domingo, 31 de agosto de 2008

A Pequena


Henrique Fendrich
Era noite de reveillon, e eu estava reunido em meio a uma multidão de gente que eu não conhecia, incluindo a minha namorada. O que não impediu que nos abraçássemos todos efusivamente quando o relógio anunciou doze horas. Afinal, é nessa hora que a gente rasga todos os calendários do ano anterior, perdoamos todas as dívidas, desejamos todas as bem-aventuranças, fazemos todas as promessas, e acreditamos em todas as mudanças de comportamento.
.
Fogos de artifício coloriam o céu e exigiam toda a nossa atenção, impedindo qualquer conversa mais prolongada. O momento pedia uma fotografia, ela me disse. Mas uma fotografia, meu amor, é um instante que morreu. Um instante que a gente mata. Se a gente se preocupar mais em matar o instante, é capaz de nem aproveitar o momento em que ele acontece. Eu coloco mais vinho, você coloca também. Eu queria ficar alto, eu suspeitava que os fogos anunciavam a nossa separação.
.
Quando a gente se olhou e se abraçou, você falou “Tudo de lindo pra você”. Eu falei alguma coisa parecida, e nada mudou. Eu até pensei em falar mais alguma coisa, algo que te deixasse ainda mais bonita e alegre. Mas o barulho dos foguetes era alto demais, e você provavelmente não iria entender. Então pediria pra eu repetir. Eu tentaria dizer de novo, mas me atrapalharia, não usaria as palavras certas, e você continuaria sem entender. A gente se cala e olha pro céu, que é o melhor que a gente pode fazer.
.
Um senhor chega até mim e me cumprimenta. Não sei quem era, e nunca mais o verei. Eu queria que fosse como na noite anterior, quando o mundo todo era nós dois. Estar de pijama, usar chinelo. E principalmente, ficarmos colados, em plena sala de estar. Sabe, é uma injustiça que seu corpo trigueiro não faça parte de nenhuma Escola de Samba. É uma tristeza maior ainda que eu não diga essas coisas pra você nessa noite, nem em noite alguma, meu amor. Mas hoje é reveillon, finjamos que todas as coisas mudarão para melhor. Aproveitemos os cachos de uva, cantemos as músicas que o seu irmão toca no violão. E que a gente ria, sempre, sempre.
.
Pensando melhor, agora já acho uma boa idéia tirar uma fotografia desse instante. Congelar os momentos que interessam, e esquecer os tristes. No máximo, avançar um pouco até o momento em que o seus lábios deixaram nova marca na minha boca. E depois, quando eu fiquei brincando com as suas mãos, feito bobo, balançando pra lá e pra cá, e você deixou tudo. Como se ainda houvesse esperança, você deixou tudo. Você é muita boa, sabe.
.
Congelemos portanto uma imagem dessa noite de reveillon. Para deixar registrado o instante em que ainda acreditamos em ilusões. Quando tudo é motivo de paz e esperança, quando a gente apenas sorri, e deseja com toda a sinceridade tudo de lindo para o outro. Sem saber que não ficaremos mais colados. Sem saber que algum tempo depois iremos brigar por causa de uma banalidade, que iremos dizer coisas feias, que vamos chorar, que vamos esquecer o que houve de bom, e que ganharemos algumas rugas a mais.
.
Tiremos, pois, uma foto!

domingo, 24 de agosto de 2008

Morena


Marina Costa

É morena, o cantor diz que está tudo bem e te chama de serena. Mas por trás desse rosto passivo, escorre lava e pedras explodem, contidas pelo germe da boa educação.

O mundo continua girando e levando quem já cumpriu seu tempo e você segue chorando por tudo que sabe não ter remédio. O fardo é pesado mas ai daquele que te mandar descansar. Sua bondade de mártir te dá forças, mesmo que falsas, para continuar a andar.

É morena, chega uma hora na vida que é preciso decidir. Deixar o outro escolher por você não quer dizer diplomacia mesmo que seja o que sua mente condicionada quer te fazer acreditar. Busque o seu caminho pela sua vontade. Diz a lenda que quem se deixa levar acaba ficando invisível, perdido na floresta do nada...

Levanta dessa cama e abre o vidro da janela. Não tem problema se a chuva entrar. Tudo um dia seca. E se alguém reclamar, deixa falar... ou você acha que o mundo segue essas nossas regras contidas?

