domingo, 25 de maio de 2008

A Gratidão

Uma rodoviária é o lugar ideal para encontrar pessoas que nunca mais vamos ver. Há gente de todos os lugares, querendo partir para todos os cantos. E por motivos que ninguém quer saber. À exceção de uma repórter, que tenta encontrar pessoas para provar que elas viajam no feriado. Em São Paulo, você olha ao longe e não vê o fim das plataformas de embarque. O melhor a se fazer é sentar, soltar as malas e observar a maneira organizada que o caos se dá. Normalmente, é quando paramos que as coisas acontecem. Um senhor se aproxima com o seu comprovante de embarque e uma caneta. Pergunta se eu acho que precisa assinar aqueles papéis. Precisa sim, ainda mais hoje em dia, quando a palavra vale tão pouco. Se o senhor falar que o seu nome é João da Silva, ninguém vai acreditar. Mas, se estiver escrito no papel, o senhor estará salvo.

Timidamente, ele perguntou se então eu não poderia preencher para ele. Concordei e ele me emprestou sua caneta. Perguntei seu nome completo e escrevi. Mas não bastava um nome, era preciso alguns números também. O homem então me mostrou sua carteira de identidade, a prova cabal de que ele existia. Copiei os números. Aquele senhor ia para o Rio de Janeiro e seu ônibus sairia dali a pouco, no mesmo horário que o meu. Ele iria demorar seis horas até chegar ao seu destino, o mesmo tempo que eu levaria indo na direção oposta, até chegar a Curitiba.

Terminei de preencher e devolvi o comprovante e a caneta. Aquele homem, pude perceber, sabia ler e escrever. Mas, naturalmente, os comprovantes de embarque não são escritos em português, e sim na língua técnica e fria das pessoas esclarecidas. O homem me agradeceu exageradamente. Antes que eu pudesse pensar alguma coisa, tirou cinco reais da carteira e quis me entregar. Recusei. Então ele jogou o dinheiro em cima das minhas malas, e saiu apressado, entrando na sua plataforma de embarque e subindo no seu ônibus, que já estava lá. Eram quase duas horas da tarde. Eu não queria, mas devia deixar São Paulo.

Henrique Fendrich, mano

domingo, 18 de maio de 2008

Entre Amigos e Amores


Marina Costa

Se me perguntarem hoje, qual o maior vilão das amizades, eu responderia, sem pestanejar: o amor!

- O Amor???!!!!, você questionaria, abismado. Sim, o amor! Eu novamente afirmaria.

Esse amor, que julgamos ser o único pelo resto de nossas vidas. Até que chega a próxima primavera. O amor, que no início é só compreensão, caixa de bombons, sonhar acordado, desenhos de coração nos cadernos.

Sabe por quê? Porque o amor, como vamos descobrir mais tarde, tem intrínseco o ciúme dos amigos . Ele ouve os elogios que ambos trocam, de braços cruzados, olhando de rabo de olho e até tenta entender aquela amizade tão bonita e sem más intenções. Mas a noite, quando deita em seu travesseiro e fecha os olhos no silêncio do suspense, infalívelmente aparece aquele demoniozinho interior, para cutucar sua paz, já tão instável:

_ "Amor, Amor, toma cuidado! Esses amigos aí estão muito abusados!"

_ "Amor, não sei não, hein Amor! Essas amigas estão meio carinhosas demais, você não acha?"

Pronto! Bastou para plantar a semente da desconfiança e, no dia seguinte, já se colhe os frutos podres da discórdia! Doces sorrisos viram lágrimas engasgadas, soluços entrecortados. Inocentes permissões se transformam em severas negações, com sérias ameaças de punição:
_ "Não, você não vai a lugar nenhum com esses seu amigos bêbados, esquisitos, insuportáveis, sem juízo, galinhas, etc, etc, etc OU eu não me responsabilizo!"

É, Amor. Teu mal é andar tão junto do ciúme, este inimigo tão impiedoso. Esse ser maldito que te mortifica a mente, te escurece a alma, te lança no abismo da solidão e que te faz crer que, por ser o Amor, você, e somente você, estará sempre com a razão. Só que não está, Amor. E infelizmente, não há amor, por maior que seja, que sobreviva e saia ileso de uma tempestade de desconfianças. E saiba ainda que, se um dia, você se resolver a fazer a fatal pergunta: _ "Ou eu ou seus amigos!", estará correndo um imenso risco de ver, em meio a um triste sorriso e um adeus sem muito remorso, seu amor virando a esquina da vida e te abandonando, te deixando com a descrença em ver que o seu amor, Amor, te deixou. Prefirou os amigos. Foi você que quis assim.

O amor é tão belo quanto a rosa fresca. Mas conforme a quantidade de espinhos que se tem a enfretar para colhê-la, desiste-se e passa-se a olhar para outras flores do jardim. Já verdadeiras e importantes amizades, somente são comparadas as grandes sequóias, que tem vida longa, e cujas raízes marcam com grande profundidade a terra de nosso coração.

Mais vale um bom amigo na mão, do que dois amores voando. Talvez seja a verdade.

Por isso, antes de atender ao aflito e inseguro coração, ouça a voz da razão. Antes de ser amor, seja amigo. E nunca se esqueça que amigo, Amor, é amigo.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

De Como Eu Quase Matei Uma Vaca


No auge dos meus 13 anos, faltou pouco para eu responder por homicídio culposo – aquele sem intenção de matar, que fique bem claro.

Era um sábado à tarde quando os catequizandos se reuniam, e eu estava entre eles. Alguém havia decidido sair das salas e dar um passeio, respirar ar puro. E lá foi a turma, sempre acompanhada da catequista, D. Ermelinda. Como venho de uma cidade onde há mais morros do que qualquer outra coisa, subimos um deles para poder contemplar a cidade lá de cima.

