domingo, 28 de setembro de 2008

As Idéias

Henrique Fendrich
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As idéias se juntam em fila indiana, e pedem a atenção de Isadora. Ela apenas observa, indecisa. Há idéias de todas as cores, tamanhos, credos e times de futebol. Algumas nascem nas páginas de um jornal, ou em um programa de televisão. Outras surgem quando Isadora olha pela janela e observa as pessoas. Ela precisa escolher uma delas e escrever. Decide pegar a primeira idéia da fila. Satisfeita, a idéia se oferece, toda serelepe. Isadora começa a rabiscar. Mas subitamente se decepciona. Aquela idéia não era tudo isso que pensou. Arremessa-a contra a parede. Quando pensa em pegar a próxima da fila, ela percebe que agora todas as idéias se misturaram e se confundiram, e começaram todas a gritar e dizer que são melhores que as outras, que merecem ser colocadas no papel. Isadora escolhe uma, e outra, e mais outra, e não consegue falar sobre elas. Se pudesse, ela não queria escolher. Que houvesse apenas uma única idéia, e que ela fosse totalmente extraordinária, e que ela pudesse escrever o mais belo dos textos sobre ela. Mas há excesso de idéias, e Isadora se confunde. O mundo oferece idéias às pencas, e ela não sabe qual escolher. Desanimada, ela quer desistir e pensar em outra coisa. E só nesse instante é que Isadora se dá conta que sofre. Que é vítima de uma injustiça, ou que ama alguém que não quer saber dela. Que a vida é dura, que o tempo é curto, que o trabalho é árduo e que os sonhos estão distantes. Então o rosto de Isadora se ilumina, e ela joga fora todas as idéias que tinha sobre o mundo. Ora, do mundo e das pessoas ela nada conhecia, ou então conhecia muito pouco, não havia como escrever sobre elas. Mas sabia muito bem de si, mais do que qualquer outra pessoa. Isadora escolhe então as idéias em que foi escolhida.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No Consultório


Da série: "O Namorado da minha amiga".

Marina Costa


Quando ela nasceu seu pai, que esperava um garoto, não resistiu e se derreteu. Mimou tanto a princesinha que ela nunca mais quis saber de outro homem, até conhecer o doutor. Não, ela nunca precisou de médicos. Sempre foi uma menina travessa e vivia ralada nos joelhos. Mas era o orgulho da família: nunca precisou de ir ao médico. Sua saúde sempre foi de ferro e às vezes até fingia que espirrava só para ganhar a atenção dos avós! Todos sabiam que era falso, mas a cobriam de beijos até vê-la correndo novamente.


Um dia, já grandinha, ela foi a um bar, com as amigas. Reparou em um homem que a olhava insistentemente. Começaram a conversar, trocaram telefones e não teve jeito: em uma semana, tinha pego o mais temido e desejado vírus dessa vida, o da paixão. Quando descobriu que sua companhia era um médico, aí que não se segurou mais. Tudo o que não sentira por toda sua vida veio à tona. Calafrios, febres altíssimas, vertigens. Se ele não ligava então aí que caía de cama. Mas bastava o doutor aplicar o remédio (muitos beijinhos durante uma tarde) que ela ficava muito bem de novo, e assim foi por um longo período. Mas aconteceu o previsto. Ele era um homem feito pra cuidar das dores do mundo. E precisou viajar para longe, a fim de continuar entendendo sobre os perigos de estar vivo.


A menina, que esbanjava saúde, caiu em depressão. Tomava remédios como antes chupava balas e bastava passar em frente a um hospital para ter impulsos de se jogar em uma maca. Começou a freqüentar um divã para tentar curar o dito incurável. E conseguiu. Três semanas depois o clínico geral dera lugar ao psicanalista. Foi um tempo bom. Mas ela percebeu que a vida além do divã estava se tornando complexa demais. Ele, não podia ouvi-la dizer que amou um filme tal, para começar a analisá-la sob a ótica de Freud. E ela não suportou esse relacionamento a três.


Resolveu partir para outras áreas. Foi à uma festa de engenharias. Recebeu um presente do acaso e acabou escorregando ao pisar na cauda de seu longo Dior. Todos, ao verem aquela bela mulher ao chão, chegaram para ajudá-la, mas dentre eles apareceu um que se fez mostrar: “Sou médico, deixem-me examiná-la!” Ela desmaiou de emoção. E no dia seguinte almoçou ouvindo, maravilhada, as últimas novidades no campo da neurocirurgia. Mas tal como o discípulo de Freud, esse novo namorado acabou se esgotando. Ele era bonitinho, ela sabia, mas veio com uns papos de se especializar na Inglaterra e antes que ela sofresse demais alegou uma amnésia recente. E esqueceu seu telefone para sempre.


