domingo, 30 de março de 2008

Tempo


Marina Costa

Há quem diga, mesmo sem saber o porquê, que o tempo não pára. Outros, inocentes, já acreditam que não passa. Tudo questão de ponto de vista. Quando eu era criança acreditava que o tempo era infinito e tinha só duas divisões: uma clara – a parte boa, onde eu podia brincar e correr até à exaustão – e uma escura – a parte chata, onde eu devia tomar banho, fazer mecanicamente deveres que eu não entendia o por quê e dormir, uma tremenda perda de tempo. Até minha adolescência acreditei que o tempo era mesmo infinito, medido talvez pelas saudades de parentes longes, que eu só via nas férias de janeiro. Mas agora, uma época não tão distante assim da minha adolescência, já estou repleta dos vícios da maturidade e passei a acreditar que tempo voa, escorre pelas mãos, como diz a canção. O que se planeja para o final do ano chega antes de termos juntado dinheiro para pagar todas as contas que fizemos até o Natal. A vida corre, não para nem para amarrar os cadarços soltos que insistimos em puxar, e por vezes tenho a impressão de que ela olha para trás e ri de minha apreensão ao me ver preocupada com as ditas responsabilidades que adquiri.

Não tem mais jeito. Bebi da poção da eterna vigília e nunca mais poderei dormir em verdadeira paz como fazia quando pequena. Agora sei que cada novo dia é ao mesmo tempo um cadáver iminente. Que cada vez que o sol se levanta é um prenúncio de sentença de morte das coisas que amo. É um aviso de que nada pode ser feito mais tarde, porque não há um mais tarde real! Antes que chegue esse tempo fictício, meus ossos já serão pó, espalhado inconscientemente pelo mundo.

Um grande poeta disse que “nunca seremos tão jovens” e a constatação da profundidade dessa revelação me faz entrar em um poço de agonias pscicótico-depressivas, me levando à beira da loucura. Literalmente à beira da loucura. O pior é que quanto mais envelheço, ou melhor dizendo, quando mais compreendo como funciona esse mundo que construímos e insistimos em chamar de “evoluído”, mais enxergo que a culpa dessa passagem desenfreada dos dias é nossa. De nossas milhares de expectativas impalpáveis que só existem em um plano anímico, de nossa correria para conseguir mais dinheiro no fim do mês, de nossa mania de ocupar toda nossa vida com coisas triviais de forma que não tenhamos folga para ver que a areia da ampulheta não pára de cair. Complicado não? Inventamos coisas para ocupar nosso tempo esperando que essas coisas não nos deixem ver esse mesmo tempo passar. Paradoxal. E depois o tal ser humano se diz lógico e racional.

Certa vez, em uma das muitas vezes em que eu estava descontente com essa vida de obrigações sem sentido, me sentei em frente a um relógio amarelo e fiquei olhando seus ponteiros andar. Olhava, olhava e nada mudava pra mim. Comecei a sentir uma angústia sem medidas por saber que enquanto aqueles ponteiros giravam sem nada que os detivessem, absolutamente nada, a cada volta completa daquele grande mostrador de segundos, coisas irrompiam, vidas passavam, desastres aconteciam ou eram evitados. E, no entanto, eu continuava ali... Parada no tempo, em frente àquele carrasco executor de sentenças, sentindo meu rosto enrugar, minha vida ir apagando. Me enfureci contra tudo e, enlouquecida, acreditando ter encontrado a solução para essa questão, decidi matar o tempo! Subi em uma cadeira, tirei o relógio da parede, arranquei seus ponteiros lançado-os ao chão, amassei a armação com uma fúria cega e joguei o que restou da sucata amarela pela janela, num último ato alucinado de rebeldia contra tudo que me foi imposto.

Confesso que me senti aliviada e dormi feliz. Mas no dia seguinte percebi, desesperada, que tudo recomeçava, como uma eterna e escarnecida perseguição aos meus ideais de liberdade total. O sol me obrigava a levantar, as buzinas me ordenavam a acordar, o cheiro de café pronto já me dizia que era hora de voltar à minha escravidão auto-imposta.

Mas no fundo de minha alma ficou um sorriso com sabor de batalha ganha, sinto que algo em mim se avoluma como uma bola de neve. Algo maior do que eu, monstruoso e sádico, que sabe esperar para iniciar sua guerra total contra os relógios de ponto da vida. E enquanto esse ser anárquico toma forma e força, alimentado pelo sumo fétido do mundo que o prende, me disfarço com sorrisos e gentilezas, máscaras cínicas que me são apresentadas todos os dias e sigo enganando a sociedade, esperando ansiosa o dia em que quebrarei as engrenagens do grande relógio das obrigações humanas para todos podermos realmente viver, livres e felizes, rodopiando pelos campos floridos, sem máquinas ou qualquer tipo de aberrações capitalistas, ouvindo apenas o violão do trovadores orgulhosamente desocupados, sem o barulho mortal de despertadores ou qualquer outra forma de limitação para nos enlouquecer!

Um comentário:

  1. tempo, tempo, mano velho! hehe.. nossa, vc faz uma análise que me envolveu totalmente na leitura, e que me fez refletir sobre uma porção de coisas. Essas questões temporais me atormentan muito, vc não sabe o quando. Mesmo que inconscientemente. Ela é tão definidora da minha personalidade que acho que é por causa dela que escrevo crônicas, que gosto de história, e que tiro fotografias: eu quero que o tempo não apague as nossas marcas! Sou um paladino do tempo que passou e um inimigo mortal do esquecimento que esses reloginhos de parede nos trazem. Quem se debruçar sobre essa questão vai entrar sempre num quebra cabeça sem fim. Também tenho muita vontade de jogar a sucata do relógio pela janela. E também tenho a consciência que a culpa disso tudo é nossa mesmo. A nossa "evolução", que é sempre sinônimo de pressa, compromissos chatos e stress. Cínicos que somos, falamos que o tempo voa, onde já se viu, como pode. Eu poderia escrever uma crônica só comentando todas as questões que o seu texto sucitou, se eu tivesse tempo (haha).
    Quando à forma do texto, também lhe dou parabéns, pq eu dificilmente consigo manter uma linha reta de raciocínio numa crônica. Me perco em ironias e lirismos exarcebados, e não consigo defender opiniões, ou mesmo sensações, de maneira muito clara. Coisa que vc conseguiu, num dos seus textos que mais gostei.

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