Eu e outros anjinhos havíamos nos afastado um pouco do grupo principal. Paramos diante de um enorme pasto, todo cercado. De lá conseguíamos ter uma visão da cidade minúscula lá embaixo, distante. Alguém falou então alguma coisa engraçada, uma besteira qualquer. Os outros riram e falaram novas besteiras. E pronto, estava armado o cenário de perigo.

Estou próximo da cerca que separa a rua do pasto quando me deparo com uma pedra. Era um paralelepípedo do calçamento, jogado ali do lado da rua. São aquelas pedras grandes em forma de hexágono. Quis aproveitar a ocasião e me firmar como homem, pois já tinha alguns fios de barba no rosto, modéstia a parte. Ergui a pedra com a ponta do meu pé, a fim de mostrar que eu era forte o suficiente para isso. Como se não bastasse, ainda dei um impulso que a arremessou contra a cerca. Meu desejo era que quando a pedra atingisse a cerca eu já pudesse me considerar adulto, e aquilo tudo estaria acabado.

Quis o destino que minha prepotência fosse punida. O paralelepípedo não parou depois de atingir a cerca, mas a atravessou na direção do pasto. A pedra ficou em pé e seguiu rolando pasto abaixo. Como era uma descida, cada vez mais aumentava a velocidade, sem controle algum. Os catequizandos olhavam suspensos. Aonde iria parar aquela pedra? Enquanto rolava em pé, a pedra fez uma pequena curva para a esquerda. Depois nos entendemos o porquê. Perto do final da descida, percebemos que o paralelepípedo estava indo na direção exata de uma vaca, que tranqüilamente pastava por ali. Razão pela qual a pedra havia mudado a sua trajetória, a fim de atingí-la em cheio. Os paralelepípedos têm coração de pedra. Engoli em seco. Eu não sabia mais se me culparia pelo resto da vida ou se teria carne pelo resto da semana.

Quando temíamos pelo pior, na hora H, no último instante, na hora exata, a vaca deu um drible e a pedra passou por ela, indo parar logo depois. O pequeno pulo para trás que a vaca deu foi suficiente para evitar que fosse atingida em cheio pelo meu paralelepípedo – o que certamente seria fatal. Então o sangue voltou a circular dentro de mim. Foi nesse dia que entendi melhor o que vinha a ser a expressão “drible da vaca”.

Meus amigos depois me alertaram que aquilo que eu havia jogado provavelmente era um míssel teleguiado, e não uma simples pedra.

Henrique "The Cow Hunter" Fendrich

domingo, 4 de maio de 2008

De bem me quer



Marina Costa

O medo que criamos de nós mesmos é algo absurdamente difícil de ser vencido. Principalmente quando esse medo mexe com nosso ego: medo de não sermos amados, queridos, bonitos... Mas a partir do momento que damos o primeiro passo contra aquilo que nos amedronta é como se uma avalanche de oportunidades despencasse nossa cabeça a baixo e tudo que temos a fazer então é aproveitar o momento, Carpe Diem, como dizem por aí...

É o caso do tal bem me quer. Aquela brincadeira onde uma pobre e inocente florzinha (de quanto mais pétalas melhor) é sacrificada por causa de nossa insegurança. Alheios ao resto do mundo, concentrados apenas na resposta que julgamos tão certa, e nos sentimentos que se agitam em nosso coração, ficamos a repetir, quase em transe, o famoso mantra “Bem me quer, mal me quer, bem me quer...” até que finalmente a última pétala espera seu sacrifício e nós, com um sorriso nos lábios ou uma lágrima nos olhos, a arrancamos sem nem nos lembrarmos da pobre flor que se foi.

Se a pequena criatura colorida nos diz que algo “bem nos quer” ou alguém melhor dizendo, então o dia se ilumina. O céu fica mais azul, nos sentimos leves como plumas e imaginamos mil possibilidades de momentos bons. Mas ai de nossa mente sugestionável se a resposta pretendida for o temido “mal me quer”. Por mais que a vida queria nos mostrar o contrário, acreditamos naquilo que vemos em nossas mãos e tudo fica nublado, triste, sem por quê, sem sentido.

Manipular a resposta da flor nem sempre é uma má idéia. Pois assim, por mais que saibamos que a resposta deveria ter sido contrária ao que realmente queríamos, nos sentimos mais fortes, mais belos e aptos para ir a luta. E então sorrisos singelos viram pequenos “sins”, gostos banais viram pontos em comum, divergências imensas se transformam em motivos de intermináveis conversas que resultarão na singularidade especial de cada um.

Como é bom confiar em “nosso taco”. Só assim somos capazes de moldar o mundo que nos cerca e fazer o distante universo conspirar a nosso favor. E isso, que no início era tão difícil, tão sofrido, resulta no simples, no que deveria ser, na vida ao mesmo tempo tão comum e milagrosa que vivemos todos os dias. Como é bom bem querer, amar, viver em paz em primeiro lugar com nosso próprio eu, um excelente modo de não deixar as adversidades se instalarem nesse corpo nosso, que não as pertence!

Só nos entendendo primeiro para aceitarmos com sorrisos tanto o bem quanto o mal me quer. Só realmente desejando algo para irmos à luta mesmo contra algumas poucas barreiras banais que, se pensarmos, realçam o sabor da conquista. Só prestando mais atenção nos “sins” para compreendermos que o medo de rejeição que sentimos, tão imenso na verdade, não passa daquele medo que todo mundo tem de ser feliz.