Disposta a abandonar essa vida de pessoa saudável às voltas com médicos em constante mudança, se mudou para uma praia. Lá, trabalhava em uma repartição pública de manhã, nadava à tarde e bebia água de coco à noite. A cidadezinha era um paraíso e há anos não se via um caso sequer de doença. O máximo que acontecia era um ou outro turista trazer uma gripe qualquer que não durava dois dias sobre o sol. “Estou livre deles” – pensava ela. E assim foi. Até o dia em que sentiu uma câimbra no mar. Um surfista, que estava por perto a salvou heroicamente e no instante em que ela, aliviada, olhou seus olhos verdes, agradeceu aos céus por ele estar sob uma prancha e não com um estetoscópio no pescoço. Combinaram de sair. Durante um mês, conversaram, riram, tomaram drinques de laranja. Mas então ele veio com a notícia: “Eu tenho que voltar!”. Ela se desesperou. Mais uma vez. Perguntou por quê e ele respondeu que suas férias, longas depois de 5 anos trabalhando direto, haviam terminado. Convidou-a para acompanhá-lo. E ela, sem pensar duas vezes, seguiu seu coração dessa vez. Pediu as contas, catou as últimas conchas, fez as malas e embarcou, muito feliz e saudável. No avião, ao decolar, perguntou, por distração, o que ele fazia. Ele, orgulhoso de si, respondeu que era cardiologista. Ela, estática, teve ímpetos de se jogar da janela do avião! Mas viu entre as nuvens um anjo sorrindo no céu, entendeu que não há como fugir ao nosso destino e disse para ele que o maior sonho de sua vida era trabalhar em um consultório médico. Assim começou outra história de amor...

domingo, 14 de setembro de 2008

O Coveiro

Henrique Fendrich

A cidade de Lagoinha tem cerca de seis mil habitantes, e um único coveiro. Há três anos, Francisco de Assis Soares trabalha no cemitério local, ganhando um salário mínimo por mês e enterrando os seus conterrâneos, sem fazer distinção de cor, credo, classe social ou time de futebol. Apesar do serviço ser meio morto, ele não se importa em trabalhar de domingo a segunda-feira. Mas tem muita gente que se importa. Pedir para que fique trabalhando em pleno final de semana é abusar demais da boa-vontade do pobre Francisco. Ele precisa descansar, ficar com a família e ter o seu momento de lazer. Foi com essa nobre intenção que a Prefeitura Municipal dispensou o funcionário público do trabalho aos sábados e aos domingos. Em outras palavras: nesses dias não tem coveiro na cidade. Ou, em palavras ainda melhores: nesses dias ninguém pode morrer.

Talvez o ofício tenha feito de Francisco um homem mais cético. É por isso que ele não acreditou na Prefeitura. Um senhor sério e engravatado, que diz ser do Departamento Pessoal do município, assinou um documento dizendo que, na verdade, o coveiro nem fará muita falta, porque as pessoas não têm o hábito de morrer aos finais de semana em Lagoinha. Pois ora, ninguém melhor que Francisco para saber qual a taxa de mortalidade da cidade aos sábados e domingos. E o coveiro diz que é exatamente nesses dias que ocorre a maior parte dos falecimentos! Agora que foi dispensado, todos terão que esperar pacientemente até a segunda-feira. Bolas, o que são dois dias para quem tem a eternidade?
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Francisco conversou com o Sindicato e encontrou uma explicação para a atitude da prefeitura. O coveiro não estava recebendo horas-extras. O Sindicato protestou, movendo uma ação contra o município. E a Justiça do Trabalho procurou fazer justiça ao trabalho, obrigando a Prefeitura a pagar o dinheiro devido a Francisco. O prefeito certamente morreu de raiva com essa punição, e se recusou a pagar. Ora! Gastar tanto dinheiro com um coveiro? Onde já se viu? E foi depois disso que o coveiro recebeu o comunicado dizendo que estava dispensado do trabalho nos fins-de-semana. E como resultado, os cidadãos estão proibidos de morrer durante a folga do coveiro.
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O prefeito nega essa versão até a morte. Diz que ninguém está proibido de morrer aos fins-de-semana em Lagoinha e, aqueles que assim o desejarem, que sintam-se à vontade. E diz ainda que, se for o caso, ele próprio servirá de coveiro nesses dias. O prefeito certamente acha que o trabalho do coveiro é simplesmente arrancar um punhado de terra do chão e jogar um esquife dentro do buraco que for aberto. Francisco diz que não. Homem concursado, diz que não é qualquer um que sabe fazer o serviço. Há uma série de técnicas e, certamente, nem o prefeito, o homem mais poderoso da cidade, saberia realizar o trabalho de Francisco.
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Aguardamos com apreensão um novo comunicado da Prefeitura, avisando ao coveiro que, ele próprio, está terminantemente proibido de morrer, e isso em qualquer dia da semana, e não apenas aos sábados e domingos. Quem é que enterra o coveiro, afinal?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sozinha


