domingo, 9 de março de 2008

Mona Lisa

Henrique Fendrich
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É uma casa no Morumbi, casa de gente que ganha bem. Se não descrevo direito, é porque isso não vem muito ao caso. Apenas reparei que na parede havia um retrato de uma mulher que sorria. Por que você estava sorrindo desse jeito, pergunto. Não sabe porquê. Não sabe muita coisa. Pra ela bastava estar ali. Mas que coisa, parece que a mulher do retrato está sempre me olhando. Como chama isso? Isso o quê, meu amor? Esse negócio dos olhos estarem olhando pra você de qualquer lugar. Ah, eu nem sabia que isso tinha um nome hahaha. Da Vinci que inventou essa parada. Da Vinci é aquele do Código? Ah, vai se danar. Calma meu bem, vem aqui, vem.E eu vou.

Todo mundo gosta de escrever sobre a culpa. Herança do Freud isso. Não, do Dostoievski. Talvez de Macbeth, vai saber. Eu não quero escrever sobre a culpa, mas é nisso que penso ali. Talvez venha do Kafka. Não, Kafka veio depois. Amor, no que você tá pensando? Na culpa. Como? Em nada. Hmm, você é tão inteligente, tá criando alguma poesia? Eu não sei fazer poesia. Como não? Nunca fiz e nunca gostei. E pra mim, você faria uma poesia pra mim? Não. Ai, seu grosso, eu faço tudo por você e olha o que eu ganho em troca. Eu não faria poesia pra ninguém, que coisa, não sei fazer, como é que eu faria? Mas você escreve... Escrevo, mas não poesia! Ah tá...

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Culpa.

“Está isento de culpa aquele que sabe, mas não pode impedir.” (Digesta).

“Nenhum culpado se livra do castigo.” (Sêneca)

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No começo eu não consigo relaxar. Mas só no começo. Ela sabe que não vou resistir. Culpa. Macbeth. Crime e Castigo. Freud. Freud Flinstone haha. Penso em tudo, menos no que devia. Mas só no começo. Ela chama. Vem, meu safado. Aí qual é o caboclo que resiste né? Depois eu penso na culpa. Vai ter tempo pra isso. Esqueço de tudo e entro no jogo dela. Como é que ele deixa você solta assim? Ele deixa pra você hehe! Essa mulher é doida e quer me deixar também. Me xinga. Quê? Me xinga. Vagabunda. Isso, isso, fala mais. Cadela. Sou, sou sim, fala mais, não se esqueça do vadia. Uso todo o repertório, só pra ela ficar mais doida.

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Culpa.

“Não há culpados. O que há são desgraçados” (Shakespeare).

“A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado.” (Sêneca)

O olhar tudo vê, não importa o ângulo.

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Depois que tudo termina, vem um sono do caramba. O primeiro pensamento depois do êxtase é de remorso. Ela sorri satisfeita, conseguiu o que queria. Finalmente né amor, foi maravilhoso. Aham, foi. Gosto de você porque é safado que nem eu. Sou nada! Ah, vai dizer que não, depois de tudo que fez e que falou? Você é e bastante hahaha. Eu não tava a fim de conversar, mas ela ficava puxando assunto, que saco. Te amo. Ama, sei... Você sabe que é verdade.

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Culpa.

"Quando a culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.” (Arenal)

“A culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser” (Pára-choque de caminhão)

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O olhar continua me vendo, mesmo se eu estiver do lado oposto.Como será que se chama isso? Li alguma vez. Como vou escrever sobre isso depois? Eu penso em escrever o tempo todo, até em cima dela, até quando tô com sono, até quando ela fica me enchendo e quando estou com remorso.

Toca o celular. Oi meu amoooooor. Saudade. Sim, sim. Vou lá. 8 horas então? Ah, combinado então. Sabe que eu te amo né? Beijoooooo. Porra, vai ser cínica assim lá na puta que pariu. Isso me faz sentir ainda pior. Culpa. Ela acende um cigarro. Quer? Não fumo. E por mim, você fumaria? Não sei. Fuma vai, isso vai fazer a gente relaxar, aí depois a gente dorme juntinho, ainda tenho um tempo. Tá. Fico com o olhar perdido. Tá pensando em quê? Por que acha que sempre tenho que estar pensando em alguma coisa, será que não posso ficar sem pensar em nada? Mas é que você fica com um olhar diferente... Tá pensando em outra safada? Ah, pelamor. Não fica brabo, amor, é que você sabe que eu tenho cíúme, sabe que eu te amo. E você não sabe nada sobre a culpa.

Quando me levanto e vou embora, o olhar continua na minha direção. Aquele sorriso do retrato provavelmente quer me dizer algo. Consigo ver um certo deboche. Está rindo da minha fraqueza, provavelmente. Mesmo da porta, ainda parece que está olhando pra mim. Parece que quer me apontar no meio da multidão. Você! Culpado! Culpado! Tenho vontade de correr.

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“O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo.” (Balzac)

“Quem se arrepende de ter errado é quase inocente.” (Sêneca)

Perdão.


Um comentário:

  1. Essa crônica me fez lembrar as primeiras que eu lia, desse autor. Me fez lembrar o quão boquiaberta eu ficava e como eu pensava: queria poder escrever assim...
    Se a personagem é atormentada pela culpa, culpa essa imposta pelo jeito que vivemos hoje, graças ao Henrique podemos fazer reflexões. Mesmo sem poder escapar da incógnita onisciente que é o sorrir da Mona Lisa. Não tenho muito o que dizer, para não me diminuir. Sai a nostalgia, entra a crítica à hipocrisia e meus aplausos que são muitos.

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