domingo, 4 de maio de 2008

De bem me quer



Marina Costa

O medo que criamos de nós mesmos é algo absurdamente difícil de ser vencido. Principalmente quando esse medo mexe com nosso ego: medo de não sermos amados, queridos, bonitos... Mas a partir do momento que damos o primeiro passo contra aquilo que nos amedronta é como se uma avalanche de oportunidades despencasse nossa cabeça a baixo e tudo que temos a fazer então é aproveitar o momento, Carpe Diem, como dizem por aí...

É o caso do tal bem me quer. Aquela brincadeira onde uma pobre e inocente florzinha (de quanto mais pétalas melhor) é sacrificada por causa de nossa insegurança. Alheios ao resto do mundo, concentrados apenas na resposta que julgamos tão certa, e nos sentimentos que se agitam em nosso coração, ficamos a repetir, quase em transe, o famoso mantra “Bem me quer, mal me quer, bem me quer...” até que finalmente a última pétala espera seu sacrifício e nós, com um sorriso nos lábios ou uma lágrima nos olhos, a arrancamos sem nem nos lembrarmos da pobre flor que se foi.

Se a pequena criatura colorida nos diz que algo “bem nos quer” ou alguém melhor dizendo, então o dia se ilumina. O céu fica mais azul, nos sentimos leves como plumas e imaginamos mil possibilidades de momentos bons. Mas ai de nossa mente sugestionável se a resposta pretendida for o temido “mal me quer”. Por mais que a vida queria nos mostrar o contrário, acreditamos naquilo que vemos em nossas mãos e tudo fica nublado, triste, sem por quê, sem sentido.

Manipular a resposta da flor nem sempre é uma má idéia. Pois assim, por mais que saibamos que a resposta deveria ter sido contrária ao que realmente queríamos, nos sentimos mais fortes, mais belos e aptos para ir a luta. E então sorrisos singelos viram pequenos “sins”, gostos banais viram pontos em comum, divergências imensas se transformam em motivos de intermináveis conversas que resultarão na singularidade especial de cada um.

Como é bom confiar em “nosso taco”. Só assim somos capazes de moldar o mundo que nos cerca e fazer o distante universo conspirar a nosso favor. E isso, que no início era tão difícil, tão sofrido, resulta no simples, no que deveria ser, na vida ao mesmo tempo tão comum e milagrosa que vivemos todos os dias. Como é bom bem querer, amar, viver em paz em primeiro lugar com nosso próprio eu, um excelente modo de não deixar as adversidades se instalarem nesse corpo nosso, que não as pertence!

Só nos entendendo primeiro para aceitarmos com sorrisos tanto o bem quanto o mal me quer. Só realmente desejando algo para irmos à luta mesmo contra algumas poucas barreiras banais que, se pensarmos, realçam o sabor da conquista. Só prestando mais atenção nos “sins” para compreendermos que o medo de rejeição que sentimos, tão imenso na verdade, não passa daquele medo que todo mundo tem de ser feliz.


Um comentário:

  1. Essa analogia com a pétala de uma flor, é bem interessante e verdadeira. Impressionante como depositamos no resultado desse "bem me quer" todas as nossas expectativas sobre alguma coisa. É uma espécia de horóscopo natural rs... E acabamos esquecendo, como vc diz, de "confiar no próprio taco", deixando passar, certamente, possibilidades imensar de conseguir aquilo que queremos.

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