domingo, 23 de março de 2008

A Crônica do Dia

Henr (ic) Fendrich
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A culpa é toda do Mário de Andrade. Nunca cheguei a conhecê-lo, mas a culpa é dele mesmo. Quem mandou dizer ao Fernando Sabino que era importante escrever todo dia, ao menos um pouco? Como se não bastasse ele ter dito tamanho disparate, ainda por cima o Sr. Sabino tratou de publicar em livro tal conselho. Ora! Estamos bem arranjados! Eu não tenho nada pra escrever hoje, mas o Sr. Andrade disse que mesmo assim é importante escrever. Portanto, se a crônica de hoje sair ainda pior do que de costume, cara leitora, repita comigo que a culpa é do Mário de Andrade.

Como não tenho coisa alguma pra falar, vou apenas escrevendo, pra ver no que vai dar. Pode até não sair grande coisa, mas ao menos cumpro a minha obrigação de escritor. O Moacyr Scliar falou certa vez que não acreditava em inspiração pré-concebida. Ela surgiria enquanto você escreve, e não antes. Bastaria sentar e escrever que as idéias apareceriam. Portanto, deixemos uma parcela de culpa também para o Scliar, e sigamos escrevendo, sem ter nada pra falar.

Por falar em Scliar, andei lendo uma análise que uma doutora fez sobre seus textos. A dita senhora resolveu destrinchar três de seus contos, verificando o que há de jornalismo e o que há de literatura neles. E como fazia isso? Contando os parágrafos. Três parágrafos eram jornalismo e outros três eram literatura. Logo, 50% do texto era jornalismo e, coincidentemente, a porcentagem era igual para a literatura. E ela chegou a outras conclusões, inclusive encontrando um texto que era apenas 14% jornalístico, razão pela qual o Sindicato deveria cassar a carteirinha de Scliar.

Se alguma doutora estivesse sem ter o que fazer, eu pediria pra que fizesse o mesmo com as minhas crônicas. Quero saber do que elas são constituídas, pois quando escrevo não tenho tempo pra me dar conta disso. Tenho uma ligeira noção dos resultados que encontraria. 45% das minhas crônicas é ironia, 45% é melancolia, e os outros 10% não responderam, ou não souberam opinar.

Na verdade, eu nunca li Mário de Andrade. Então eu nem tinha obrigação de seguir o que ele diz. Eu poderia muito bem ignorar, não é? Estaria poupando o leitor, que naturalmente já percebeu que estou apenas enchendo lingüiça. E além do quê, nunca fui muito com a cara dele. Aquele negócio de modernistas não é comigo. Na verdade eu nem sei se ele era parente do Oswald. Do Drummond provavelmente não era. Modernista com aqueles óculos? Pois sim.

Lembrei que o Rubem Braga não gostava também do Mário de Andrade, embora dissessem que ele era uma de suas inspirações. Aliás, saiu uma biografia do Rubem Braga, vocês viram? Parece que tem umas histórias re-ve-la-do-ras. Ele engravidou a mulher do Samuel Weiner! Mas deixemos de fofoca, porque embora eu não tenha nada a dizer, quero manter um certo nível.

Creio que sete parágrafos, contando com esse, já estão mais do que bom por hoje. O leitor deve estar muito satisfeito que acabou, e confesso que minha alegria é a mesma. 33,3% dessa crônica é solidão, 33,3% é sono e o restante é whisky. E dos bons. Um brinde ao Mário de Andrade!

Um comentário:

  1. Se só nós dois estamos vendo esse blog, eu não sei!!! Mas que as próprias palavras devem ficar embasbacadas com o que escrevemos, isso com certeza!!! Pura encheção de linguiça e você não quis nos enganar! Mas deliciosa perda de tempo! A mesclagem dos autores e suas opiniões, a lógica ilógica da crítica e a crônica feita de solidão e whisky!!!! Excelente! Depois desses seus ironismos nem sei se fica bem postar minhas rebeldias, mas vá lá...
    Abraços!

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