domingo, 17 de agosto de 2008

O Barbeiro


Henrique Fendrich
Há um barbeiro, pois de vez em quando eles existem. E ele não faz outra coisa da vida há mais de meio século. Mas ora, os barbeiros estão em baixa no mercado. Em pouco tempo, se transformarão em peças de museu. A tendência mundial é, naturalmente, relegar esses profissionais antiquados a um merecido esquecimento. Isso porque hoje temos modernos salões de beleza, muito mais atrativos para as nossas vaidades. E além do mais, com tanta tecnologia, já é possível fazer a barba sem sair de casa. De modo que a profissão de barbeiro se tornou de pouca utilidade.
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Por isso, o barbeiro não consegue mais aumentar sua clientela. Tem os mesmos fregueses há várias décadas. Gente que começou a ir à barbearia ainda criança, em companhia do pai, e que continua indo depois de grande, pra manter a tradição. E pra poder conversar com o barbeiro sobre as suas coisas, pois ele é sempre um bom ouvinte. Além do mais, também o barbeiro deve ter, necessariamente, histórias muito curiosas que precisa contar a alguém.
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Mas essas pessoas estão ficando cada vez mais raras. O barbeiro observa com tristeza que sua clientela está cada vez menor. Ele constata que as pessoas, depois de certo tempo, acabam morrendo. Todo ano, cerca de 15 clientes fiéis de sua barbearia partem dessa para melhor. Obviamente, esse número não será nunca reposto. Sua profissão é uma contagem regressiva, até o momento em que todos os seus antigos e fiéis amigos estejam mortos. Então, o barbeiro não terá mais o que fazer e sua vida terminará. Ou talvez ele morra antes, e então os clientes precisão fazer a barba por conta própria, ou entrar de uma vez por todas no mundo moderno.
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Se o barbeiro tiver honrado os nobres preceitos da barbearia enquanto esteve por aqui, ele poderá, como recompensa por toda a eternidade, fazer a longa e branca barba de São Pedro. Que, cá entre nós, bem que está precisando.

Um comentário:

  1. Interessante... melancólica e divertida. Penso no Barbeiro... vendo o tempo passar nos clientes que vão e nos que nunca chegam. Uma vez um amigo disse que gostaría de escrever uma história sobre um barbeiro serial killer. Estranho mas nunca esqueci! Sería uma continuação dessa crônica?
    Talvez não. Melhor ele continuar trabalhando nos bons preceitos da profissão e ganhar a honra de fazer a barba branca de São Pedro. Um cliente eterno e regular. Uma vida calma e certa. Como a das boas pessoas simples! :)

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