domingo, 27 de julho de 2008

Sobre palavras e dizeres


Marina Costa
Como é bom o ato de falar. Falar de coisas sérias, mentiras inocentes, verdades fingidas, falar besteira, bobagens engraçadas, falar sem saber, falar dos outros, de gente famosa, de gente nem tão interessante assim, falar da vida, falar do mundo. Note bem, caro falador, que eu disse falar e não reclamar, xingar, gritar, lamuriar ou sussurrar. Falar com todas as suas cinco letras bem ditas. 

Falar é o que fazemos quando estamos num barzinho, com amigos, ás vezes sobre a influência doce e desenvolta do vinho. Nesses momentos falamos sem esperar a resposta que seguramente buscamos, falamos sem pensar, só por dizer alguma coisa, sentir as palavras saindo da boca como seda do gargalo de uma garrafa de vidro. Falamos inebriados pelo som de nossa voz humana, que se faz entendível, com o qual alguns concordam, outros sorriem, outros ainda retrucam mas sempre visando o auge do diálogo supremo, o entendimento dos seres. 

Já dizia Exupéry, e essa é a frase que mais repito depois do "bom dia" diário, que a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Obviamente que sim. Talvez até mais que o silêncio, que é interpretado conforme o humor, o tempo ou o saldo bancário. 

Mas o que seria de nós, pobres seres mortais, sem a inspiração flutuante dos Deuses e Musas, se não pudéssemos fincar nossa existência com as palavras faladas? Acabaríamos amuados e tristes, sem ter com quem dividir as teorias sobre o azul esverdeado do céu, perdidos em nós mesmos, solitários. O mundo seria literalmente um grande exército de homens sozinhos. 

Acredito que o ato de dizer é o primeiro grande passo rumo a perfeição completa. Primeiro pensamos, mas isso já é tão inerente (mesmo que não tão transparente) que classifico como o sopro inicial. Depois dizemos, agimos, construímos, contemplamos e por fim merecidamente, descansamos. Foi assim com aquele que tudo criou – acredita-se - e é natural que se repita em suas criaturas, numa escala obviamente proporcional. 

Por isso, mesmo que as palavras, mesmo que o dizer gere lágrimas, corações partidos, excesso de apetite ou greve de fome, mesmo quando o ato de dizer algo se encaminhar para gerar destruição de outrem – diga-se de passagem, como simples figura de linguagem, não me interpretem como entusiasta da violência física – mesmo com todos esses contras, caro amigo, diga. Liberte a torrente de vocábulos, fale para o nada, para o eco, para o abismo de ouvidos surdos de quem finge não te ouvir, mas não prenda em si, tal qual uma barragem, a vontade do dizer. 

Se, ao contrário, as palavras articuladas visarem um sorriso, um agradecimento sincero feito com olhos rasos d'água, um novo sentido para a vida do outro, aí que não devemos mesmo segurar a boca e bradar ao mundo o que pensamos, o que sentimos, o que gostaríamos que os outros soubessem mas que por um pudor sem sentido nos escusamos de dizer. 

Muitas pessoas são criticadas pelos ditos "donos da palavra" por falarem demais, falarem de coisas desnecessárias, falarem futilidades. Mas eu, enquanto íntima das letras, mesmo que mais no papel do que em qualquer outra forma de comunicação, digo: 

Deixem que falem. Deixem que a boca seja algo mais do que máquina trituradora. Deixem que se digam bobagens maliciosas, bobagens infantis, bobagens sonhadoras. Vamos deixar o mundo falar porque isso é sinônimo de que há o que dizer nos corações tomados como ocos. Não somos máquinas programadas. Temos nossas opiniões, por mais que escarneçam delas ou que elas mereçam esse escárnio. Temos nossos pensamentos e nossa vontade de dizer. Então diga! Que o mundo se transforme em um grande dicionário, recheado de verbetes sem limitações! Adotemos o lema "A liberdade de expressão junto ao pão!". 

