domingo, 3 de agosto de 2008

Isadora Sorri

É uma casa sem graça, mas é nossa, e Isadora sorri. A paisagem é esplêndida para os otimistas, e profundamente triste para os melancólicos. Faz pouco tempo que nos mudamos, e na viagem perdemos muitas coisas, coisas que nunca mais vamos encontrar. Iremos remexer em todas as caixas, mas jamais encontraremos todos os afetos que matamos suavemente. Mas o mundo é feito de novidades, e Isadora sorri.
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Depois de muito trabalho, nossa casa nova já está apta a abrigar duas pessoas, e até a receber visitas. Os móveis foram pacientemente divididos entre as paredes, e só permaneceram quietos depois de muita reflexão. Há uma série de estratégias na divisão dos móveis pela casa. Quem se encarregou dessa penosa tarefa foi Isadora e o outro.
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O outro é aquela pessoa que não vemos, mas que sempre está presente, dando palpites inconscientes, e nos censurando quando fazemos alguma coisa não esperada. Quando Isadora escolhe o lugar do sofá, além de obedecer aos seus próprios critérios, está pensando no outro e no que ele irá achar dessa escolha. Conformado, cabe a mim apenas o esforço físico, e deixo que a dupla decida em paz.
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No nosso primeiro domingo, esperamos uma visita agradável, a quem apresentaremos todos os cômodos, e diremos que ainda estamos ajeitando as coisas. Ouviremos que está tudo muito bonito, e nos darão parabéns. Em seguida, sentaremos pela primeira vez na nossa sala de visitas. Vamos conversar e serviremos um lanche, um café, uma cerveja, alguma coisa para receber bem a primeira visita da nossa casa tão sem graça.
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Eles ainda não chegaram, e Isadora, a rainha da nossa casa, percorre a sala e os quartos com visível nervosismo. Quer ter a certeza de que tudo está no seu devido lugar. Ela pára diante de um quadro na parede, que parece estar torto, e se inclina para ajeitá-lo. E Isadora sorri quando escuta a campainha tocar. Ajeita o cabelo moreno, tão lindo, e então caminha até a porta.
Henrique Fendrich

Um comentário:

  1. Que singela! Que comovente... Adoro os retratos simples da vida emoldurados pelas palavras... faz a gente sentir vontade de ser simples... de sentir essa felicidade abundante e gratuita que reside em cada cantinho da vida... Li e reli, para sorrir... É uma crônica dessas que faz bem!

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