domingo, 6 de julho de 2008

Flash-back


Henrique Fendrich
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O poeta encontra um caderno velho, meio rasgado, com a capa solta. E fica surpreso, porque pensou que ele já estivesse no lixo há muito tempo. Com a excitação de um cientista maluco, resolve abrir e ler. Só que quando abre o caderno, seu rosto é imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão. O poeta é arremessado ao chão, e só com muito custo consegue se aproximar do caderno novamente. Não sabe mais quanto tempo faz que escreveu. A primeira poesia, inevitavelmente, é uma porcaria. Cheia de versos obscuros que ele não lembra mais o significado. E quando consegue lembrar, não gosta. É um texto patético e nada mais. O poeta se consola com o pensamento de que evoluiu bastante desde que escreveu tamanho lixo. E agradece a Deus por aquele texto não cair na mão do povo e da imprensa, pois poderia acabar com a sua carreira.
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Com olhar concentrado, o poeta vai percorrendo todas as páginas. Não há dúvidas que é a sua letra, mas ele não quer acreditar que tenha sido capaz de parir aquelas poesias. Percebe, desesperado, que tudo aquilo que escreveu já morreu. Exaltou a casa onde morava, e ela já foi demolida. Falava de sua cidade, e nunca mais teve tempo de voltar lá. Nunca mais soube nada dos seus melhores amigos. As suas poesias estavam repletas de referências a pessoas que sumiram para toda a vida. Que estranho que era, porque ali no papel, materializado numa poesia, parecia que tudo era eterno. E quando escreveu, realmente achava que era. Como era ingênuo! A leitura dava a ilusão de que aqueles sentimentos poderiam ser conseguidos de novo. Mas nunca mais, nunca mais!
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E o poeta de antigamente pensava tão diferente do poeta de hoje! Era muito mais livre no que escrevia. E como era infantil! E como era idiota! Como se deixava levar por emoções que hoje já não teriam nenhum impacto! O poeta de hoje sente vergonha das suas antigas tolices. E ao mesmo tempo, deseja ardentemente voltar a ser tolo. Nunca mais teve chance de ser tolo. E tem ainda as musas... Com um aperto no coração, se lembra das musas que se foram. O poeta está cheio de pensamentos tristes, e percebe que as suas musas provavelmente não são mais puras, e muito menos perfeitas, como ele as descrevia nas suas poesias. Elas já cresceram, já fizeram muitas besteiras, já encheram a cara, já foram grosseiras e indelicadas, já treparam, já fecharam os olhos de prazer, já deram a luz, já receberam uma porção de cantadas, e talvez já tenham pensado em ceder. E nunca mais se lembraram do imbecil que jurou amor eterno numa poesia.
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O poeta não pode mais suportar esses pensamentos. Enlouquecido, começa a rasgar as folhas do caderno e a gritar compulsivamente. Com um isqueiro, resolve fazer um pequeno ritual e colocar fogo em toda a casa. E então o poeta morre, carbonizado pelas chamas do passado.

3 comentários:

  1. BOQUIABERTA! É talvez a melhor palavra para definir minha leitura dessa crônica!! VocÊ deveria tê-la me mostrado antes pois com certeza seria um dos temas do meu curso de poesia, onde tanto falamos desse ser insondável, desse poeta...

    "Só que quando abre o caderno, seu rosto é imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão."

    Eu também me lembro de um caderno de poesias que tinha e obviamente não existe mais pois acreditei que elas se tornaram "medíocres". Mas afinal, quem ficou medíocre? Minhas poesias ou a minha forma de ver o mundo, se a inocência de uma outra época?
    Enfim, a descrição das musas na crônica ficou perfeita... elas vivem e sobrevivem como qualquer um de nós. Resta ao poeta morrer entre os escombros daquilo que julgou como mundo. E depois você diz que não sabe poetar em prosa!!
    Palmas de pé!!!

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  2. Caro Henrique,

    Maravilhosa sua crônica! Embora, nunca com a maestria com a qual vc e Marina escrevem, houve um longo tempo em que me aventurei em escrever alguns poemas e crônicas. Naquele tempo eu deixava os sentimentos transcorrerem do peito aos dedos até se materializarem por meio da escrita numa folha de papel... Escrever era uma forma de me sentir aliviado, de dizer algo que eu não tinha coragem, ou de falar sem que as palavras embotassem.
    Mas, porque lhe conto isso? Para dizer o quanto me identifiquei com sua crônica, nas últimas semanas ao separar para queimar como rito de passagem todo material juntado durante cinco longos anos de curso, reencontrei meus poemas, crônicas, rascunhos de cartas de amor. Coisas escritas há mais de 5, 6, 7 anos, ou até mais, havia tbm coisas mais recentes. Ao me deparar com tudo isso os sentimentos foram exatamente os narrados por vc em sua crônica, isto em relação a mim, a minha ingenuidade e a de minhas antigas musas, os achei em gde maioria extremante ridículos!
    Por fim, consegui atear fogo em tudo. Aí, enquanto via a chama crepitar, queimando toda aquela papelada, inclusive os poemas, refleti sobre os meus sentimentos, sobre o quanto mudei... Confesso, que até agora não sobre qual ótica é melhor ver o mundo, a de hoje, ou a de outrora!

    Parabéns!!

    Abraços.

    Jorge

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  3. Meu caro, ao comentar eu quis dizer que achei os meus poemas ridículos! Melhor esclarecer, pq o meu comentário dá margem para interpretação diversa.
    Abç!
    Jorge

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