domingo, 30 de novembro de 2008

Indecisão


Marina Costa

Uma palavra. É impressionante como uma palavra, poucas sílabas reunidas, no máximo três, tem o poder de mudar tanta coisa. Muita coisa.
Quantas questões essenciais da vida não se resolvem com um sim, ou quantas tragédias se podem evitar com um não? Vive-versa também serve, o que não muda é que tudo depende de sílabas, pronunciadas a favor ou contra nossa vontade.
Já dizia um famoso escritor que até que o ser humano pudesse dominar o alfabeto, a fala, a comunicação muita coisa se passou. Mas digo que ainda mais difícil do que esse domínio é o domínio do entendimento, do ler nas entrelinhas do ouvir o que não foi dito, ler o que não está escrito.
As mulheres, dizem muitos, são escoladas em dizer o contrário do que querem, do que sentem, e ai do homem que entender aquilo que ela não quer que ele entenda. Complicado? Talvez... mas quando o amor entra em jogo tudo se explica, tudo fica fácil, completamente entendido!
Mais difícil do que entender o oculto, seria entender o não dito, não pensado. Quantas oportunidades não passam porque não sabíamos se dizíamos sim ou não, quero ou não quero, vou ou fico. Quanta coisa já perdemos na vida por não saber o que escolher. O preto ou o branco? Será que não pode ser cinza?
Não. Escolha. Ou isso ou aquilo, ouço desde a infância, não há caminho do meio. E pior do que não haver caminho do meio é que a vida não tem rascunho. Ao contrário das minhas crônicas não posso remendá-la, reescrevê-la, embolar a folha e começar tudo em um papel em branco. Nada de não saber! Aqui fora é aqui e agora ou nunca. Sem meios termos, sem choramingo.
E até que a gente aprende que é assim que as coisas realmente funcionam, bem, com o perdão dos bois, mas pastamos um bocado. Tudo é tão fantástico que queremos tudo, ou tudo é tão horrível que na verdade nem queremos nada. Mas não é assim. O mundo não é lugar para indecisos. Ou escolhe ou será escolhido. E a segundo opção talvez não seja tão atraente.
Me pergunto se então meu lugar é fora do mundo. Um lugar de completa indecisão. Todos livres sem ter que se curvar à pressão de ter que optar por algo. “Não sei” seria a frase mais ouvida nesse lugar, talvez “também” seria um verbete constante. Mas acredito que ao final morreria de fome pois não haveria quem decidisse o que se faria no jantar. É... são necessárias as escolhas da vida. Desde as mais insignificantes até as maiores, nada pode ser feito sem que se abra mão de um caminho. Sem que se deixe de viver o outro lado da moeda. E nós que convivamos com a frustração de não poder passar duas vezes pela mesma estrada e escolher a cada uma, jeitos diferentes de andar.
Mas afinal, o que é a vida senão uma constante frustração? Creio que nós, seres eternamente insatisfeitos, mesmo que pudéssemos viver ambas as coisas inventaríamos uma forma de obter uma terceira e esta sim, inatingível. Pois não podemos viver sem ter do que reclamar. O que seriam dos hipocondríacos da vida?
Vamos aprendendo, a fortes trancos e muitos barrancos, a levar nossas indecisões e incertezas só dentro de nosso peito. Que o mundo pense que somos sempre bem-resolvidos, e felizes com nossas escolhas. Ou ao final, poderemos todos morrer de fome enquanto o banquete está ali, bem a nossa frente.

