domingo, 20 de julho de 2008

Um Caso Às Minhas Leitoras

Admito que acontecem coisas várias na minha vida. Algumas poucas são realmente extraordinárias e mereceriam, de fato, ser transformadas em um texto – obrigação da qual eu não me furtei, naturalmente. Mas a grande parte delas são tão banais que semelhante destino só se tornaria válido na pena de um grande cronista. Como não é esse o caso, temos como resultado uma escrita truncada que não consegue traduzir a beleza do acontecimento, e que, para quem lê, parece mero devaneio intelectual. Vem daí a reclamação das minhas leitoras, para quem a minha vida só é de interesse na medida em que encontra ressonância nas suas próprias.
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Mas ora bolas, eu não resisto e contarei outra vez um caso desprovido de qualquer interesse universal. É, acima de tudo, um caso que só diz respeito a mim, como tantos outros de que já me ocupei. Mas ei! Nada de resmungos. A senhora leitora certamente poderá encontrar, sem grande dificuldade, muitos cronistas ágeis que acompanham o noticiário com um bloco de notas em mãos, prontos para captar qualquer manifestação do comportamento humano que possa servir de mote às suas crônicas. Observadores argutos dos movimentos sociais, eles mergulham com espantosa avidez nos fatos do noticiário, e em seus textos a leitora poderá encontrar a universalidade, a atualidade, a opinião, e uma porção de valores que não costumo preservar nas minhas crônicas.
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Ainda assim, há uma parcela de leitoras que se atém ao suposto lirismo e tom poético que busco empregar no que escrevo e, para elas, os acontecimentos de que me ocupo, mesmo que particulares, mesmo que banais, e mesmo que mal abordados, são capazes de encontrar uma existência menos falaz. Duram, de fato, o tempo suficiente para serem esquecidos – coisa diferente eu não poderia esperar de uma crônica. É para essas leitoras que enuncio o caso de hoje. Aproveito para esclarecer que se pareço privilegiar determinados públicos, é pela simples razão de que não espero ser lido por homens. De fato, creio que jamais dirigi a palavra a eles em meus textos. À parede, várias vezes. Aos homens, jamais.
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Dito tudo isso, é bom que não nos alonguemos demais, pois embora as pacientes leitoras costumem ter mais tempo para o vício da leitura, não quero que deixem de cuidar de seus afazeres mais imediatos por conta de tão pouca coisa, como é o caso que prometi contar-lhes hoje. E também não quero que me larguem aqui, escrevendo à toa. O acontecimento de hoje é outro caso romanesco, destes que sei serem os favoritos das leitoras.
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Acreditem vocês que eu estava em um supermercado, fazendo as necessárias compras da semana, e me deparei com uma moça, entre tantas que por lá havia. E que, aos passarmos um pelo outro, trocamos olhares de análise, para ver se éramos merecedores de maior contemplação. Às leitoras mais exaltadas, esclareço que não estou comprometido no momento, e penso não ser esse também o caso da distinta dama. E nos contemplamos rapidamente, para só então voltarmos às compras e esquecermos um do outro.
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Não sei se vocês acreditam em coincidências, mas eu, não lembrando da moça, ainda me deparei com ela quatro vezes, em meio a multidão geral. E verdade seja dita, a fim de preservar a discrição daquela mulher: não houve mais nenhum olhar da sua parte. Da minha houve, naturalmente. Já pensando que ela devia ter farejado o cronista que havia em mim e tratado de escapar, deixo-a de lado e pago minhas mercadorias, entro no meu carro e apresso-me para sair - homem que sou, vivo apressado. Mas eis que... atenção, minha senhora, pois é nesse momento que entra o relato poético que tanto aprecia. Deixai o que mais estiveres fazendo e venha cá para o aconchego dessa crônica. Vou até iniciar um novo parágrafo, pois creio que o fato merece, além de elevar o grau de suspense.
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Eis que, de dentro do carro, eu a vejo pela quinta vez. Está lá fora também, acompanhada de pessoas que devem ser da sua família. Mas está sozinha, e também me vê. E dessa vez, quando percebe que estou saindo e se dá conta que nunca mais voltaremos a nos ver, lança um novo olhar para mim. Imediatamente, faço o mesmo. E por alguns segundos... um, dois, três, quatro, cinco. Aí está. Por alguns segundos, ficamos olhando um para o outro, sem desviar o olhar em nenhum momento. E era um olhar cheio de ternura, cheio de dor, cheio de vergonha por ser o último e por nada ter acontecido. Desperdiçamos, pois, uma nova chance de sermos plenos, jogamos fora uma provável felicidade. Era preciso ir pra casa, era preciso matar o sentimento passageiro de esperança, sufocar o desejo de amor que não se realizou porque não houve tempo. Porque não houve tempo... E assim foi feito.
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Aí está o caso de hoje. Sei que muitas vezes a leitora prefere o final feliz, mas que posso fazer? Mentir é que não posso, isso é lá com os poetas. Também não creio que o caso tenha despertado muita emoção, mas eu havia feito uma série de ressalvas já no começo da crônica, então não há do que reclamar. Elogios não me trarão de volta aquela moça, não nos darão mais tempo e não me farão mais feliz. Críticas não apagarão aquele último olhar e não me farão dar menos importância ao acontecido. É um caso tão particular e tão especial que seria melhor eu não ter escrito nada. Mas ora bolas, eu não resisto.
Henrique Fendrich

7 comentários:

  1. O texto é doido demais pra eu conseguir escolher uma foto! rs...

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  2. Caro Henrique,

    Em pese o texto ser dirigido às leitoras, não me constranjo em comentá-lo. Rsrs...
    Realmente, não costuma dirigir a palavra ao público masculino, tenho de concordar que isto verdade! Porém, não sei, se pra sua insatisfação, decepção, descontentamento, ou apenas, espanto, mas confesso que sou leitor assíduo seu e da Mari, acompanho vc’s! Mesmo, preferindo dirigir palavras às paredes, mas ao homens, jamais... rsr..Ainda assim, continuarei lendo vc’s !
    Gde Abc!
    Jorge

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  3. Grande Jorge, agradeço a sua leitura! Na verdade, a parte de eu me dirigir às paredes e aos homens jamais, é apenas uma brincadeira hehe.. uma doce ironia!

    abraços!

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  4. Dois comentarios p fazer (sem acentuacao, teclado diferente, aff): primeiro, eis que vemos a ponta da pena de Machado, quando vc interage com os leitores, digamos as leitoras, e isso torna o texto muito vivo. Segundo, acredita que essa semana escreveria tb sobre esses amores de uma vida em um olhar??? Tava pensando nisso e e um tema fantastico! E vc conseguiu traduzir muito do que pensei! Vou ter aonde me apoiar, hahahha! No mais, final feliz ou nao, eu adorei a cronica, singela e real acima de tudo... Oh, como e real!!

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  5. Mariii! É Machado puro, mas acho que é mto Alencar também! Estou lendo as crônicas dele, e aquela ironia que a gente tanto destaca no Machado já aparecia nos textos alencarianos em 1854 =D..

    No caso em questão, a ironia foi pra disfarçar minha frustação hauhauah.. aaaaah, quero ver o seu =D

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  6. Ta aí... dois ícones... e dizem que existe a modernidade... a gente acaba sempre fazendo uma releitura do que já fizeram lá atrás...
    Assim que escrever publico!!
    Pode até ser escondendo a frustração mas eu achei de uma doçura linda...
    (ai, meninas...) ;P

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  7. hahaha.. as meninas não querem os escritores =/

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