... Mas ei! Aqui estou eu me distraindo e quase perco outra fala reveladora! "Daqui a pouco, mais informações e imagens EXCLUSIVAS e IMPRESSIONANTES". Vejam como é atencioso, o senhor Jornalista. Está preocupado em passar ao telespectador as melhores imagens. Ah, francamente! Estão querendo audiência numa horas dessas! Um avião caiu, pessoas morreram, e querem que eu assista a cobertura na emissora deles, e não nas outras, porque nessa as imagens são EXCLUSIVAS! EXCLUSIVAS!

A senhora que me lê e está acostumada com meus textos brandos, suaves e cheios de ternura, que me perdôe. Hoje, eu quero esbofetear um jornalista.

Um comentário:

  1. Ah meu caro amigo... o que não quer esse mosntro chamado ibope? E quantas e quantas vezes também já não quisemos esbofetear um jornalista quando fala da fome na África e dos cãezinhos de madame, com suas coleiras banhadas a ouro... Capitalismo selvagem, ironia da civilização moderna, o fim do mundo? Talvez de tudo um pouco e nós aqui, atônitos, vendo a vida passar sarcasticamente...

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