segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sozinha


Ela chegou mais uma vez exausta. Ainda não entendia porque era preciso se matar de trabalhar enquanto jovem para depois, já velha, poder descansar relativamente tranqüila. Não poderia ser ao contrário? Receber a aposentadoria para só depois quitar a dívida com o INSS? Afinal, infelizmente já tomara conhecimento disso a algum tempo, a velhice é uma época em que nos consideram inúteis trastes rabugentos. Preferia gastar seus anos de descanso enquanto era jovem, enquanto era cortejada e podia contar anedotas sem graça, que faziam todos rir (mesmo que cheios de segundas intenções) por causa do seu charme juvenil. Assim, quando fosse velha, trabalharia como voluntária em um asilo, onde não ganharia mais atenção do que uma cadeira antiga, mas estaria entre mentes igualmente resignadas. Não adianta pensar sobre isso, era dar murros em ponta de faca, como dizia sua mãe. Vai entender esse sistema. Querer discutir em uma sociedade onde só se valoriza o novo é uma grande besteira, que nos dá o depreciador julgamento de idealista. Visionários. E pensar que gente assim não cansa de nascer por aí. Não entendem que é melhor aceitar e labutar como se fosse a única coisa que realmente se devesse fazer na vida.

Desde que começaram a dizer-lhe que já era uma adulta as responsabilidades não paravam de chegar. O que mais lhe entristecia era saber que agora, nunca mais poderia passar uma tarde vendo filmes em frente à TV, comendo biscoito com leite, debaixo das cobertas enquanto o sol esquentava a rua. Férias não contam, são como um desafogo do crachá, duram menos que um piscar de olhos e a sensação de descanso é bem diferente daquela tranqüilidade “vagabunda” do colegial. A menina morena também se lembra com carinho das tardes sem aula, dos deveres por fazer até por volta das seis horas, da bola na rua, dos pés sujos de terra vermelha, dos bons tempos de “Malhação”. Agora, olha triste para seus pés incrivelmente brancos, abandonados, sem resquícios daquele encardido de que tanto se orgulhava. Não resta nada a não ser suspiros. Cansada, se dirige ao banho.

“Você ta aí? Eu quero entrar.” Nem paz tem nessa vida de gente grande. É um tal de preocupar com a irmã, com o gato, o papagaio do vizinho, que não entende a palavra relaxar. Tem um pouco de culpa nessa parte, pois vive achando que pode carregar o mundo nas costas e ai de quem diz o contrário. Talvez a vida, como Kafka, deveria transformá-la em um inseto algum dia, para ver que precisam dela sim mas que não é nada insubstituível. Como diz seu velho pai, o cemitério está cheio de insubstituíveis. E chega uma hora que há alguém mais competente para poder ajudar.

Alta madrugada, quase na hora de levantar outra vez, finalmente adormece. Por vezes sonha com o escritório e toda a papelada que deixou por organizar. Tem pesadelos homéricos onde pilhas de processos a perseguem até a beira de um abismo. Acorda assustada de madrugada, fugindo daquele pandemônio irreal para deparar-se com a bagunça incrivelmente palpável do seu quarto de pensão compartilhado. Nessas horas, pensa em como acostumamos com tudo na vida, seja bom ou ruim. No início tentara manter tudo limpo e organizado, tendo o caos dos outros moradores levado a moça ao extremo da loucura onde reinavam gritos e sérias ameaças de morte. Quando por fim viu que de nada adiantaria lutar com seus esfregões e panos úmidos, decidiu matar realmente, mas ainda não estava sã o bastante para fazê-lo. Deixou-se vencer e via, indiferente, os montes de roupas sujas e poeira ir tomando seu espaço, escarnecendo de sua organização a cada instante. Mais suspiros.Levantou-se para beber uma água na cozinha. Os milhares de copos na pia já não lhe diziam mais respeito, nem os via na verdade. Encostou-se na mesa de jantar e, copo na mão, começou a sonhar acordada com um cantinho branco e limpo onde pudesse viver sozinha.

Uma casinha branca, lá no pé da serra só para ela morar. Seria uma casa sem móveis para não aparentar acúmulo desnecessário. De uma coisa não abria mão: um quarto, o maior de todos, para encher de estantes com livros. Traria flores todos os dias e elas ficariam perfumando os cômodos junto com os incensos sempre acesos e sem ninguém para maldosamente reclamar da “fumaça fedorenta”. Sua coleção de cristais poderia andar pela casa sem receios de tombos e mãos curiosas. E, o melhor de tudo, reinaria ali, em seu território, uma limpeza e organização sem igual. Essa perspectiva até alegrou o semblante desanimado da mulher. E, na expectativa de algo novo, mesmo que pequeno ou inatingível, deitou-se novamente, deixando-se embalar na onda dos sonhos solitários. Eram esses sonhos, tímidos e mirrados (a única coisa que restou de seus gigantescos ideais infantis) que ainda a mantinham acordada a cada outro dia que insistia em vir, monotonamente igual ao anterior.

3 comentários:

  1. Desculpem o atraso na publicação, mas houveram dois sisos que não me deixaram fazer muita coisa esse final de semana (mas pelo menos descobri que siso se escreve assim e não com "c" no início como era minha crença - juro que meu mundo quase caiu devido a essa incongruência de "s" e "c" :)

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  2. Mais do que a "Metamorfose" do Kafka, esse seu texto me lembrou alguns aspectos do "O Processo", do mesmo autor. Por causa dessa lógica do sistema, esmagando as individualidades, e fazendo com que a gente repita rotinas sem ao menos entender o motivo. Fico pensando o que existe de autobiográfico em textos tão dilacerantes como tem sido esses últimos seus. Eu adoro essa temática do "desajuste" em relação à sociedade, em relação ao próprio tempo. É o que há de mais real, e de onde costuma brotar a mais singela poesia =D

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  3. Eu arranquei 4 sisos de uma vez. Sou completamente desajuizado, portanto!

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