domingo, 23 de novembro de 2008

Chuva


Henrique Fendrich
Foi quando os ânimos se acalmaram, e as pessoas puderam enfim relaxar. Quando todos estavam sentados, e pensavam coisas suaves. Quando o almoço ainda descia, e era dia de domingo. Quando todos os assuntos já haviam sido discutidos, e vivia-se um silêncio raro, uma pausa para que o acaso, ou algum acontecimento externo, nos mostrasse algo novo para se discutir. Quando não havia nada para se preocupar, e a televisão desligada não nos perturbava mais. Pois foi então, meus amigos, que o chefe da família esticou o pescoço até a janela com ar de curiosidade e, ao certificar-se do que se passava, voltou-se para nós e sentenciou, gravemente: "Está chovendo". Essas duas humildes palavras provocaram certo alvoroço entre nós. Primeiramente, ficamos espantados, e instintivamente olhamos todos para a janela, e pudemos ver com nossos próprios olhos. Realmente, estava chovendo. A nossa tranquilidade vespertina subitamente abalou-se. Notamos então que algumas toalhas estavam estendidas lá fora. A visão delas tomando chuva apavorou-nos. As mulheres soltaram gritinhos, e as pernas dos homens tremeram. Ainda assim, formou-se um pequeno exército, composto pelos mais bravos e corajosos homens que se dispuseram a enfrentar a chuva e tudo que dela surgisse, a fim de trazer as desprotegidas toalhas para um abrigo, onde poderiam descansar e seriam secas à vontade. Cumprida com sucesso a missão, em algum lugar a Marinha do Brasil deu um salva de tiros, em homenagem aos bravos guerreiros que enfrentaram as intempéries por um motivo tão nobre. Outro pelotão havia sido especialmente designado para subir até o sótão e fechar as janelas que, inadvertidamente, ficaram abertas. Esses valentes homens, no entanto, tiveram algumas baixas, pois alguns dos móveis ficaram molhados, sem que nada pudesse ser feito. Visivelmente humilhados, eles retornaram, mas nem por isso deixaram de ser condecorados com várias medalhas de honra ao mérito. Afinal de contas, impediram tragédia maior, e em pouco tempo estavam já consolados. Depois de alguns minutos, as coisas voltaram a serenar. Num novo momento de paz, a senhora da família achou por bem comentar que já era possível sentir o cheiro da chuva. Todos os presentes então apuraram o olfato e, encantados, concordaram unanimamente. Depois disso, cada um se entregou por alguns instantes a seus próprios pensamentos, que talvez cheirassem à infância. Pois pensando no tempo de criança, quase esquecemos das nossas, as quais, aproveitando-se da nossa distração, sutilmente começaram a caminhar em direção à chuva. Percebendo isso, organizamos uma pequena e rápida reunião, ao final da qual ficou estabelecido que o melhor a se fazer era voltar para dentro de casa, já que não havia nada para as crianças brincarem que não estivesse molhado. Com desculpas variadas, conseguimos convencer grande número delas a entrar. Antes disso, houve alguém que olhou pro céu e viu uma pomba, que pousava num cabo de energia elétrica. Com as asas abertas, a ave aproveitava a chuva para se lavar. A inesperada visão constrangeu a todos, e aceleramos os passos rumo ao interior da casa, antes que o clima de nostalgia fosse além do limite para uma família de bem. Gosto de pensar que também houve uma garota que se demorou um pouco mais, e que só tornou a entrar quando olhou pra cima, e deu graças a Deus.

