segunda-feira, 30 de junho de 2008

Migalhas


Marina Costa

Eu me escondo e te procuro. Nessa caçada de gato e rato, que veja bem, é algo que existe apenas em minha cabeça doente, eu sempre saio perdendo, ficando sozinha com meu queijo roído. Dia sim e outro também, lembro de você e suas palavras cheias de fantasiosa realidade para mim. Lembro de um jeito de olhar diferente, de um modo de falar familiar, de uma história maluca sem pé nem cabeça mas cheia de graça e sentido aos meus ouvidos. E são essas lembranças poucas, pingadas que me sustentam. Eu que sempre pisei em crânios cegados por Eros, eu que sempre ri com escárnio daqueles que se diziam rendidos às graças do cupido, eu que tinha um prazer secreto em dizer não e sorrir com uma piedade fingida fui atingida por algo em que nunca acreditei. E toda minha desenvoltura para negar sem rancor agora se transforma em timidez solitária para pedir.

Só peço o que acho que mereço; as poucas migalhas de seu conhecimento, me dadas à custa de obrigação, dever, pagamento. E isso me entristece. Esse saber ou não saber de você me adoece. Um almoço casual quase vira um encontro inaugural, mas depois, quando vejo o tênue fio que nos ligou por momentos fora do tempo se arrebentando, cedendo, fico sem saber aonde achar as idéias de declaração que antes pipocavam em minha mente, alvoroçadas. Onde encontrar a coragem que me inundava para dizer que gosto de você, mesmo não sabendo nem quem você é de verdade. Que me importa? Sendo um louco, um alucinado, um pé rapado ou abastado, um incoerente, irreverente ou centrado, um imoral, libertino ou conservador, avesso às luxúrias do mundo e adepto ao recolhimento, o que quer que você seja de verdade não vai mudar o que sinto. Será sempre o sentimento misto de surpresa, adoração e amor comovido nascido de sua primeira escalada pelas paredes daquela sala, aquele malabarismo de quem não quer simplesmente cuspir palavras frias, de seus primeiros dizeres na minha presença mesmo sem consciência de que eu estava ali.

Faz sentido tudo isso? Onde está escondido esse sentido? Amor à primeira vista, alguém pode me acusar, e eu diria, não sei. Onde? Em mim? Creio que sim. Mas sempre entendi amor como algo divino, desprovido de dor, de agonias e não é bem assim que me sinto. Mas mesmo jogada ao léu, às dores que criei para mim, me sinto bem e não quero mudar, a não ser para mais perto, para dores mais intensas, para crises mais elaboradas, mais cheias da sua presença.

Mas onde? Quando? Como? Essas perguntas essenciais sem respostas prontas me deixam sem rumo. Me fazem descer até a mais humilde posição de frágil mulher e esperar pela caridade de seus olhares, pelo beijo rápido escondido entre gestos impensados, por sua mínima demonstração de que se importa comigo.

Tudo isso me alimenta. E vou vivendo com esse pouco mesmo tendo medo de morrer de fome. Mais medo ainda tenho de sofrer uma fatal indigestão caso você resolva me alimentar com tudo o que tem. Não sei o que preferiria. E enquanto isso, me mantenho sempre nesse mesmo lugar ausente, sem dizer o que sinto e sem saber o que pensas, respirando o ar quente de minha imaginação fértil, buscando os finais de semana que te mostram novamente que existo, rezando pelo milagre de te ver bater a qualquer hora em minha porta, sem palavras e sem desculpas, querendo o que não tenho audácia de entregar, mesmo desejando tanto.

Com um pouco de nostalgia depressiva por aquilo que ainda nem aconteceu, sigo em frente nesse caminho escuro, nesse objetivo educacional que ficou para segundo plano, esperando e esperando que alguém lá em cima tenha pena de mim e me recolha aos seus braços, feche meus olhos com seus dedos e me dê com a sua boca o beijo que transformará as migalhas que recebo em pão inteiro para sustentar essa minha vida que depois de te entender como algo além de mim, ficou assim, tão cinza.


domingo, 22 de junho de 2008

Chega de Silêncio!


