domingo, 14 de setembro de 2008

O Coveiro

Henrique Fendrich

A cidade de Lagoinha tem cerca de seis mil habitantes, e um único coveiro. Há três anos, Francisco de Assis Soares trabalha no cemitério local, ganhando um salário mínimo por mês e enterrando os seus conterrâneos, sem fazer distinção de cor, credo, classe social ou time de futebol. Apesar do serviço ser meio morto, ele não se importa em trabalhar de domingo a segunda-feira. Mas tem muita gente que se importa. Pedir para que fique trabalhando em pleno final de semana é abusar demais da boa-vontade do pobre Francisco. Ele precisa descansar, ficar com a família e ter o seu momento de lazer. Foi com essa nobre intenção que a Prefeitura Municipal dispensou o funcionário público do trabalho aos sábados e aos domingos. Em outras palavras: nesses dias não tem coveiro na cidade. Ou, em palavras ainda melhores: nesses dias ninguém pode morrer.

Talvez o ofício tenha feito de Francisco um homem mais cético. É por isso que ele não acreditou na Prefeitura. Um senhor sério e engravatado, que diz ser do Departamento Pessoal do município, assinou um documento dizendo que, na verdade, o coveiro nem fará muita falta, porque as pessoas não têm o hábito de morrer aos finais de semana em Lagoinha. Pois ora, ninguém melhor que Francisco para saber qual a taxa de mortalidade da cidade aos sábados e domingos. E o coveiro diz que é exatamente nesses dias que ocorre a maior parte dos falecimentos! Agora que foi dispensado, todos terão que esperar pacientemente até a segunda-feira. Bolas, o que são dois dias para quem tem a eternidade?
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Francisco conversou com o Sindicato e encontrou uma explicação para a atitude da prefeitura. O coveiro não estava recebendo horas-extras. O Sindicato protestou, movendo uma ação contra o município. E a Justiça do Trabalho procurou fazer justiça ao trabalho, obrigando a Prefeitura a pagar o dinheiro devido a Francisco. O prefeito certamente morreu de raiva com essa punição, e se recusou a pagar. Ora! Gastar tanto dinheiro com um coveiro? Onde já se viu? E foi depois disso que o coveiro recebeu o comunicado dizendo que estava dispensado do trabalho nos fins-de-semana. E como resultado, os cidadãos estão proibidos de morrer durante a folga do coveiro.
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O prefeito nega essa versão até a morte. Diz que ninguém está proibido de morrer aos fins-de-semana em Lagoinha e, aqueles que assim o desejarem, que sintam-se à vontade. E diz ainda que, se for o caso, ele próprio servirá de coveiro nesses dias. O prefeito certamente acha que o trabalho do coveiro é simplesmente arrancar um punhado de terra do chão e jogar um esquife dentro do buraco que for aberto. Francisco diz que não. Homem concursado, diz que não é qualquer um que sabe fazer o serviço. Há uma série de técnicas e, certamente, nem o prefeito, o homem mais poderoso da cidade, saberia realizar o trabalho de Francisco.
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Aguardamos com apreensão um novo comunicado da Prefeitura, avisando ao coveiro que, ele próprio, está terminantemente proibido de morrer, e isso em qualquer dia da semana, e não apenas aos sábados e domingos. Quem é que enterra o coveiro, afinal?

Um comentário:

  1. Francisco de Assis Soares (ironia é pra quem pode), nobre cidadão desconhecido que como 98% da população carrega a cidadezinha nas costas de sua invisibilidade... E a história (que devia durar pelo menos mais cinco parágrafos) se denserola de forma tal a nos mostrar que os vagos ideais "políticos" estão aí, em maior ou menor grau, com sua razão de ser, buscando o bem estar social. Que ninguém morra aos finais de semana, que ninguém adoeça durante o domingo, que a brancura da blusa das crianças se mantenha até depois do Fantástico... Porque eu fui eleito e meu decreto é lei! Do outro lado, ficamos nós os Franciscos, rindo de banda, abaixando a aba do chapéu, só esperando o prefeito morrer... (eu disse alguma coisa que faz sentido???)

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