Eu, enquanto tímido ser silencioso, me comprometo a abrir mais meus lábios para dizer tudo do que me esquivo por mania de quietude. E faço um brinde ao falatório, esperando que depois de tanto conversa nada fiada, aprendamos a agir com o mesmo entusiasmo também.
* Créditos da imagem: belogue.wordpress.com/ 2008/01/

domingo, 20 de julho de 2008

Um Caso Às Minhas Leitoras

Admito que acontecem coisas várias na minha vida. Algumas poucas são realmente extraordinárias e mereceriam, de fato, ser transformadas em um texto – obrigação da qual eu não me furtei, naturalmente. Mas a grande parte delas são tão banais que semelhante destino só se tornaria válido na pena de um grande cronista. Como não é esse o caso, temos como resultado uma escrita truncada que não consegue traduzir a beleza do acontecimento, e que, para quem lê, parece mero devaneio intelectual. Vem daí a reclamação das minhas leitoras, para quem a minha vida só é de interesse na medida em que encontra ressonância nas suas próprias.
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Mas ora bolas, eu não resisto e contarei outra vez um caso desprovido de qualquer interesse universal. É, acima de tudo, um caso que só diz respeito a mim, como tantos outros de que já me ocupei. Mas ei! Nada de resmungos. A senhora leitora certamente poderá encontrar, sem grande dificuldade, muitos cronistas ágeis que acompanham o noticiário com um bloco de notas em mãos, prontos para captar qualquer manifestação do comportamento humano que possa servir de mote às suas crônicas. Observadores argutos dos movimentos sociais, eles mergulham com espantosa avidez nos fatos do noticiário, e em seus textos a leitora poderá encontrar a universalidade, a atualidade, a opinião, e uma porção de valores que não costumo preservar nas minhas crônicas.
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Ainda assim, há uma parcela de leitoras que se atém ao suposto lirismo e tom poético que busco empregar no que escrevo e, para elas, os acontecimentos de que me ocupo, mesmo que particulares, mesmo que banais, e mesmo que mal abordados, são capazes de encontrar uma existência menos falaz. Duram, de fato, o tempo suficiente para serem esquecidos – coisa diferente eu não poderia esperar de uma crônica. É para essas leitoras que enuncio o caso de hoje. Aproveito para esclarecer que se pareço privilegiar determinados públicos, é pela simples razão de que não espero ser lido por homens. De fato, creio que jamais dirigi a palavra a eles em meus textos. À parede, várias vezes. Aos homens, jamais.
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Dito tudo isso, é bom que não nos alonguemos demais, pois embora as pacientes leitoras costumem ter mais tempo para o vício da leitura, não quero que deixem de cuidar de seus afazeres mais imediatos por conta de tão pouca coisa, como é o caso que prometi contar-lhes hoje. E também não quero que me larguem aqui, escrevendo à toa. O acontecimento de hoje é outro caso romanesco, destes que sei serem os favoritos das leitoras.
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Acreditem vocês que eu estava em um supermercado, fazendo as necessárias compras da semana, e me deparei com uma moça, entre tantas que por lá havia. E que, aos passarmos um pelo outro, trocamos olhares de análise, para ver se éramos merecedores de maior contemplação. Às leitoras mais exaltadas, esclareço que não estou comprometido no momento, e penso não ser esse também o caso da distinta dama. E nos contemplamos rapidamente, para só então voltarmos às compras e esquecermos um do outro.
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Não sei se vocês acreditam em coincidências, mas eu, não lembrando da moça, ainda me deparei com ela quatro vezes, em meio a multidão geral. E verdade seja dita, a fim de preservar a discrição daquela mulher: não houve mais nenhum olhar da sua parte. Da minha houve, naturalmente. Já pensando que ela devia ter farejado o cronista que havia em mim e tratado de escapar, deixo-a de lado e pago minhas mercadorias, entro no meu carro e apresso-me para sair - homem que sou, vivo apressado. Mas eis que... atenção, minha senhora, pois é nesse momento que entra o relato poético que tanto aprecia. Deixai o que mais estiveres fazendo e venha cá para o aconchego dessa crônica. Vou até iniciar um novo parágrafo, pois creio que o fato merece, além de elevar o grau de suspense.
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Eis que, de dentro do carro, eu a vejo pela quinta vez. Está lá fora também, acompanhada de pessoas que devem ser da sua família. Mas está sozinha, e também me vê. E dessa vez, quando percebe que estou saindo e se dá conta que nunca mais voltaremos a nos ver, lança um novo olhar para mim. Imediatamente, faço o mesmo. E por alguns segundos... um, dois, três, quatro, cinco. Aí está. Por alguns segundos, ficamos olhando um para o outro, sem desviar o olhar em nenhum momento. E era um olhar cheio de ternura, cheio de dor, cheio de vergonha por ser o último e por nada ter acontecido. Desperdiçamos, pois, uma nova chance de sermos plenos, jogamos fora uma provável felicidade. Era preciso ir pra casa, era preciso matar o sentimento passageiro de esperança, sufocar o desejo de amor que não se realizou porque não houve tempo. Porque não houve tempo... E assim foi feito.
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Aí está o caso de hoje. Sei que muitas vezes a leitora prefere o final feliz, mas que posso fazer? Mentir é que não posso, isso é lá com os poetas. Também não creio que o caso tenha despertado muita emoção, mas eu havia feito uma série de ressalvas já no começo da crônica, então não há do que reclamar. Elogios não me trarão de volta aquela moça, não nos darão mais tempo e não me farão mais feliz. Críticas não apagarão aquele último olhar e não me farão dar menos importância ao acontecido. É um caso tão particular e tão especial que seria melhor eu não ter escrito nada. Mas ora bolas, eu não resisto.
Henrique Fendrich