Uma salva de palmas aos distintos cidadãos que acabaram com o silêncio. Já estava na hora! Soltem todos muitos foguetes, dando altas gargalhadas, felizes porque já estamos livres desse hábito constrangedor. Ora, precisamos beber em honra desses homens que tiveram a feliz idéia de implantar um equipamento de rádio dentro dos transportes coletivos. São pessoas de mentes evoluídas, que perceberam que é preciso se comunicar, e que não há nada mais danoso para a civilização do que o silêncio.
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Abracemos efusivamente o primeiro homem que teve a idéia de veicular notícias dentro dos ônibus. A abençoada inovação permite que saibamos tudo que está acontecendo no mundo de forma rápida e sem alterar a nossa rotina. De outra maneira, provavelmente jamais seríamos informados do que está se passando no mundo e seríamos verdadeiras amebas da sociedade da informação. Mas agora, podemos saber em detalhes toda a história da crise diplomática entre Brasil e Espanha, por exemplo. E tudo isso, no conforto do transporte coletivo, lugar que antes possuia muitas pessoas quietas, algo absolutamente desprezível.
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Quando voltarmos da rotina de trabalho, aliviados e ansiosos por chegar em casa, entraremos num ônibus e poderemos ouvir todas as novidades sobre os recentes escândalos na política. Ficaremos sabendo de todos os gastos que vamos ter, e ainda ouviremos sobre todas as pessoas mortas em crimes envolvendo traficantes ou acidentes nas estradas. Ouviremos ainda uma discussão acalorada entre comentaristas esportivos, principalmente na segunda-feira, um dia depois que o nosso time perdeu. E tudo isso no lugar do simples cochilo e da auto-contemplação costumeira que acontecia quando voltávamos pra casa, antes de tamanho benefício ser implantado.
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Parabéns aos ilustres homens, que certamente já estão preparando outra novidade para manter a sociedade sempre alerta e atenta para os acontecimentos que a cercam. Esses homens têm desempenhado papel fundamental na louvável missão de acabar com o silêncio. E segundo dizem, a próxima inovação será um sistema que mantenha a população informada mesmo quando estiver debaixo do chuveiro – porque ali também as pessoas têm o péssimo hábito de ficar pensando. E não duvidemos, que eles chegam lá, se Deus quiser.

Henrique Fendrich

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Semestresse


Marina Costa


Um ponto. Não sei nada, também não assisti aula. Agora, prova amanhã.
Como diz a voz do povo: créu. Socorro Santo dos Alunos Cabuladores de Aula pela Boa Causa do Vagabundear.
Pelo menos é de consulta. Menos mau. Ou menos bom. Caderno em branco. Limpinho como papel higiênico. Mas ao contrário deste, inútil.
Tá na hora. Acabaram-se há muito minhas unhas. Suor frio. Suor quente. Bateu o sino. E pelo corredor, se foi o professor com minha reles esperança de ter reformado, em um lampejo de inteligência inigualável, a gramática da língua portuguesa. Nota, só na semana que vem. Vou rezando.
Chega dessa correria; apertos, espasmos, dores e banhos de descarrego. Próximo semestre assisto aula pra valer. Copiar tudo, faltar jamais. E que me abençoe esse Santo de Nome Grande que Falei aí em Cima.
Sexta passa. Sábado acabou. Domingo noite em claro de agonia.
Aula final, mão tremendo, folha na porta (cabeças vão rolar) quase não agüento. Sofro um princípio de desmaio!
I
J
L
Maria
Mariana
Marina................................................... 72

Ah! Acabou! Não acredito! Aquele Santo me passou!
Férias! Fim de preocupação, livros de volta pro armário. Relaxar! Pernas pro ar!!! Dormir!!!! Dormir... Domir???

Peraí... Hoje é segunda... o Blog...
Henriqueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee desculpa!

domingo, 8 de junho de 2008

Sexo

Ele não podia aceitar a idéia que a sua mulher, idealizada nos melhores conceitos de pureza e retidão de caráter, pudesse um dia sentir prazer. Na sua concepção, isso a tornaria infiel e vulgar, como todas as outras que conhecia e desprezava. Era como se o mundo fosse dividido entre pessoas boas e pessoas que sentem prazer – e que somente ele pudesse circular entre ambos os mundos. Procurava então afastar esse pensamento desagradável, e se concentrar na mulher recatada e tímida que ele havia conhecido, cheia de pudor, criada nos mais tradicionais preconceitos paternos. Uma mulher pura, cujo menor sinal de satisfação poderia colocar tudo a perder.

Não vamos acreditar que esse homem não sentisse prazer. As regras que criava valiam apenas para as suas propriedades. E a mulher era a sua propriedade mais preciosa, um bem que exibia com satisfação. Queria mantê-la assim para sempre, intocável. Eu, que também a conheci nessa época, posso garantir que ela realmente não sentia falta de nada. Por algum motivo, que na ocasião nem ele nem eu pudemos descobrir, ela não conseguia separar a idéia de que o prazer está sempre relacionado a algo doloroso e profundamente mal. E que, portanto, deveria ser evitado. A libido traria sempre a culpa, e com ela uma terrível sensação de remorso. De modo que ela permanecia pura, e ele não reclamava disso. No fundo, era um casal bonito, que pensava muitas coisas parecidas.

