domingo, 13 de julho de 2008

Nas alturas


Da série: "O Namorado da minha amiga".


Marina Costa


Toda vida ela se sentiu meio deixada de “lado”. A história do “Patinho Feio” sempre lhe fazia chorar. Nunca acreditou no potencial que todos viam mas que o espelho insistia em esconder. A frescura da maçã ainda estava na sua face, mas insistia em sentir-se velha demais, ultrapassada demais, solitária demais. E tentava correr contra o que não pode parar, buscando algo que nem ela mesma sabia se queria encontrar, mas agindo como todo mundo achava que a vida devia ser. Às vezes penso que o mal do mundo são os palpites que damos na vida dos outros. Mas vai botar isso na cabeça da sociedade... Ela era mais uma, entre tantos os que acreditam nesse fato, que pensava ser a vida resumida em três substantivos (os quais ninguém nem percebe como são abstratos): realização, estabilidade e dinheiro. Não necessariamente nessa mesma sucessão dolorida. Por mais que tudo desse certo, ela sempre se angustiava. Os outros diziam que ela era um sucesso mas a mulher se achava pouco e não acreditava. Assim a vida escorria entre risos e lágrimas, e por vezes quase acabava em alguns copos de cerveja quente.

Tinha o costume de pedir conselhos e ouvia atentamente aquele esoterismo de boteco. Sabia aonde devia chegar mas como queria correr mais do que as próprias pernas longas, tropeçava por vezes e ficava com mais alguns arranhões, que não contribuíam para melhorar o que quer que fosse. Além de tudo, tinha a mania, tão em voga nesses dias, de criar ilusões para si, vivendo a encontrar amores eternos em cada homem, por mais subalterno que fosse o pobre. Não era sua culpa. Deles talvez, os homens nem sempre são tão inocentes quanto querem parecer. Então, quando mais uma história terminava, o vazio aparecia de novo e só restava a responsabilidade que ninguém tinha mas que à ela nunca faltava. Afogava-se em obrigações e deixava os sonhos ficarem mais distantes. A vida de rotina apertava cada vez mais o pescoço da grande menina loura. Um dia, ela sentou-se em frente à janela, sem mais poder com os próprios desejos frustrados. Foi num desses dias tão comuns para muita gente, onde já não se espera nada, não se pede nada e finge-se não ser nada enquanto inerte, vê-se o domingo chegar. De tantos nadas, abriu-se uma pequena fenda em seus pensamentos ocos e um beija-flor saiu a voar, terminando por bicar a janela. Ela deixou-se ficar perdida na contemplação de tão pequena criatura. “Será que sabe o que faz?” pensou, ainda dormindo para a vida. E o animalzinho, que a olhava pensando “Como todos eles, mais uma que espera pra viver”, sentiu pena da moça bonita. Bicou no vidro até que ela prestasse atenção no sol que adormecia. E naquele momento de crepúsculo, naquele instante mágico onde portas são abertas, ela saiu de seu sono cinzento, sabe-se lá por que pensamento; o resto de sol lhe abrilhantou os lábios e a menina grande retomou as rédeas de sua vida: “Dane-se as esperas! As dos outros e as minhas!”.

Em frente ao espelho, que não escondia mais o sorriso verdadeiro, ela se vestiu. Abriu a porta da rua como se nunca mais fosse voltar. E quando menos esperava, encontrou em uma dessas esquinas a sorte que por tanto tempo ficou escondida. Na imagem de um uniforme armado, cheio de significativa proteção, ela encontrou o amor que buscava mas que não conseguiu distinguir até que deixou de sentir pena de si mesma. A história ainda não terminou aqui, por isso não posso dar o final das fábulas, com o qual essa moça, também uma contadora de histórias, tanto sonha. Como deu pra perceber, o cisne dentro dela já começou a se mostrar. E sei também que o casal protagonista desse caso vive a andar muito feliz por aí, espalhando lírios por onde passa. Ela, que antes sentia-se como que largada na vida, hoje senta-se em frente à janela, para contemplar as surpresas que vêem do alto. Sente-se, literalmente, nas alturas, por que agora entende o sentido dessa vida tão maluca. Ele, amante à moda antiga, passa todas as noites em frente ao prédio de sua “Pequena” e no seu beija-flor metálico, entre fachos de luz e giros de hélice, atira-lhe os beijos frescos e cheios pelos quais ela tanto procurou. Eu, que tanto conselho dei, fico feliz cada vez que a encontro. Porque agora, ela é pra mim a prova viva de que na vida as coisas só acontecem quando nada se espera e mesmo assim não perdemos o pôr-do-sol que alimenta nossa vontade de voar.


4 comentários:

  1. A vida amorosa é um prato cheio pras criações literárias. Acho que também tenho um pouco da sua amiga, o que explicaria o fiasco da minha vida amorosa haha.. O problema é que pensamos demais! Pensamos tanto que, certamente, deixamos passar ótimas oportunidades, apenas porque não soubemos nos entregar ao instante, não estávamos dispostos o suficiente. Os coselhos, os "esoterismos de botecos", normalmente só são pedidos para confirmar o que já sabemos. Prova disso é que quando a pessoa não concorda com eles, logo tenta rebater rs.. Mas é realmente uma delícia quando se encontra algo onde menos se espera. A surpresa é divina, e só confirma a opinião de que nos preocupamos à toa.

    Vc mostrou à sua amiga? Quantas crônicas já tem essa série? haha.. É interessante ver também como nos envolvemos com as situações vivenciadas pelos outros.

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  2. Ei Rike! Mostrei sim, ela adorou a crônica! A série tem mts já, até pq as amigas ficam, os namorados mudam, hehehhehehe...
    Agora quanto a sua vida amorosa ser um fiasco, bem, digamos que é questão de ver um pôr do sol da janela certa...
    Abraço!

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