domingo, 16 de novembro de 2008

No ônibus




Marina Costa
Hoje é dia de visitar a biblioteca pública durante meu horário de almoço, este curto espaço do meu dia, que é todo ocupado pelo serviço matutino e pela preguiça noturna; as únicas duas horas disponíveis para resolver meus pequenos problemas causados por essa vida civilizada. Pois se não fosse a civilização, eu não teria esses pequenos problemas. Nem horário de almoço. Mas também não teria que trabalhar.
Enfim, saí de meu local habitual, atravessei uma avenida, neguei esmola a um homem sujo que cheirava a álcool, cheguei na praça e subi no ônibus. Não que a biblioteca fique longe. Mas, convenhamos, andar debaixo de sol quente, atormentada pela poluição visual e sonora da cidade grande, parando a cada trinta passos em sinais que se mantêm eternamente fechados para pedestres, além do subir e descer ladeiras, não é bem a idéia que se tem de um programa de fácil digestão. Não que o ônibus não passe pelo mesmo caminho e seja impermeável as estas mesmas coisas. Mas pelo menos dentro dele estou sentada (na maioria das vezes) e como boa brasileira nasci cansada - as exceções da regra queiram por favor me desculpar o disparate.
Bom então, continuando, entrei no ônibus e me sentei na parte da frente, esperando o trocador liberar a passagem pois estávamos no ponto final e, apesar do motor ligado, havia um horário a respeitar. Além do que, o motorista, ainda não havia terminado sua animada discussão com o pipoqueiro.
Minha mente, para variar inquieta, dirigiu suas atenções ao volante e a chave na ignição. Tratou logo de fazer uma mirabolante viagem para passar o tempo inútil. Imagine - pensava ela - alguém sentar na poltrona do motorista e sair dirigindo esse ônibus... mais ainda, imagine eu, que não tenho nem carteira B, me sentar ali e sair dirigindo, só para distrair...
Eu andaria provavelmente menos de dez metros, pois naquela via movimentada, acabaria batendo em algo, o ônibus acabaria enguiçando ou poderia até levantar vôo – uma mulher no volante, como muitos dizem, nunca se sabe - enfim...
Mas ele se moveria, um pouco que fosse. Nessa aventura então eu me sentiria dona de minhas verdadeiras vontades. Os passageiros, desesperados com a alteração de sua sagrada rotina, gritariam, estarrecidos. Os motoristas e trocadores que se encontravam no ponto final, atordoados pelo movimento do ônibus fantasma, correriam atrás de mim a gritar “Páaaaaara!!!!!” ou “Pega!!!!”. Os transeuntes, parariam sua vida corrida para assistir aquele episódio inédito e engraçadíssimo – pois ora, vejam, que garota maluca! – diriam aos risos. E então, depois de segundos que pareceriam eternos ( tal é o poder da alteração na nossa mesmice diária), o ônibus finalmente pararia.
Eu desceria do lugar do motorista, calma, com um leve sorriso nos lábios - cara de quem sonha - com todos a me lançar olhares espantados-cômicos-raivosos e, ao chegar a viatura, o policial, de saco cheio das loucuras da capital me interpelaria para saber quais eram minhas pretensões.
“Uma terrorista querendo entrar com ônibus e tudo, em algum prédio público?”
“Uma louca fugida do hospício do quarteirão ao lado?”
“Uma ladra, integrante de uma gangue estabelecendo uma nova modalidade de roubo”?
Eu, em minha calma habitual, com a cara de quem sonha sendo interpretada como cara de quem tem parafusos a menos, responderia simplesmente que “ah, me deu vontade de dirigir um ônibus, uai!”
Talvez eu fosse presa ali mesmo e levada a uma delegacia, onde assinaria um B.O e receberia alguns comentários repressores por perturbar a ordem pública. Ou eles me amarrariam em uma camisa de força e ligariam para meus pais, para confirmar que eu não era certa de minhas próprias idéias. Poderia acontecer também de eu ser linchada ou ovacionada pela população ali presente (dependendo de ser início ou fim de mês). Ou então, vendo minha cara inocente, apenas me ameaçariam com a prisão e me mandariam embora dali aos gritos.
O único desfecho mais improvável do que essa minha idéia, seria aparecer nos lábios dos espectadores daquela cena fantástica um sorriso de entendimento e ver que eles aceitariam naturalmente o meu “deu vontade, oras!”, pois nessa vida tão regrada, quem no mundo não tem também idéias malucas de rebeldia?
O ônibus então saiu, me tirando do devaneio sem sentido, não sendo, obviamente, por obra minha.
Íamos aos solavancos típicos daquele transporte enquanto eu, já longe do motorista para não cair na tentação de lhe tomar aos sopapos a direção, olhava distraída a paisagem lá fora, as pessoas com sua habitual pressa, os sinais habitualmente fechados, as buzinas como sempre impacientes...
Divagava: “Ah mundo! Infeliz de nós que, domesticados em sua pobre rotina, perdemos a coragem de cometer atos insanos, com medo do que outros, tão insanos quanto nós, podem acabar pensando...” Mas, veja bem, que isso não é um movimento no sentido de “vamos todos sair por aí a dirigir ônibus”. É apenas um suspiro de desesperança pelo desejo de vivermos mais de acordo com nossas próprias vontades e não podermos. É simplesmente um... Bah! Vocês entenderam!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mundo Doce