Mas ao mesmo tempo em que a pureza era essencial para que o estranho casal permanecesse junto, também era motivo suficiente para que ele tentasse quebrá-la. Ele queria, no fundo, que ela deixasse de ser pura. Havia momentos em que tudo que queria fazer era colocar à prova a retidão da sua mulher. Ouso dizer ainda, que ele desejava vê-la caindo na sua tentação, cedendo a um desejo carnal e se tornando indecente, porque assim ele poderia se considerar um homem enganado. Não faço idéia do motivo para tanto disparate, mas é isso que acredito que fosse o pensamento dele. Em algumas oportunidades, ele disse que julgava ofensivos os desejos que tinha pelo corpo dela, e tratava de afastá-los o mais depressa possível. Penso que acreditava que isso prejudicaria um amor tão desinteressado como parecia ser o deles.

Não era sempre que conseguia controlar o que sentia. Contou-me que algumas vezes usou de meios para tentar convencê-la, e de como ela enrubescia diante da menor possibilidade de fazer o que não devia. De maneira sutis, que ele não chegou a me contar, conseguiu um dia convencê-la. Estavam há meses juntos, e iriam fazer aquilo que os pais dela não poderiam imaginar. Não tenho dúvidas que ela só fez isso porque realmente o amava. De outra maneira, jamais teria cedido, pois, acima de tudo, ela sentia medo. Mas confiou nele e se entregou. Era um amor que ele não sentia, que não podia sentir, tão interessado que estava na sua própria satisfação. O que ele queria era colocar à prova aquela mulher – e que ela o enganasse.

Imagino a cena desse pobre homem fazendo amor com a mulher, e no auge da excitação, ele parar tudo e dizer algo como “eu já sabia” ou “eu bem que desconfiava”. A cena é patética, tão patética como um homem daqueles consegue ser. Não me contou detalhes dessa noite, e nem me interessou perguntar. Mas andava com um sorriso diferente, creio que se sentia mais homem, sabendo que era capaz de fazer uma mulher pura sentir prazer. Quando bebe, ele costuma me dizer que se arrepende dos pensamentos que tem, e que a sua mulher é tudo que um homem poderia desejar, que ela é a junção perfeita dos dois mundos, e mais uma série de afirmações sem muito sentido.

Mas eu sei como funciona a cabeça desse homem. Agora, ele deve viver desconfiado. Sabe do que ela é capaz de sentir. Deve imaginar que ela pode querer sentir isso com qualquer um, com todo homem que se aproximar. Ele a julga de acordo com a sua própria vida, de acordo com os desejos íntimos que nutre por todas as mulheres que conhece, e dos quais não pode me negar. Ela ignora tudo isso. Ama realmente o seu homem, com uma candura admirável, com uma impressionante dedicação – ainda mais se sabemos que não é merecido. Mas no fundo até que ele é um bom sujeito, quando não fala de seus relacionamentos. Eu realmente sentiria muito se ele descobrisse que estou saindo com sua mulher.

Henrique "Dom Juan" Fendrich

domingo, 1 de junho de 2008

Mosaicos


Marina Costa

Não olho, mas vejo. Me vou. Pra onde? Escuto e não pergunto, também não guardo teu nome. Se me param, não percebo, se me perguntam não respondo e lhes mostro meu adereço. Funciona? Não sei. Talvez todos são tão fingidos quanto eu. Nos escondemos, de quê? Da dor de viver nu. Sem sonhos nem esperanças. Sem crenças. Por isso nos vestimos, escondidos atrás de fantasias., imaginadas por uma mente com medo do desconhecido. Respostas? Nunca temos. As perguntas não cessam. Razões, não entendemos. Pensamentos sempre são demais.

Se mudo de canal, se viro a esquina, se corto o cabelo ou assisto Godard, o eco do nada continua em minha mente "o que há, o que há"...

Nada pode aplacar o questionamento sem fim. Por mais que eu tente, não consigo me livrar de mim. E tal qual uma sombra, em uma caverna cheia de dúvidas, o mar de perguntas cria ondas que quebram na minha compreensão sem sentido: "pra onde, pra onde..."

Não sei. Pulo da ponte. Algo em mim grita: "esconde, ESCONDE".