A vida passa, morena, e você insiste em não querer deixar marcas. Não quer ser citada, não quer ser lembrada, não quer se mostrar. Página em branco, sem margens nem linhas, só existindo por insistência da criação. Não é desperdício não?

Tenta acordar se sentindo linda. Achando que fala a língua do vento, que ouve as histórias das árvores velhas. Beije aquele menino com brilho no olhar. Lambuze a boca de chocolate, fale coisas impensadas, só para rir de si mesma.

O tempo vai passar morena, e todo o riso vai ser esquecido. Seus sonhos e desejos não serão mais que memória empoeirada. Mas o que você pode sentir, morena, isso vai seguir por aí. Inspirando outras meninas que como você tinham medo de viver.

domingo, 17 de agosto de 2008

O Barbeiro


Henrique Fendrich
Há um barbeiro, pois de vez em quando eles existem. E ele não faz outra coisa da vida há mais de meio século. Mas ora, os barbeiros estão em baixa no mercado. Em pouco tempo, se transformarão em peças de museu. A tendência mundial é, naturalmente, relegar esses profissionais antiquados a um merecido esquecimento. Isso porque hoje temos modernos salões de beleza, muito mais atrativos para as nossas vaidades. E além do mais, com tanta tecnologia, já é possível fazer a barba sem sair de casa. De modo que a profissão de barbeiro se tornou de pouca utilidade.
.
Por isso, o barbeiro não consegue mais aumentar sua clientela. Tem os mesmos fregueses há várias décadas. Gente que começou a ir à barbearia ainda criança, em companhia do pai, e que continua indo depois de grande, pra manter a tradição. E pra poder conversar com o barbeiro sobre as suas coisas, pois ele é sempre um bom ouvinte. Além do mais, também o barbeiro deve ter, necessariamente, histórias muito curiosas que precisa contar a alguém.
.
Mas essas pessoas estão ficando cada vez mais raras. O barbeiro observa com tristeza que sua clientela está cada vez menor. Ele constata que as pessoas, depois de certo tempo, acabam morrendo. Todo ano, cerca de 15 clientes fiéis de sua barbearia partem dessa para melhor. Obviamente, esse número não será nunca reposto. Sua profissão é uma contagem regressiva, até o momento em que todos os seus antigos e fiéis amigos estejam mortos. Então, o barbeiro não terá mais o que fazer e sua vida terminará. Ou talvez ele morra antes, e então os clientes precisão fazer a barba por conta própria, ou entrar de uma vez por todas no mundo moderno.
.
Se o barbeiro tiver honrado os nobres preceitos da barbearia enquanto esteve por aqui, ele poderá, como recompensa por toda a eternidade, fazer a longa e branca barba de São Pedro. Que, cá entre nós, bem que está precisando.

domingo, 10 de agosto de 2008

Alívio


Marina Costa

Estava cega. A obsessão pela vida de ilusões me deixou em um estado de inércia, sem conseguir lutar contra as adversidades impostas depois que parti desse mundo irreal. Me acho merecedora dos castigos que recebo e sofro embora lamentando as punições que armei para meu espírito fraco. Enquanto era consciente de meus atos eu julguei, condenei, ignorei, estipulei modos de viver, agi com vários pesos, várias medidas. E agora, me recolho à minha posição, de quem deve sofrer para expurgar seus próprios pecados, valores corrompidos. O calor da culpa derrete minha pele, corrói meus ossos mas purifica minha alma e por isso é bom. Minhas lágrimas secam antes mesmo de cair pelo meu rosto e me sinto indigna até de chorar ao reconhecer que por muito tempo errei. Busquei o que enfrento agora, colho o que plantei. Mesmo ciente de como procurei pelas atrofiações do mundo, sinto um pouco de pena de mim. Viver aqui é pior do que jamais alguém poderia imaginar. Não há inferno inventado que se compare a este lugar, o poço de remorsos do ser humano, onde não há nada de claro, de límpido, de puro. Apenas solidão, culpa, choro e ranger. O Pai, sei que errei e que mereço sofrer. Mas agora, do fundo de mim que se envergonha de pensar que sou tua imagem, eu me arrependo de meu viver imponente. Me arrependo de meu orgulho e prepotência, de minhas omissões, de meu escárnio. Tenho nojo de meus pré-julgamentos, de meus preconceitos, de minhas manipulações. Não peço perdão, pois talvez não mereça. Só quero me dissolver e acabar com essa consciência do nefasto interior que me consome.

