domingo, 8 de junho de 2008

Sexo

Ele não podia aceitar a idéia que a sua mulher, idealizada nos melhores conceitos de pureza e retidão de caráter, pudesse um dia sentir prazer. Na sua concepção, isso a tornaria infiel e vulgar, como todas as outras que conhecia e desprezava. Era como se o mundo fosse dividido entre pessoas boas e pessoas que sentem prazer – e que somente ele pudesse circular entre ambos os mundos. Procurava então afastar esse pensamento desagradável, e se concentrar na mulher recatada e tímida que ele havia conhecido, cheia de pudor, criada nos mais tradicionais preconceitos paternos. Uma mulher pura, cujo menor sinal de satisfação poderia colocar tudo a perder.

Não vamos acreditar que esse homem não sentisse prazer. As regras que criava valiam apenas para as suas propriedades. E a mulher era a sua propriedade mais preciosa, um bem que exibia com satisfação. Queria mantê-la assim para sempre, intocável. Eu, que também a conheci nessa época, posso garantir que ela realmente não sentia falta de nada. Por algum motivo, que na ocasião nem ele nem eu pudemos descobrir, ela não conseguia separar a idéia de que o prazer está sempre relacionado a algo doloroso e profundamente mal. E que, portanto, deveria ser evitado. A libido traria sempre a culpa, e com ela uma terrível sensação de remorso. De modo que ela permanecia pura, e ele não reclamava disso. No fundo, era um casal bonito, que pensava muitas coisas parecidas.

Mas ao mesmo tempo em que a pureza era essencial para que o estranho casal permanecesse junto, também era motivo suficiente para que ele tentasse quebrá-la. Ele queria, no fundo, que ela deixasse de ser pura. Havia momentos em que tudo que queria fazer era colocar à prova a retidão da sua mulher. Ouso dizer ainda, que ele desejava vê-la caindo na sua tentação, cedendo a um desejo carnal e se tornando indecente, porque assim ele poderia se considerar um homem enganado. Não faço idéia do motivo para tanto disparate, mas é isso que acredito que fosse o pensamento dele. Em algumas oportunidades, ele disse que julgava ofensivos os desejos que tinha pelo corpo dela, e tratava de afastá-los o mais depressa possível. Penso que acreditava que isso prejudicaria um amor tão desinteressado como parecia ser o deles.

Não era sempre que conseguia controlar o que sentia. Contou-me que algumas vezes usou de meios para tentar convencê-la, e de como ela enrubescia diante da menor possibilidade de fazer o que não devia. De maneira sutis, que ele não chegou a me contar, conseguiu um dia convencê-la. Estavam há meses juntos, e iriam fazer aquilo que os pais dela não poderiam imaginar. Não tenho dúvidas que ela só fez isso porque realmente o amava. De outra maneira, jamais teria cedido, pois, acima de tudo, ela sentia medo. Mas confiou nele e se entregou. Era um amor que ele não sentia, que não podia sentir, tão interessado que estava na sua própria satisfação. O que ele queria era colocar à prova aquela mulher – e que ela o enganasse.

Imagino a cena desse pobre homem fazendo amor com a mulher, e no auge da excitação, ele parar tudo e dizer algo como “eu já sabia” ou “eu bem que desconfiava”. A cena é patética, tão patética como um homem daqueles consegue ser. Não me contou detalhes dessa noite, e nem me interessou perguntar. Mas andava com um sorriso diferente, creio que se sentia mais homem, sabendo que era capaz de fazer uma mulher pura sentir prazer. Quando bebe, ele costuma me dizer que se arrepende dos pensamentos que tem, e que a sua mulher é tudo que um homem poderia desejar, que ela é a junção perfeita dos dois mundos, e mais uma série de afirmações sem muito sentido.

Mas eu sei como funciona a cabeça desse homem. Agora, ele deve viver desconfiado. Sabe do que ela é capaz de sentir. Deve imaginar que ela pode querer sentir isso com qualquer um, com todo homem que se aproximar. Ele a julga de acordo com a sua própria vida, de acordo com os desejos íntimos que nutre por todas as mulheres que conhece, e dos quais não pode me negar. Ela ignora tudo isso. Ama realmente o seu homem, com uma candura admirável, com uma impressionante dedicação – ainda mais se sabemos que não é merecido. Mas no fundo até que ele é um bom sujeito, quando não fala de seus relacionamentos. Eu realmente sentiria muito se ele descobrisse que estou saindo com sua mulher.

Henrique "Dom Juan" Fendrich

Um comentário:

  1. Até a última frase da crônica eu realmente achava tratar-se da consciência do homem! Mas eis que surge o climax no fim!! E eis que tudo o que li releio com esse ar de quem sabe algo que o outro desconhece... Talvez pra me vingar do machismo dessa personagem arcaica. Tirando o chapéu pra esse Dom Juan, que conseguiu ver tão bem os dois lados de um mesmo casamento mitificado: o machão idealizado e a virgenzinha reprimida!!!

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