domingo, 13 de julho de 2008

Nas alturas


Da série: "O Namorado da minha amiga".


Marina Costa


Toda vida ela se sentiu meio deixada de “lado”. A história do “Patinho Feio” sempre lhe fazia chorar. Nunca acreditou no potencial que todos viam mas que o espelho insistia em esconder. A frescura da maçã ainda estava na sua face, mas insistia em sentir-se velha demais, ultrapassada demais, solitária demais. E tentava correr contra o que não pode parar, buscando algo que nem ela mesma sabia se queria encontrar, mas agindo como todo mundo achava que a vida devia ser. Às vezes penso que o mal do mundo são os palpites que damos na vida dos outros. Mas vai botar isso na cabeça da sociedade... Ela era mais uma, entre tantos os que acreditam nesse fato, que pensava ser a vida resumida em três substantivos (os quais ninguém nem percebe como são abstratos): realização, estabilidade e dinheiro. Não necessariamente nessa mesma sucessão dolorida. Por mais que tudo desse certo, ela sempre se angustiava. Os outros diziam que ela era um sucesso mas a mulher se achava pouco e não acreditava. Assim a vida escorria entre risos e lágrimas, e por vezes quase acabava em alguns copos de cerveja quente.

Tinha o costume de pedir conselhos e ouvia atentamente aquele esoterismo de boteco. Sabia aonde devia chegar mas como queria correr mais do que as próprias pernas longas, tropeçava por vezes e ficava com mais alguns arranhões, que não contribuíam para melhorar o que quer que fosse. Além de tudo, tinha a mania, tão em voga nesses dias, de criar ilusões para si, vivendo a encontrar amores eternos em cada homem, por mais subalterno que fosse o pobre. Não era sua culpa. Deles talvez, os homens nem sempre são tão inocentes quanto querem parecer. Então, quando mais uma história terminava, o vazio aparecia de novo e só restava a responsabilidade que ninguém tinha mas que à ela nunca faltava. Afogava-se em obrigações e deixava os sonhos ficarem mais distantes. A vida de rotina apertava cada vez mais o pescoço da grande menina loura. Um dia, ela sentou-se em frente à janela, sem mais poder com os próprios desejos frustrados. Foi num desses dias tão comuns para muita gente, onde já não se espera nada, não se pede nada e finge-se não ser nada enquanto inerte, vê-se o domingo chegar. De tantos nadas, abriu-se uma pequena fenda em seus pensamentos ocos e um beija-flor saiu a voar, terminando por bicar a janela. Ela deixou-se ficar perdida na contemplação de tão pequena criatura. “Será que sabe o que faz?” pensou, ainda dormindo para a vida. E o animalzinho, que a olhava pensando “Como todos eles, mais uma que espera pra viver”, sentiu pena da moça bonita. Bicou no vidro até que ela prestasse atenção no sol que adormecia. E naquele momento de crepúsculo, naquele instante mágico onde portas são abertas, ela saiu de seu sono cinzento, sabe-se lá por que pensamento; o resto de sol lhe abrilhantou os lábios e a menina grande retomou as rédeas de sua vida: “Dane-se as esperas! As dos outros e as minhas!”.