Marina Costa
- Ei moça, me compra uma bala?
- Agora não tenho, fica pra depois.
- Só uma moça, pra eu poder ir embora...
- Mas...
E seu olhinhos esperançosos de criança pidona, mesmo eu sabendo que são pré-programados para nos comover, me vencem.
- Quanto é?
- Cinquenta centavos!
- É com leite condensado?
- É, bem docinha!
- Tá, me dá duas aí.
E estendo para a menina uma nota de dez reais, já sabendo no meu intímo maldoso que ela não tem como trocar.
- Ih! – ela diz exteriorando sua tristeza – tem trocado não?
- Não, só esse!
- Ah... deixa pra lá então...
E assim, livre da obrigação e ciente de que tentei cumpri-la, sigo meu caminho buscando outras coisas para pensar. Mas ainda chega as meus ouvidos:
- Moço, me compra uma bala?
Com a consciência pesada, vejo todo mundo passar sem tomar conhecimento da vendedora mirim. Volto, sento ao seu lado no passeio e ela pergunta cheia de expectativa:
- Você trocou moça?
- Você quer ir comigo tomar um lanche? – é minha resposta.
Ela pensa um pouco; por um momento vejo toda a sua vontade de ser só uma criança normal e sem preocupações tão “adultas”, de sair correndo dali e se lambuzar com chocolates e refrigerantes, deixando de lado aquele ofício tão difícil para sua pouca idade. Mas sua responsabilidade ofusca seus desejos infantis e ela responde:
- Não posso! Tenho que vender tudo isso ainda, antes de voltar pra casa.
- Mas você não está com fome?
- Bom, tá eu tô né? Mas se eu não vender, meus irmãos também não vão ter o que comer.
Olho sua caixinha com apenas quatro pacotes de bala. Acredito que seja mesmo difícil vendê-las principalmente ao final do dia, quando as pessoas, cansadas, não enxergam nada além de sua imensa vontade de chegar em casa.
Levanto, entro na lanchonete mais próxima, compro alguns salgadinhos e refrigerante tamanho extra e levo para ela.
- Toma amiguinha!
- Brigada moça!!!!!! - ela exclama sincera e sem deixar de lado balas e caixa, se põe a comer com um sorriso enorme no rosto, como se na vida não tivesse nada de tão bom como aquele momento.
Na minha cabeça se passa tudo o que pode ser essa menininha. Com seus oito, dez anos, pelo que aparenta, ela pensa mais em sua família do que na fome que sente. Parece não saber o significado de egoísmo. Quantos pessoas não demoram décadas para tentar desaprender o que é isso?
Eu, com meu coração mole de quem ainda não se acostumou com a miséria das grandes cidades, sinto meus olhos se encherem de água, pensando em sua inocência roubada pelas dificuldades da vida. Porquê?
- Nó – fala ela – agora posso trabalhar mais um tempão!
Eu rio de sem graça e compro suas balas para que ela vá logo para casa. Seu descanso talvez seja mais merecido do que o meu.
Em troca recebo um abraço. Não um abraço de gratidão ou de obrigação, mas um abraço de uma criança que se sentiu compreendida, no meio de tantos que não a escutam, que entende de bondade mesmo recebendo tantos dissabores e que encontra em cada dia difícil uma coisinha que é capaz de fazê-la sorrir e entender que viver, apesar de tudo, vale a pena. Uma pequena “Pollyana”, eu diria, com obstáculos bem mais tristes para fazer seu “Jogo do Contente”, mas que não deixa nada a desejar em comparação a esta outra, famosa e clichê, da literatura mundial. O quanto aprendi nesse dia ao esquecer um pouco minha diária correria maluca que, concluo, só servirá para me trazer a morte mais depressa.
- Tchau moça!
- Tchau mocinha!
E ela corre em direção o ponto de ônibus, pois sabe que o motorista, assim como a vida, não espera por ninguém.