segunda-feira, 12 de maio de 2008

De Como Eu Quase Matei Uma Vaca


No auge dos meus 13 anos, faltou pouco para eu responder por homicídio culposo – aquele sem intenção de matar, que fique bem claro.

Era um sábado à tarde quando os catequizandos se reuniam, e eu estava entre eles. Alguém havia decidido sair das salas e dar um passeio, respirar ar puro. E lá foi a turma, sempre acompanhada da catequista, D. Ermelinda. Como venho de uma cidade onde há mais morros do que qualquer outra coisa, subimos um deles para poder contemplar a cidade lá de cima.

Eu e outros anjinhos havíamos nos afastado um pouco do grupo principal. Paramos diante de um enorme pasto, todo cercado. De lá conseguíamos ter uma visão da cidade minúscula lá embaixo, distante. Alguém falou então alguma coisa engraçada, uma besteira qualquer. Os outros riram e falaram novas besteiras. E pronto, estava armado o cenário de perigo.

Estou próximo da cerca que separa a rua do pasto quando me deparo com uma pedra. Era um paralelepípedo do calçamento, jogado ali do lado da rua. São aquelas pedras grandes em forma de hexágono. Quis aproveitar a ocasião e me firmar como homem, pois já tinha alguns fios de barba no rosto, modéstia a parte. Ergui a pedra com a ponta do meu pé, a fim de mostrar que eu era forte o suficiente para isso. Como se não bastasse, ainda dei um impulso que a arremessou contra a cerca. Meu desejo era que quando a pedra atingisse a cerca eu já pudesse me considerar adulto, e aquilo tudo estaria acabado.

Quis o destino que minha prepotência fosse punida. O paralelepípedo não parou depois de atingir a cerca, mas a atravessou na direção do pasto. A pedra ficou em pé e seguiu rolando pasto abaixo. Como era uma descida, cada vez mais aumentava a velocidade, sem controle algum. Os catequizandos olhavam suspensos. Aonde iria parar aquela pedra? Enquanto rolava em pé, a pedra fez uma pequena curva para a esquerda. Depois nos entendemos o porquê. Perto do final da descida, percebemos que o paralelepípedo estava indo na direção exata de uma vaca, que tranqüilamente pastava por ali. Razão pela qual a pedra havia mudado a sua trajetória, a fim de atingí-la em cheio. Os paralelepípedos têm coração de pedra. Engoli em seco. Eu não sabia mais se me culparia pelo resto da vida ou se teria carne pelo resto da semana.

Quando temíamos pelo pior, na hora H, no último instante, na hora exata, a vaca deu um drible e a pedra passou por ela, indo parar logo depois. O pequeno pulo para trás que a vaca deu foi suficiente para evitar que fosse atingida em cheio pelo meu paralelepípedo – o que certamente seria fatal. Então o sangue voltou a circular dentro de mim. Foi nesse dia que entendi melhor o que vinha a ser a expressão “drible da vaca”.

Meus amigos depois me alertaram que aquilo que eu havia jogado provavelmente era um míssel teleguiado, e não uma simples pedra.

Henrique "The Cow Hunter" Fendrich

Um comentário:

  1. Sabe aquela história de que o bater de asas de uma borboleta aqui provoca um furacão lá na China? É mais ou menos por ai a sua história de quase-assassinato-qualificado. O momento suspenso onde o acontecimento pode ou não se realizar é emocionante. E a simplicidade do fato é de fazer sorrir de alívio. Depois a vida continua...
    Se a história foi real ou não eu não sei... Mas que dá pra nos alertar contra o perigo das armas camufladas... isso é bem verdade!

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