segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mundo Doce



Marina Costa
- Ei moça, me compra uma bala?
- Agora não tenho, fica pra depois.
- Só uma moça, pra eu poder ir embora...
- Mas...
E seu olhinhos esperançosos de criança pidona, mesmo eu sabendo que são pré-programados para nos comover, me vencem.
- Quanto é?
- Cinquenta centavos!
- É com leite condensado?
- É, bem docinha!
- Tá, me dá duas aí.
E estendo para a menina uma nota de dez reais, já sabendo no meu intímo maldoso que ela não tem como trocar.
- Ih! – ela diz exteriorando sua tristeza – tem trocado não?
- Não, só esse!
- Ah... deixa pra lá então...
E assim, livre da obrigação e ciente de que tentei cumpri-la, sigo meu caminho buscando outras coisas para pensar. Mas ainda chega as meus ouvidos:
- Moço, me compra uma bala?
Com a consciência pesada, vejo todo mundo passar sem tomar conhecimento da vendedora mirim. Volto, sento ao seu lado no passeio e ela pergunta cheia de expectativa:
- Você trocou moça?
- Você quer ir comigo tomar um lanche? – é minha resposta.
Ela pensa um pouco; por um momento vejo toda a sua vontade de ser só uma criança normal e sem preocupações tão “adultas”, de sair correndo dali e se lambuzar com chocolates e refrigerantes, deixando de lado aquele ofício tão difícil para sua pouca idade. Mas sua responsabilidade ofusca seus desejos infantis e ela responde:
- Não posso! Tenho que vender tudo isso ainda, antes de voltar pra casa.
- Mas você não está com fome?
- Bom, tá eu tô né? Mas se eu não vender, meus irmãos também não vão ter o que comer.
Olho sua caixinha com apenas quatro pacotes de bala. Acredito que seja mesmo difícil vendê-las principalmente ao final do dia, quando as pessoas, cansadas, não enxergam nada além de sua imensa vontade de chegar em casa.
Levanto, entro na lanchonete mais próxima, compro alguns salgadinhos e refrigerante tamanho extra e levo para ela.
- Toma amiguinha!
- Brigada moça!!!!!! - ela exclama sincera e sem deixar de lado balas e caixa, se põe a comer com um sorriso enorme no rosto, como se na vida não tivesse nada de tão bom como aquele momento.
Na minha cabeça se passa tudo o que pode ser essa menininha. Com seus oito, dez anos, pelo que aparenta, ela pensa mais em sua família do que na fome que sente. Parece não saber o significado de egoísmo. Quantos pessoas não demoram décadas para tentar desaprender o que é isso?
Eu, com meu coração mole de quem ainda não se acostumou com a miséria das grandes cidades, sinto meus olhos se encherem de água, pensando em sua inocência roubada pelas dificuldades da vida. Porquê?
- Nó – fala ela – agora posso trabalhar mais um tempão!
Eu rio de sem graça e compro suas balas para que ela vá logo para casa. Seu descanso talvez seja mais merecido do que o meu.
Em troca recebo um abraço. Não um abraço de gratidão ou de obrigação, mas um abraço de uma criança que se sentiu compreendida, no meio de tantos que não a escutam, que entende de bondade mesmo recebendo tantos dissabores e que encontra em cada dia difícil uma coisinha que é capaz de fazê-la sorrir e entender que viver, apesar de tudo, vale a pena. Uma pequena “Pollyana”, eu diria, com obstáculos bem mais tristes para fazer seu “Jogo do Contente”, mas que não deixa nada a desejar em comparação a esta outra, famosa e clichê, da literatura mundial. O quanto aprendi nesse dia ao esquecer um pouco minha diária correria maluca que, concluo, só servirá para me trazer a morte mais depressa.
- Tchau moça!
- Tchau mocinha!
E ela corre em direção o ponto de ônibus, pois sabe que o motorista, assim como a vida, não espera por ninguém.

2 comentários:

  1. Ah, se mais gente prestassem atenção nessas coisas... Temos medo que pessoas simples assim se mostrem mais humanas que a gente. Por falar nesse lance de pobreza, indiferença das pessoas e tal, lembro do livro "Na Pior em Paris e Londres", do George Orwell, que se viu obrigado a virar mendigo, e enfrentar todo esse desprezo da sociedade. E quando a gente pensa que essas coisas também acontecem com crianças, a situação fica ainda mais triste.

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