Em frente ao espelho, que não escondia mais o sorriso verdadeiro, ela se vestiu. Abriu a porta da rua como se nunca mais fosse voltar. E quando menos esperava, encontrou em uma dessas esquinas a sorte que por tanto tempo ficou escondida. Na imagem de um uniforme armado, cheio de significativa proteção, ela encontrou o amor que buscava mas que não conseguiu distinguir até que deixou de sentir pena de si mesma. A história ainda não terminou aqui, por isso não posso dar o final das fábulas, com o qual essa moça, também uma contadora de histórias, tanto sonha. Como deu pra perceber, o cisne dentro dela já começou a se mostrar. E sei também que o casal protagonista desse caso vive a andar muito feliz por aí, espalhando lírios por onde passa. Ela, que antes sentia-se como que largada na vida, hoje senta-se em frente à janela, para contemplar as surpresas que vêem do alto. Sente-se, literalmente, nas alturas, por que agora entende o sentido dessa vida tão maluca. Ele, amante à moda antiga, passa todas as noites em frente ao prédio de sua “Pequena” e no seu beija-flor metálico, entre fachos de luz e giros de hélice, atira-lhe os beijos frescos e cheios pelos quais ela tanto procurou. Eu, que tanto conselho dei, fico feliz cada vez que a encontro. Porque agora, ela é pra mim a prova viva de que na vida as coisas só acontecem quando nada se espera e mesmo assim não perdemos o pôr-do-sol que alimenta nossa vontade de voar.


domingo, 6 de julho de 2008

Flash-back


Henrique Fendrich
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O poeta encontra um caderno velho, meio rasgado, com a capa solta. E fica surpreso, porque pensou que ele já estivesse no lixo há muito tempo. Com a excitação de um cientista maluco, resolve abrir e ler. Só que quando abre o caderno, seu rosto é imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão. O poeta é arremessado ao chão, e só com muito custo consegue se aproximar do caderno novamente. Não sabe mais quanto tempo faz que escreveu. A primeira poesia, inevitavelmente, é uma porcaria. Cheia de versos obscuros que ele não lembra mais o significado. E quando consegue lembrar, não gosta. É um texto patético e nada mais. O poeta se consola com o pensamento de que evoluiu bastante desde que escreveu tamanho lixo. E agradece a Deus por aquele texto não cair na mão do povo e da imprensa, pois poderia acabar com a sua carreira.
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Com olhar concentrado, o poeta vai percorrendo todas as páginas. Não há dúvidas que é a sua letra, mas ele não quer acreditar que tenha sido capaz de parir aquelas poesias. Percebe, desesperado, que tudo aquilo que escreveu já morreu. Exaltou a casa onde morava, e ela já foi demolida. Falava de sua cidade, e nunca mais teve tempo de voltar lá. Nunca mais soube nada dos seus melhores amigos. As suas poesias estavam repletas de referências a pessoas que sumiram para toda a vida. Que estranho que era, porque ali no papel, materializado numa poesia, parecia que tudo era eterno. E quando escreveu, realmente achava que era. Como era ingênuo! A leitura dava a ilusão de que aqueles sentimentos poderiam ser conseguidos de novo. Mas nunca mais, nunca mais!
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E o poeta de antigamente pensava tão diferente do poeta de hoje! Era muito mais livre no que escrevia. E como era infantil! E como era idiota! Como se deixava levar por emoções que hoje já não teriam nenhum impacto! O poeta de hoje sente vergonha das suas antigas tolices. E ao mesmo tempo, deseja ardentemente voltar a ser tolo. Nunca mais teve chance de ser tolo. E tem ainda as musas... Com um aperto no coração, se lembra das musas que se foram. O poeta está cheio de pensamentos tristes, e percebe que as suas musas provavelmente não são mais puras, e muito menos perfeitas, como ele as descrevia nas suas poesias. Elas já cresceram, já fizeram muitas besteiras, já encheram a cara, já foram grosseiras e indelicadas, já treparam, já fecharam os olhos de prazer, já deram a luz, já receberam uma porção de cantadas, e talvez já tenham pensado em ceder. E nunca mais se lembraram do imbecil que jurou amor eterno numa poesia.
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O poeta não pode mais suportar esses pensamentos. Enlouquecido, começa a rasgar as folhas do caderno e a gritar compulsivamente. Com um isqueiro, resolve fazer um pequeno ritual e colocar fogo em toda a casa. E então o poeta morre, carbonizado pelas chamas do passado.