segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No Consultório


Da série: "O Namorado da minha amiga".

Marina Costa


Quando ela nasceu seu pai, que esperava um garoto, não resistiu e se derreteu. Mimou tanto a princesinha que ela nunca mais quis saber de outro homem, até conhecer o doutor. Não, ela nunca precisou de médicos. Sempre foi uma menina travessa e vivia ralada nos joelhos. Mas era o orgulho da família: nunca precisou de ir ao médico. Sua saúde sempre foi de ferro e às vezes até fingia que espirrava só para ganhar a atenção dos avós! Todos sabiam que era falso, mas a cobriam de beijos até vê-la correndo novamente.


Um dia, já grandinha, ela foi a um bar, com as amigas. Reparou em um homem que a olhava insistentemente. Começaram a conversar, trocaram telefones e não teve jeito: em uma semana, tinha pego o mais temido e desejado vírus dessa vida, o da paixão. Quando descobriu que sua companhia era um médico, aí que não se segurou mais. Tudo o que não sentira por toda sua vida veio à tona. Calafrios, febres altíssimas, vertigens. Se ele não ligava então aí que caía de cama. Mas bastava o doutor aplicar o remédio (muitos beijinhos durante uma tarde) que ela ficava muito bem de novo, e assim foi por um longo período. Mas aconteceu o previsto. Ele era um homem feito pra cuidar das dores do mundo. E precisou viajar para longe, a fim de continuar entendendo sobre os perigos de estar vivo.


A menina, que esbanjava saúde, caiu em depressão. Tomava remédios como antes chupava balas e bastava passar em frente a um hospital para ter impulsos de se jogar em uma maca. Começou a freqüentar um divã para tentar curar o dito incurável. E conseguiu. Três semanas depois o clínico geral dera lugar ao psicanalista. Foi um tempo bom. Mas ela percebeu que a vida além do divã estava se tornando complexa demais. Ele, não podia ouvi-la dizer que amou um filme tal, para começar a analisá-la sob a ótica de Freud. E ela não suportou esse relacionamento a três.


Resolveu partir para outras áreas. Foi à uma festa de engenharias. Recebeu um presente do acaso e acabou escorregando ao pisar na cauda de seu longo Dior. Todos, ao verem aquela bela mulher ao chão, chegaram para ajudá-la, mas dentre eles apareceu um que se fez mostrar: “Sou médico, deixem-me examiná-la!” Ela desmaiou de emoção. E no dia seguinte almoçou ouvindo, maravilhada, as últimas novidades no campo da neurocirurgia. Mas tal como o discípulo de Freud, esse novo namorado acabou se esgotando. Ele era bonitinho, ela sabia, mas veio com uns papos de se especializar na Inglaterra e antes que ela sofresse demais alegou uma amnésia recente. E esqueceu seu telefone para sempre.


Disposta a abandonar essa vida de pessoa saudável às voltas com médicos em constante mudança, se mudou para uma praia. Lá, trabalhava em uma repartição pública de manhã, nadava à tarde e bebia água de coco à noite. A cidadezinha era um paraíso e há anos não se via um caso sequer de doença. O máximo que acontecia era um ou outro turista trazer uma gripe qualquer que não durava dois dias sobre o sol. “Estou livre deles” – pensava ela. E assim foi. Até o dia em que sentiu uma câimbra no mar. Um surfista, que estava por perto a salvou heroicamente e no instante em que ela, aliviada, olhou seus olhos verdes, agradeceu aos céus por ele estar sob uma prancha e não com um estetoscópio no pescoço. Combinaram de sair. Durante um mês, conversaram, riram, tomaram drinques de laranja. Mas então ele veio com a notícia: “Eu tenho que voltar!”. Ela se desesperou. Mais uma vez. Perguntou por quê e ele respondeu que suas férias, longas depois de 5 anos trabalhando direto, haviam terminado. Convidou-a para acompanhá-lo. E ela, sem pensar duas vezes, seguiu seu coração dessa vez. Pediu as contas, catou as últimas conchas, fez as malas e embarcou, muito feliz e saudável. No avião, ao decolar, perguntou, por distração, o que ele fazia. Ele, orgulhoso de si, respondeu que era cardiologista. Ela, estática, teve ímpetos de se jogar da janela do avião! Mas viu entre as nuvens um anjo sorrindo no céu, entendeu que não há como fugir ao nosso destino e disse para ele que o maior sonho de sua vida era trabalhar em um consultório médico. Assim começou outra história de amor...

Um comentário:

  1. Que curiosa essa história! Eu sempre tenho a impressão que algumas coisas "são" para acontecer. E parece ser o caso dessa sua amiga que atrai médicos rs... Não sei se é destino, sorte ou alguma força magnética. Mas essas aparentes coincidências sempre me fascinam. Gostei da parte que fala do relacionamento a três com o Freud haha.. Nessas idas e vindas do coração é que fazemos nossa história, em geral recheada de momentos singelos.

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