Nesse momento, consigo chorar, pois por mim e não por uma imagem para exteriorar, me purifiquei. Me sinto em paz comigo. Reconheço que errei e meu choro limpa a culpa. Consigo respirar menos sufocada pelo enxofre de meus pensamentos sombrios. E aos poucos a paz que há tempos tanto busco vai inundando meu coração. Consigo sorrir e agradecer a algo que sei que me ouviu. Entendo nesse momento o que é piedade e sei que alguém sentiu compaixão por mim. Uma brisa leve começa a soprar em meu rosto. O calor, que tanto me martirizava aos poucos vai se abrandando, meus pés já não parecem pisar sobre brasa, meu sangue começa a correr mais fresco por minhas veias. Então me preparo para a dissolução, a total ausência de ego, o simples nada ser, nada ouvir, escuridão do universo em potencial. As sensações não param. Penso, amedrontada, que meu sofrimento será ampliado, que minha culpa ainda não foi expurgada. De cabeça baixa, ouço o piar de um pássaro e ainda com medo, abro os olhos devagar. A luz me cega por momentos mas volto a enxergar agora como um ser criado por algo divino. Vejo flores, ouço ao longe uma queda d’água, vejo crianças, a personificação da inocência perdida. Não consigo me conter e caio de joelhos na grama verde, chorando convulsivamente. Anjos sem asas vem me consolar. Seus sorrisos suprimem as palavras e entendo que fui perdoada. Em primeiro lugar por mim mesma pois venci minhas próprias distorções. Me levanto, ainda amparada. Respiro o ar fresco desse lugar magnífico que supera qualquer idealização de céu. Meus olhos são pequenos para abarcar tanta harmonia. Encho meu peito de ar puro, de paz diluída, de amor expirado. E, finalmente, começo a andar para o lado certo, seguindo o rumo do sol, com o coração cheio de esperanças de que, como eu, outros sintam o alívio de recomeçarem a viver sem o peso de suas próprias ambições.

Ao amigo Mike, os agradecimentos por incitar a idéia dessa crônica...

domingo, 3 de agosto de 2008

Isadora Sorri

É uma casa sem graça, mas é nossa, e Isadora sorri. A paisagem é esplêndida para os otimistas, e profundamente triste para os melancólicos. Faz pouco tempo que nos mudamos, e na viagem perdemos muitas coisas, coisas que nunca mais vamos encontrar. Iremos remexer em todas as caixas, mas jamais encontraremos todos os afetos que matamos suavemente. Mas o mundo é feito de novidades, e Isadora sorri.
.
Depois de muito trabalho, nossa casa nova já está apta a abrigar duas pessoas, e até a receber visitas. Os móveis foram pacientemente divididos entre as paredes, e só permaneceram quietos depois de muita reflexão. Há uma série de estratégias na divisão dos móveis pela casa. Quem se encarregou dessa penosa tarefa foi Isadora e o outro.
.
O outro é aquela pessoa que não vemos, mas que sempre está presente, dando palpites inconscientes, e nos censurando quando fazemos alguma coisa não esperada. Quando Isadora escolhe o lugar do sofá, além de obedecer aos seus próprios critérios, está pensando no outro e no que ele irá achar dessa escolha. Conformado, cabe a mim apenas o esforço físico, e deixo que a dupla decida em paz.
.
No nosso primeiro domingo, esperamos uma visita agradável, a quem apresentaremos todos os cômodos, e diremos que ainda estamos ajeitando as coisas. Ouviremos que está tudo muito bonito, e nos darão parabéns. Em seguida, sentaremos pela primeira vez na nossa sala de visitas. Vamos conversar e serviremos um lanche, um café, uma cerveja, alguma coisa para receber bem a primeira visita da nossa casa tão sem graça.
.
Eles ainda não chegaram, e Isadora, a rainha da nossa casa, percorre a sala e os quartos com visível nervosismo. Quer ter a certeza de que tudo está no seu devido lugar. Ela pára diante de um quadro na parede, que parece estar torto, e se inclina para ajeitá-lo. E Isadora sorri quando escuta a campainha tocar. Ajeita o cabelo moreno, tão lindo, e então caminha até a porta.
Henrique Fendrich