domingo, 23 de novembro de 2008

Chuva


Henrique Fendrich
Foi quando os ânimos se acalmaram, e as pessoas puderam enfim relaxar. Quando todos estavam sentados, e pensavam coisas suaves. Quando o almoço ainda descia, e era dia de domingo. Quando todos os assuntos já haviam sido discutidos, e vivia-se um silêncio raro, uma pausa para que o acaso, ou algum acontecimento externo, nos mostrasse algo novo para se discutir. Quando não havia nada para se preocupar, e a televisão desligada não nos perturbava mais. Pois foi então, meus amigos, que o chefe da família esticou o pescoço até a janela com ar de curiosidade e, ao certificar-se do que se passava, voltou-se para nós e sentenciou, gravemente: "Está chovendo". Essas duas humildes palavras provocaram certo alvoroço entre nós. Primeiramente, ficamos espantados, e instintivamente olhamos todos para a janela, e pudemos ver com nossos próprios olhos. Realmente, estava chovendo. A nossa tranquilidade vespertina subitamente abalou-se. Notamos então que algumas toalhas estavam estendidas lá fora. A visão delas tomando chuva apavorou-nos. As mulheres soltaram gritinhos, e as pernas dos homens tremeram. Ainda assim, formou-se um pequeno exército, composto pelos mais bravos e corajosos homens que se dispuseram a enfrentar a chuva e tudo que dela surgisse, a fim de trazer as desprotegidas toalhas para um abrigo, onde poderiam descansar e seriam secas à vontade. Cumprida com sucesso a missão, em algum lugar a Marinha do Brasil deu um salva de tiros, em homenagem aos bravos guerreiros que enfrentaram as intempéries por um motivo tão nobre. Outro pelotão havia sido especialmente designado para subir até o sótão e fechar as janelas que, inadvertidamente, ficaram abertas. Esses valentes homens, no entanto, tiveram algumas baixas, pois alguns dos móveis ficaram molhados, sem que nada pudesse ser feito. Visivelmente humilhados, eles retornaram, mas nem por isso deixaram de ser condecorados com várias medalhas de honra ao mérito. Afinal de contas, impediram tragédia maior, e em pouco tempo estavam já consolados. Depois de alguns minutos, as coisas voltaram a serenar. Num novo momento de paz, a senhora da família achou por bem comentar que já era possível sentir o cheiro da chuva. Todos os presentes então apuraram o olfato e, encantados, concordaram unanimamente. Depois disso, cada um se entregou por alguns instantes a seus próprios pensamentos, que talvez cheirassem à infância. Pois pensando no tempo de criança, quase esquecemos das nossas, as quais, aproveitando-se da nossa distração, sutilmente começaram a caminhar em direção à chuva. Percebendo isso, organizamos uma pequena e rápida reunião, ao final da qual ficou estabelecido que o melhor a se fazer era voltar para dentro de casa, já que não havia nada para as crianças brincarem que não estivesse molhado. Com desculpas variadas, conseguimos convencer grande número delas a entrar. Antes disso, houve alguém que olhou pro céu e viu uma pomba, que pousava num cabo de energia elétrica. Com as asas abertas, a ave aproveitava a chuva para se lavar. A inesperada visão constrangeu a todos, e aceleramos os passos rumo ao interior da casa, antes que o clima de nostalgia fosse além do limite para uma família de bem. Gosto de pensar que também houve uma garota que se demorou um pouco mais, e que só tornou a entrar quando olhou pra cima, e deu graças a Deus.

Um comentário:

  1. Henrique e seu fantástico talento de transformar a vida simples em magia diária... Suas crônicas com toque de final de dia são as que mais me deixam em estado de graça... como a vida é linda e só o autor me faz ver isso! É a chuva que cai, é a pomba no fio, o cheiro de infância... e eu me perdendo em suas linhas com vontade de viver no papel! Crônica nostálgica com toque de vida... e se houvessem mais 1000 dessas talvez minha vida se restringiria à ficção... Aplausos!!!

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