Ela chegou mais uma vez exausta. Ainda não entendia porque era preciso se matar de trabalhar enquanto jovem para depois, já velha, poder descansar relativamente tranqüila. Não poderia ser ao contrário? Receber a aposentadoria para só depois quitar a dívida com o INSS? Afinal, infelizmente já tomara conhecimento disso a algum tempo, a velhice é uma época em que nos consideram inúteis trastes rabugentos. Preferia gastar seus anos de descanso enquanto era jovem, enquanto era cortejada e podia contar anedotas sem graça, que faziam todos rir (mesmo que cheios de segundas intenções) por causa do seu charme juvenil. Assim, quando fosse velha, trabalharia como voluntária em um asilo, onde não ganharia mais atenção do que uma cadeira antiga, mas estaria entre mentes igualmente resignadas. Não adianta pensar sobre isso, era dar murros em ponta de faca, como dizia sua mãe. Vai entender esse sistema. Querer discutir em uma sociedade onde só se valoriza o novo é uma grande besteira, que nos dá o depreciador julgamento de idealista. Visionários. E pensar que gente assim não cansa de nascer por aí. Não entendem que é melhor aceitar e labutar como se fosse a única coisa que realmente se devesse fazer na vida.

Desde que começaram a dizer-lhe que já era uma adulta as responsabilidades não paravam de chegar. O que mais lhe entristecia era saber que agora, nunca mais poderia passar uma tarde vendo filmes em frente à TV, comendo biscoito com leite, debaixo das cobertas enquanto o sol esquentava a rua. Férias não contam, são como um desafogo do crachá, duram menos que um piscar de olhos e a sensação de descanso é bem diferente daquela tranqüilidade “vagabunda” do colegial. A menina morena também se lembra com carinho das tardes sem aula, dos deveres por fazer até por volta das seis horas, da bola na rua, dos pés sujos de terra vermelha, dos bons tempos de “Malhação”. Agora, olha triste para seus pés incrivelmente brancos, abandonados, sem resquícios daquele encardido de que tanto se orgulhava. Não resta nada a não ser suspiros. Cansada, se dirige ao banho.

“Você ta aí? Eu quero entrar.” Nem paz tem nessa vida de gente grande. É um tal de preocupar com a irmã, com o gato, o papagaio do vizinho, que não entende a palavra relaxar. Tem um pouco de culpa nessa parte, pois vive achando que pode carregar o mundo nas costas e ai de quem diz o contrário. Talvez a vida, como Kafka, deveria transformá-la em um inseto algum dia, para ver que precisam dela sim mas que não é nada insubstituível. Como diz seu velho pai, o cemitério está cheio de insubstituíveis. E chega uma hora que há alguém mais competente para poder ajudar.

Alta madrugada, quase na hora de levantar outra vez, finalmente adormece. Por vezes sonha com o escritório e toda a papelada que deixou por organizar. Tem pesadelos homéricos onde pilhas de processos a perseguem até a beira de um abismo. Acorda assustada de madrugada, fugindo daquele pandemônio irreal para deparar-se com a bagunça incrivelmente palpável do seu quarto de pensão compartilhado. Nessas horas, pensa em como acostumamos com tudo na vida, seja bom ou ruim. No início tentara manter tudo limpo e organizado, tendo o caos dos outros moradores levado a moça ao extremo da loucura onde reinavam gritos e sérias ameaças de morte. Quando por fim viu que de nada adiantaria lutar com seus esfregões e panos úmidos, decidiu matar realmente, mas ainda não estava sã o bastante para fazê-lo. Deixou-se vencer e via, indiferente, os montes de roupas sujas e poeira ir tomando seu espaço, escarnecendo de sua organização a cada instante. Mais suspiros.Levantou-se para beber uma água na cozinha. Os milhares de copos na pia já não lhe diziam mais respeito, nem os via na verdade. Encostou-se na mesa de jantar e, copo na mão, começou a sonhar acordada com um cantinho branco e limpo onde pudesse viver sozinha.

Uma casinha branca, lá no pé da serra só para ela morar. Seria uma casa sem móveis para não aparentar acúmulo desnecessário. De uma coisa não abria mão: um quarto, o maior de todos, para encher de estantes com livros. Traria flores todos os dias e elas ficariam perfumando os cômodos junto com os incensos sempre acesos e sem ninguém para maldosamente reclamar da “fumaça fedorenta”. Sua coleção de cristais poderia andar pela casa sem receios de tombos e mãos curiosas. E, o melhor de tudo, reinaria ali, em seu território, uma limpeza e organização sem igual. Essa perspectiva até alegrou o semblante desanimado da mulher. E, na expectativa de algo novo, mesmo que pequeno ou inatingível, deitou-se novamente, deixando-se embalar na onda dos sonhos solitários. Eram esses sonhos, tímidos e mirrados (a única coisa que restou de seus gigantescos ideais infantis) que ainda a mantinham acordada a cada outro dia que insistia em vir, monotonamente igual ao anterior.