domingo, 10 de agosto de 2008

Alívio


Marina Costa

Estava cega. A obsessão pela vida de ilusões me deixou em um estado de inércia, sem conseguir lutar contra as adversidades impostas depois que parti desse mundo irreal. Me acho merecedora dos castigos que recebo e sofro embora lamentando as punições que armei para meu espírito fraco. Enquanto era consciente de meus atos eu julguei, condenei, ignorei, estipulei modos de viver, agi com vários pesos, várias medidas. E agora, me recolho à minha posição, de quem deve sofrer para expurgar seus próprios pecados, valores corrompidos. O calor da culpa derrete minha pele, corrói meus ossos mas purifica minha alma e por isso é bom. Minhas lágrimas secam antes mesmo de cair pelo meu rosto e me sinto indigna até de chorar ao reconhecer que por muito tempo errei. Busquei o que enfrento agora, colho o que plantei. Mesmo ciente de como procurei pelas atrofiações do mundo, sinto um pouco de pena de mim. Viver aqui é pior do que jamais alguém poderia imaginar. Não há inferno inventado que se compare a este lugar, o poço de remorsos do ser humano, onde não há nada de claro, de límpido, de puro. Apenas solidão, culpa, choro e ranger. O Pai, sei que errei e que mereço sofrer. Mas agora, do fundo de mim que se envergonha de pensar que sou tua imagem, eu me arrependo de meu viver imponente. Me arrependo de meu orgulho e prepotência, de minhas omissões, de meu escárnio. Tenho nojo de meus pré-julgamentos, de meus preconceitos, de minhas manipulações. Não peço perdão, pois talvez não mereça. Só quero me dissolver e acabar com essa consciência do nefasto interior que me consome.

Nesse momento, consigo chorar, pois por mim e não por uma imagem para exteriorar, me purifiquei. Me sinto em paz comigo. Reconheço que errei e meu choro limpa a culpa. Consigo respirar menos sufocada pelo enxofre de meus pensamentos sombrios. E aos poucos a paz que há tempos tanto busco vai inundando meu coração. Consigo sorrir e agradecer a algo que sei que me ouviu. Entendo nesse momento o que é piedade e sei que alguém sentiu compaixão por mim. Uma brisa leve começa a soprar em meu rosto. O calor, que tanto me martirizava aos poucos vai se abrandando, meus pés já não parecem pisar sobre brasa, meu sangue começa a correr mais fresco por minhas veias. Então me preparo para a dissolução, a total ausência de ego, o simples nada ser, nada ouvir, escuridão do universo em potencial. As sensações não param. Penso, amedrontada, que meu sofrimento será ampliado, que minha culpa ainda não foi expurgada. De cabeça baixa, ouço o piar de um pássaro e ainda com medo, abro os olhos devagar. A luz me cega por momentos mas volto a enxergar agora como um ser criado por algo divino. Vejo flores, ouço ao longe uma queda d’água, vejo crianças, a personificação da inocência perdida. Não consigo me conter e caio de joelhos na grama verde, chorando convulsivamente. Anjos sem asas vem me consolar. Seus sorrisos suprimem as palavras e entendo que fui perdoada. Em primeiro lugar por mim mesma pois venci minhas próprias distorções. Me levanto, ainda amparada. Respiro o ar fresco desse lugar magnífico que supera qualquer idealização de céu. Meus olhos são pequenos para abarcar tanta harmonia. Encho meu peito de ar puro, de paz diluída, de amor expirado. E, finalmente, começo a andar para o lado certo, seguindo o rumo do sol, com o coração cheio de esperanças de que, como eu, outros sintam o alívio de recomeçarem a viver sem o peso de suas próprias ambições.

Ao amigo Mike, os agradecimentos por incitar a idéia dessa crônica...

2 comentários:

  1. Minha cara Clarice das Minas Gerais, cada frase dessa sua crônica poderia ser lida de uma maneira isolada, e que ainda assim ficaria cheia de significados - todos dolorosos, é verdade. Lidas em seqüência, com sentimentos à flor da pele, cria-se uma sensação desesperadora, uma angústia sem solução, a sensação de que estamos mexendo em muitas feridas que queremos esquecer. Mesmo o alívio, o choro que purifica e que faz com que se sinta perdoado, parece extremamente triste. Caem gotas de solidão, culpa, choro e ranger, e elas respingam no leitor. E então eu me pergunto se de fato, quando conseguimos passar a caminhar pro lado certo, ou se apenas acreditamos nisso para sofrer um pouco menos.

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  2. Sem palavras para o elogio que recebi... Clarice das Minas já é a maior honra que posso ouvir durante toda minha carreira literária (seja ela curta ou não). No mais, é engraçado porque escrevi a crônica movida pelo desafio, a idéia do amigo Mike sobre fazer algo como céu e inferno... E saiu num momento de tranquilidade... É, nós escritores vivemos em muitos mundos...
    E sobre o o caminhar do lado certo ou sofrer menos... bem, é muito mais complexo do que eu posso tentar escrever!!

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