domingo, 24 de fevereiro de 2008

Útero


Henrique Fendrich

Havia um bebê. Os bebês costumam haver bastante. Na China eles já houveram demais, e hoje o Governo impede que eles hajam naturalmente. Havia um bebê e era do sexo feminino. O que já é um alívio. As meninas também costumam haver bastante. Felizmente, elas hão mais do que os meninos. Os meninos vão crescer e vão se tornar homens. As meninas também vão crescer, só que se tornarão mulheres. Razão suficiente para que elas hajam em maior número. Se não fosse por esse excedente na população feminina, talvez o mundo já nem pudesse ser assim chamado.

A senhora me perdoe pelo que vou falar agora, pode ser que não sirva para a sua família, pode ser que eu esteja falando besteira. Mas eu acho é que as meninas estão cada vez menos inocentes. Não falo da sua filha, que aliás nem conheço. E também não quero dizer que é culpa delas. Não quero dizer nada, aliás. Mas veja o caso desse bebê, desse bebê que havia. A mãe dele tem 14 anos. E mais do que isso, a mãe dele tem uma bala na cabeça.
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Foi por isso que o bebê resolveu nascer. Nada mais natural. Percebendo que a mãe estava em risco de morte, decidiu por conta própria nascer, ainda que os médicos tentassem impedir, falando que seria pior pra ele. Só que os médicos esquecem que era a mãe dele. Se ele não tivesse nascido, talvez nunca visse a mãe. E sabe lá o que é isso, senhor doutor? Ficar sem ver a mãe? Foi por isso que o bebê do sexo feminino nasceu, e nasceu com seis meses de gestação.
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Nasceu numa sexta-feira, um belo dia pra nascer, se o mundo fosse bom. Mal nasceu e os médicos já o levaram. Seu estado é grave, e não sabem quando vai ter alta. Por volta das seis da manhã de segunda-feira, começou a tocar o sino da igreja. As pessoas ligaram o rádio, e um homem que fingia tristeza anunciou:
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“Comunicamos com enorme pesar o falecimento de uma menina de 14 anos, com a vida inteira pela frente, que levou um tiro na cabeça na última terça, quando estava grávida de uma menina de seis meses. Uns dizem que o tiro foi acidental, outros que foi um rapaz que atirou. A polícia acredita que esse rapaz seja de uma família envolvida com o tráfico de drogas. A disputa pela região é apontada como uma das causas. Outros dizem que a razão foi um amor não-correspondido. A filha nasceu, nasceu e ficou no hospital, que é o melhor que ela pode fazer. Não estará tão segura quanto no útero materno, mas estará muito mais segura do que aqui fora.”

Um comentário:

  1. Ficção real ou realidade ficcional? Do lado de fora, temos essa vida bestial... no útero quente, uma proteção que nem sempre existe, mas ainda assim mais aconchegante, mais humana...
    Talvez ao sairmos de lá, com o passar do tempo, fiquemos assim, tal qual somos, ligando pouco para a vida e para tudo que essas 4 letras querem dizer. Às vezes, basta um recado como esse para acordar... outras, só mesmo uma bala na cabeça. Aproveitemos o recado do Henrique.

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